Mrs Dalloway & Cia caminham por Londres em 1923 [parte 1]

Uma das coisas mais legais em manter um blog literário é a possibilidade de conhecer pessoas que gostam dos mesmos escritores que você. E também conhecer alguém que trabalhou com alguma grande obra da literatura, que é o caso de Tomaz Tadeu, o tradutor da edição da editora Autêntica do romance Mrs Dalloway. Desde a época que, em parceria com a editora, sorteei o Estojo Mrs Dalloway, trocamos e-mail, e numa dessas conversas ele me “presenteou” com um texto sobre o romance Mrs Dalloway que será publicado aqui no blog durante esta semana.

O texto, dividido em 5 partes, é um passeio sobre os caminhos que cada personagem do romance Mrs Dalloway percorreu em Londres, num dia de junho de 1923.

Acompanhe a jornada.

Abaixo a primeira parte.

1. Mrs Dalloway

A narrativa de Mrs Dalloway tece uma emaranhada teia de caminhos que se cruzam na Londres de um dia de junho de 1923, dos quais o mais importante é o da personagem que dá título ao romance, Clarissa Dalloway. Como sabemos, ela sai de casa no meio da manhã, para comprar flores para a sua festa, no final de um dia de junho de 1923. Não sabemos exatamente a hora. (Também não saberemos onde, exatamente, mora o casal Dalloway. Por uma informação lateral (p. 119), dada quando, mais adiante, Richard Dalloway volta à casa após uma visita a Lady Bruton, apenas ficamos sabendo que residem em alguma rua nas proximidades do Dean’s Yard, um quadrilátero gramado, não residencial, situado nos domínios da Abadia de Westminster, em torno do qual se situam a Westminster School e outros edifícios ligados à Abadia.) O Big Ben bate as horas enquanto ela cruza a Victoria Street, mas não somos informados de que hora se trata. Mas, como mais adiante, na cena do aeroplano, ouve-se novamente o Big Ben (supostamente, pois a narrativa menciona apenas “os sinos”) bater as horas (p. 22) e, dessa vez, nos dizem, são onze horas, pode-se presumir que Clarissa cruza a Victoria Street, a partir do lado sul, às dez horas. Pouco depois, ela entra num parque, o St. James’s Park (http://goo.gl/yAj4P), pode-se supor, acompanhando-se o roteiro num mapa de Londres (e também porque é explicitamente nomeado um pouco mais adiante).

Nos mapas que acompanham algumas edições de Mrs Dalloway, costuma-se indicar o percurso exato de sua caminhada, mas trata-se de dedução, pois tudo o que a narrativa nos fornece são alguns dos pontos pelos quais ela passa. Assim, não sabemos exatamente como ela foi da Victoria Street até a entrada do parque (pelo portão chamado Storey’s Gate, adivinha-se, pois é o portão situado no canto  sudoeste do parque, na rota do seu caminho.) Também não se sabe por qual caminho atravessou o parque, mas certamente não foi, como se indica nos mapas que acompanham certas edições do livro, através da ponte (Blue Bridge) sobre o lago, hipótese incompatível com a informação de que ela aí encontrou seu velho amigo Hugh, “de costas para os edifícios do Governo” (p. 7), que ficam a sudeste do parque. Assim, ela só pode ter atravessado o parque pelo caminho que o costeia do lado leste, paralelamente à Horse Guards Road. (Seu amigo Hugh teria feito o mesmo caminho, na direção contrária, e, para ele estar de costas para os edifícios governamentais, teriam se encontrado logo na entrada do parque, como, aliás, sugere o próprio texto).

A próxima informação que temos sobre o seu trajeto é que “tinha chegado aos portões do parque. Ficou um instante parada, observando os ônibus na Piccadilly” (p. 10). Mas não se trata mais do St. James’s Park, onde a vimos pela última vez, mas do Green Park (http://goo.gl/Zx448), situado a noroeste do St. James’s. Na verdade, ela passou pelos dois parques, saindo na rua Piccadilly, onde viu os ônibus passarem. Quando a vemos de novo, ela está contemplando a vitrine da livraria Hatchard’s, localizada no nº 187 da Piccadilly, o que sugere que, ao sair do Green Park, ela teria dobrado à direita na Piccadilly, mantendo-se na calçada do lado sul, caminhado ao longo dessa rua, passado a Bond Street, que nela desemboca, partindo do norte, para ir até a Hatchard’s (real), mais adiante, ainda na calçada sul da Piccadilly (cf. SUTHERLAND, 2001, p. 218). É por ter passado a entrada da Bond Street, estando no lado sul da Piccadilly, que mais adiante ela dá meia-volta e começa a “caminhar de volta para a Bond Street” (p. 12). Aí ela passa por uma peixaria, por uma loja de luvas, “em direção a uma loja em que se reservavam flores para ela quando dava uma festa” (p. 13), onde entra pouco depois: “Bobagens, bobagens! exclamou para si mesma, empurrando a porta giratória para entrar na Mulberry [fictícia], a floricultura” (p. 14). É quando está no interior da floricultura que ouve a explosão de um carro a motor. (Enquanto Clarissa ainda está no interior da floricultura, passa pela Bond Street o casal Smith, Septimus e sua esposa, a caminho do Regent’s Park e de sua consulta com o Dr. Bradshaw.) Quanto à Clarissa, após todo o barulho em torno da passagem do carro oficial, sai da “Mulberry com suas flores” (p. 18). Só a veremos novamente já chegando em casa, tendo perdido a cena do avião escrevente, presenciada por outros transeuntes: “‘O que estarão olhando?’, perguntou Clarissa Dalloway à criada que lhe abriu a porta” (p. 30).

Notas

1. Não sei a respeito dos outros tradutores, mas, no decorrer de uma tradução, acumulo uma grande quantidade de material (anotações, informações, esclarecimentos) que não podem ser incluídos no livro, mas que me foram úteis. Em geral, trata-se de informações que poderiam ter se transformado em notas, mas como, em geral, evito notas enciclopédicas ou didáticas, elas acabam ficando de fora da edição final. O texto acima foi escrito, quase ao final da tradução, quando estava às voltas com a melhor maneira de incluir um mapa de Londres na edição (após ter brincado com várias ideias, acabei me decidindo por pedir à artista que estava trabalhando comigo, Mayra Martins Redin, que fizesse um mapa estilizado de Londres, que é o que aparece nas folhas de guarda tanto do romance quanto do Diário de Mrs Dalloway.)

2. Os endereços de sites (URLs) após os nomes de parques são de magníficos mapas tridimensionais dos parques de Londres, do site oficial The Royal Parks.

3. As páginas remetem à edição de Mrs Dalloway publicada pela Autêntica Editora, com tradução de Tomaz Tadeu.

4. O mapa que encabeça este post foi feito por Mayra Martins Redin, que também fez os desenhos do Diário de Mrs Dalloway que faz parte do estojo da edição de Mrs Dalloway, publicada pela Autêntica.

Tomaz Tadeu

Imagem: Ilustração de Mayra Martins Redin para o Estojo Mrs Dalloway, Ed. Autêntica, 2012.

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