Entrevista com Lionel Shriver

Autora de 11 livros e colunista do jornal britânico “The Guardian”, Lionel Shriver se firmou como um dos maiores nomes femininos da literatura contemporânea após o sucesso mundial do seu polêmico e chocante romance “Precisamos Falar sobre o Kevin”, o qual ganhou recentemente uma adaptação cinematográfica estrelada pela ganhadora do Oscar Tilda Swinton. O livro lhe rendeu o Orange Prize de 2005 e vendeu mais de 20 mil exemplares somente no Brasil. Em 2010, seu romance “So Much For That”, a ser publicado no país em 2012, foi um dos finalistas de ficção do National Book Award. Seguindo a publicação de “O Mundo Pós-Aniversário”, a editora Intrínseca lançou “Dupla Falta”, romance originalmente publicado em 1997 e sobre o qual a autora falou com o Jornal Opção.

“Dupla Falta” mergulha na mente competitiva do ser humano. Você acha que em todas as relações, seja entre irmãos, pais e filhos, cônjuges, existe uma competição, em menor ou maior grau? A raça humana é competitiva por natureza?

Eu hesitaria em afirmar que todas as relações humanas são competitivas por natureza. Ainda assim, sou uma crente liberta do darwinismo, e esta é uma grande força que existe por aí, frequentemente desempenhando um papel mesmo nos relacionamentos de pais e filhos. “Dupla Falta” aponta um problema particular e moderno: a dinâmica potencialmente destrutiva entre cônjuges. Essa energia é ainda potencializada se os cônjuges fazem o mesmo para ganhar a vida. Claro, um pouco de atrito produz fogo — que é uma razão para a relação entre os dois personagens começar a faiscar. Mas muito atrito põe a casa abaixo.

Uma das melhores coisas dos seus romances é a quantidade de informação sobre um ou dois assuntos: em “Kevin” foi sobre os massacres em escolas, em “O Mundo Pós-Aniversário” foi a sinuca, e em “Dupla Falta” o tênis. Sei que faz muita pesquisa, prepara uma base para o romance, mas por que tênis? Você queria saber mais sobre o esporte ou simplesmente é uma admiradora dele?

Eu precisava que esses personagens aspirassem a algo no qual eu entendesse que quisessem apaixonadamente ser bons, e o fizessem bem. Eu tenho sido uma (bem medíocre) tenista amadora desde pequena. Isso me deu um rumo. O que eu estimo no tênis, ainda assim, não é o ganhar per se; na verdade, quando eu jogo, quase sempre rebato, sem marcar pontos. Valorizo a sensação. Tênis é a única coisa que faço — até mais do que escrever — por si só, pela satisfação do momento, e não por alguma realização ou produto que resulta do esforço. É esta sensação — exultação, gratificação no instante do contato — que a personagem Willy Novinsky coloca em risco, e finalmente perde em sua busca pela vitória profissional. Há dois romances nesse livro — seu casamento e seu amor pelo tênis. Em alguns aspectos, a maior tragédia neste romance é Willy perdendo a alegria pelo tênis em si.

Enquanto lia “Dupla Falta”, percebi que, escrevê-lo com a estrutura de “O Mundo Pós-Aniversário”, com os universos paralelos, também daria grandes possibilidades aos personagens e ao enredo. O que pensa sobre isso? Se tivesse escrito o romance dessa forma, Willy seria bem-sucedida no tênis em uma das histórias?

Se eu fosse escrever uma versão de universos paralelos de “Dupla Falta”, teria a história A — Willy se torna um grande sucesso, enquanto seu marido é um fracasso — e a história B, seu marido se torna um grande sucesso, enquanto Willy é um fracasso. Na verdade, eu poderia ter escrito qualquer livro e feito o mesmo ponto básico. Mas eu escolhi escrever a história B em “Dupla Falta”, porque um marido se tornando irascível sobre o sucesso de sua mulher já foi feito antes. As mulheres de agora nutrem expectativas tão altas quanto as dos homens, e quando se descobrem no que costumava ser o casamento tradicional — homem provedor da família, mulher dona-de-casa — sentem-se principalmente humilhadas e deprimidas, como se estivessem decepcionadas. Supõe-se que os tempos mudaram, certo?

Curiosamente, nesse teórico universo paralelo de “Dupla Falta”, acho que o casamento teria sobrevivido se Willy fosse a bem-sucedida, enquanto seu marido fracassasse — pelo menos no tênis. Eric é retratado como alguém extremamente confiante em tudo o que faz, e também como um homem que não tem a mesma atração impetuosa pelo tênis que sua esposa tem. (Este pequeno traço de indiferença é uma das razões para ele se sair tão bem no esporte; muito investimento emocional pode se traduzir em ser arrebatador na quadra.) Se Eric não desse certo como um tenista profissional, ele simplesmente seguiria adiante para fazer alguma outra coisa. Ele continuaria mudando até encontrar algo que funcionasse para ele. O que salvaria o casamento. Willy não tem a flexibilidade para fazer isso. Ela se vê como uma jogadora de tênis — o que certamente daria problemas a ela mais tarde, mesmo se sua carreira fosse sem dificuldades. Você não pode ser um tenista profissional muito além dos 40 anos.

Sei que um dos seus livros preferidos é “Revolutionary Road” (“Foi Apenas um Sonho”), de Richard Yates, e notei algumas semelhanças entre ele e “Dupla Falta”, como as discussões do casal, o declínio do casamento, a tragédia grega, as decisões de Willy no final da história. Sendo assim, seu romance foi influenciado pelo Yates? Se sim, quando? Antes ou durante o processo criativo?

Eu li “Revolutionary Road” vários anos antes de escrever “Dupla Falta”, por isso não serviu como uma inspiração imediata, consciente. No entanto, eu nunca resisto às comparações com Richard Yates, simplesmente porque acho esse paralelo tão lisonjeiro! Eu amo esse livro. Uma das principais características que “Revolutionary Road” e “Dupla Falta” têm em comum é estrutural. Ambos são tragédias clássicas, incluindo a tragédia grega. Os personagens de Yates são baseados na ideia de si mesmos como superiores aos seus vizinhos — o que de fato eles não são. Willy Novinsky é baseada em sua valorização na vitória e na conquista sobre o amor — e então ela não destrói só o amor, mas também não consegue a vitória nem a conquista. Você pode argumentar que ela merece o que acontece a ela.

4 Comentários
  1. Nossa, que bacana essa entrevista!
    Da Lionel, por enquanto, só li “Precisamos falar sobre o Kevin” e me impressionei muito com a narrativa. É um dos melhores livros que li na vida!

    1. “…Kevin” também é um dos melhores livros que li na vida, o que me deixou receosa para ler os outros livros dela, mas Lionel não decepciona, O Mundo Pós-Aniversário é excelente e Dupla Falta, que li na semana passada, ainda estou em estado de êxtase.

  2. Ah, que ótimo ver essa entrevista aqui, Fran. 🙂 Acho que foi uma das coisas mais prazerosas que já fiz. E o pior de tudo é ter o email da Lionel e não poder escrever a ela todos os dias. : haha

    Beijo!

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