Eu nunca falo de café

Na música, no cinema e na literatura podemos ver que simples detalhes ficam de fora e assumem grande importância no papel fundamental da história. Enquanto você acorda, vai ao trabalho, conversa, pensa, discute, vê uma paisagem, liga para o seu amigo, anota itens importantes numa agenda, preocupa-se com a conta de energia elétrica que ainda não chegou, pensa no livro que leu ontem antes de dormir, lembra de um abraço na última festa, sente fome, almoça com pressa para correr ao banco, dirige, canta desafinado sua música preferida, há uma mágica constante nesses passos que traz ao “chegar em casa, descansar, ligar a televisão, preparar um lanche e dormir”, a sensação de dever cumprido, de mais uma missão da misteriosa vida finalizada com um bom índice de paz. É a vida acontecendo. Amanhã começa tudo de novo.

Talvez seja um perfume, uma lembrança, alguma coisa que está em você, mas que é invisível no sentido mais simples, pois não falo de misticismo, falo de sensações. Tente imaginar por que você sorriu quando viu aquela paisagem. Por que aquela música preferida ainda te emociona depois de tanto tempo? Imagine mais e tente responder de forma concreta. É a ou b. Virginia Woolf dizia que em todos os dias, durante todas as horas, a vida estava repleta de acontecimentos e era isso que ela buscava em suas obras, os pequenos acontecimentos quase secretos. Qual é o seu? Eu sinto um cheiro bom que não vem do perfume da roupa, mas é o que me acompanha diariamente, desde os meus primeiros olhares atentos da manhã enquanto espero o pão fresquinho aos últimos pensamentos antes de dormir.

Vou lá buscar um café.

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Francine Ramos

Faz da Livro&Café parte essencial de sua vida desde 2011. É professora de Língua Portuguesa, adora ler, escrever (um dia vai publicar um livro) e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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