o homem duplicado

O conto da ilha desconhecida (José Saramago)

No conto sempre alguma coisa fica de fora”, escreveu Katherine Mansfield num inverno cortante de 1900 e alguma coisa. A contista neozelandesa era assim: prática, precisa, consistente, que fez de sua curta passagem por essa vida, um ode à literatura de qualidade. Seus contos utilizam pequenos acontecimentos do cotidiano para mostrar que a vida pode ser uma boa aventura.

Mas agora repenso sobre essa frase que sempre acreditei ser verdadeira, no conto sempre alguma coisa fica de fora, mas então você lê José Saramago e seu quebra-cabeça literário, já tão confuso e difícil de entender, perde algumas peças que representam as dúvidas: o conto é menor que o romance? Se sim, de que forma? Se não, por quê? O que fica de fora? Se for algo importante, o conto não é bom; se for algo inútil, é correto ficar de fora.

A partir daqui o texto contém spoiler. Leia o conto e volte. 

o homem duplicado
José Saramago

Em “O conto da ilha desconhecida” há vários assuntos que se entrelaçam e todos, juntos, ganham a força tão característica de Saramago: personagens simples vivendo uma grande aventura que, aos olhos dos comuns (nós), são impossíveis de acontecer até a leitura do conto se tornar uma luz possível.

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Personagens sem nomes e inconfundíveis: a moça da limpeza e o homem que vai pedir um barco ao rei. Ele quer encontrar uma ilha desconhecida, é avisado que ilhas desconhecidas não mais existem, que todas já foram catalogadas pelos geógrafos do rei. Ele insiste “porque é impossível que não exista uma ilha desconhecida”. A moça da limpeza, por impulso e por ver na atitude do homem um ato de coragem, decide ir até o barco também. E os dois personagens, ainda desconhecidos um para o outro, travam o combate de “bombordo a estibordo“, para aquele difícil primeiro passo após a empatia se transformar numa relação verdadeira.

A ilha desconhecida é representada de diversas formas: o encontro entre a mulher da limpeza e o homem do barco; o desejo do homem em ter um barco; o impulso da mulher em querer mudar de vida; a coragem dos dois personagens. “Eram os dois ou um só, era o homem a descobrir que era também uma ilha em busca de si mesma e que no fim de tudo estava a procurar por si próprio quando saiu de casa para pedir um barco ao rei.

José Saramago é um escritor que me encanta muito. Gosto da sutileza que ele usa e, mesmo assim, as ações dos personagens ficam muito claras, transparentes. E voltando a ideia de Katherine Mansfield, que no conto sempre alguma coisa fica de fora, só tenho a lamentar que ela não conheceu José Saramago, um dos grandes nomes da literatura mundial. Com certeza, ao descobrir sobre a profundidade de uma ilha desconhecida, sua frase sobre as possíveis falhas de um conto teria um foco diferente, outro sentido, outras ilhas.

A Ilha Desconhecida fez-se enfim ao mar, à procura de si mesma.

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Francine Ramos
Editora da Livro&Café desde 2011. É professora de Língua Portuguesa e tenta ser escritora (um conto seu foi publicado na coletânea Leia Mulheres, em 2019). Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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1 comentário

  1. Oi, Francine! Estou aqui passeando pelo seu blog e vi essa resenha. Li o conto há pouco tempo e escrevi sobre ele lá no blog…:
    “Esse livro me lembrou de Eros e Psiqué, do Fernando Pessoa. E mais: “Navegar é preciso; viver não é preciso”. Enquanto a vida é limpar o castelo, receber homenagens, fazer pedidos, esperar sua vez na fila, alguém acredita que existe o desconhecido que vale a pena buscar. Para encontrar a ilha, é preciso navegar, sair de si, do seu lugar. Se o viajante ficar preso a si mesmo nunca vai se enxergar. Criar é preciso. Ninguém sabe o que é a ilha, onde está, até buscá-la, até transformar essa rota no mar incógnito no próprio destino.”
    Bjos!

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