Os Enamoramentos (Javier Marías)

Capa de livro é um assunto extra. É como ser fã de bombons e colecionar as embalagens, mesmo quando feias, estranhas, opostas ao conteúdo, do jeito que for, sempre há o momento em que o leitor olha para a capa em busca de sinais. A capa de “Os Enamoramentos” é muito bonita, suave, elegante, assim como o conteúdo do romance.

Quem narra é a personagem principal, Maria, funcionária de uma editora, acostumada a lidar com os egos dos escritores e uma observadora da vida, como os bons leitores também são.

Todos os dias, na cafeteria próxima ao seu trabalho, sozinha, Maria observava, com um olhar romântico, um homem e uma mulher que “era como se houvessem adquirido o costume de respirar juntos um pouco”. Na imaginação dela, o casal não havia percebido a sua presença, porém, no decorrer da narrativa, ela descobre que também era assunto do casal perfeito.

O acontecimento que dá o pontapé inicial à narrativa é que Desvern, o homem do casal perfeito, morre de uma forma estúpida. E assim o caminho das duas mulheres se encontra: Luisa, sozinha e infeliz, chama Maria para dividir a mesa da cafeteria.

O homem morto permanece vivo no romance e outros personagens dão estrutura suficiente para que a história continue interessante, afinal, quando um personagem morre no início da trama, o mistério precisa continuar e, claro, sem o velho clichê “quem matou Odete Roitman”, e é isso que Javier Marías faz: o romance de ações lentas e grandes digressões, é uma busca de entendimento sobre a vida, os aspectos positivos e negativos, os bons e os maus, que inicia com uma narradora insegura, mas que amadurece um pouco a cada capítulo, nas revelação que ela mesma se permite buscar.

Destaco também a importância do romance “O Coronel Charbet”, de Balzac, para funcionar como engrenagem da narrativa, pois é a ideia dessa novela – a possibilidade de um morto voltar à vida – que faz a história caminhar por trilhos diferentes. Outras obras literárias importantes, como Macbeth, de Shakespeare e a Bíblia, também dão sua contribuição por meio do personagem Díaz-Varela, amigo do “casal perfeito” e o homem por quem Maria é apaixonada.

Mas por que o nome “os enamoramentos”? Por que Luisa amava Desvern, que foi morto. E Maria amava Díaz-Varela, que amava…

É que os que, como eu, pensamos na morte e paramos para observar o efeito que ela produz nos vivos, não podemos evitar de nos indagar de vez em quando o que aconteceria depois da nossa, em que situação ficariam as pessoas para as quais significamos muito, até que ponto ela as afetaria. (p. 94)

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Francine Ramos
Editora da Livro&Café desde 2011. É professora de Língua Portuguesa e tenta ser escritora (um conto seu foi publicado na coletânea Leia Mulheres, em 2019). Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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1 comentário

  1. Logo de cara me apaixonei pela capa e pelo título. Adorei a sinopse e tal…teve momentos que eu dizia ser um dos melhores romances que havia lido até então. Algumas passagens são realmente fantásticas, daquelas de lhe tirar o fôlego. No entanto chega uma hora que o livro “morre” e aí não tem mais nada o que fazer, a não ser dar continuidade simplesmente com o intuito de terminar e/ou ver se no final tem algo de surpreendente. Mas não, não tem nada de mais. O ponto positivo do livro que eu tirei foi em relação à maturidade com a qual a personagem Maria teve de deixar de lado seus maiores desejos, como o de uma possível vingança, mesmo tendo todas as provas possíveis, e o fato de não persistir com aquela pessoa que você tem certeza que não vai dar em nada, mesmo você estando apaixonada por ela. Enfim, tem como tirar proveito de qualquer romance!

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