Diário de Leitura Mrs Dalloway #3 Viver é muito perigoso

Quando encontramos aqueles grandes livros, que nos tiram do lugar comum e permitem uma nova vivência humana, achamos que nunca mais encontraremos algo igual, similar ou na mesma grandeza, como quando sentimos pela primeira vez o amor. Mrs Dalloway é um desses livros, assim como Grande Sertão: Veredas do gigante Guimarães Rosa.

Lá na página 10 há uma frase de Clarissa Dalloway sobre os perigos de viver, um sentimento também demonstrado por Riobaldo, o sertanejo protagonista de Grande Sertão… Ele, durante sua maravilhosa narrativa, utiliza diversas vezes a frase “viver é muito perigoso”. Sábias palavras de Guimarães, que Virginia Woolf também usa por meio de sua protagonista:

Não diria de ninguém no mundo, agora, que era isso ou aquilo. Sentia-se muito jovem; ao mesmo tempo, indescritivelmente envelhecida. Passava como um bisturi através de tudo; ao mesmo tempo, ficava do lado de fora, assistindo. Tinha a perpétua sensação, enquanto observava os táxis, de estar longe, longe, muito longe, no meio do mar, e só; tinha sempre o sentimento de que viver, mesmo que um único dia, era muito, muito perigoso.

 Mrs Dalloway foi publicado em 1925, Grande Sertão:Veredas em 1956. Será que Guimarães Rosa lia Virginia Woolf? Será? #pesquisar

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Uma visualização da própria vida

A partir de pensamentos sobre pessoas que fazem parte de sua rotina, Clarissa visualiza a sua própria vida e divaga sobre as agruras de ser tal coisa e não outra. Ela faz isso quando pensa em seu marido Richard, tão prático em suas relações; em sua filha Elisabeth, que não dá importância a quase nada; e Srta Kilman, tão solícita com as pessoas distantes e faz da própria vida e a do próximo puro sofrimento.

O que há de interessante no estilo de Virginia Woolf é esse poder de dizer muito em poucas páginas, pois o que difere Clarissa de personagens clássicos e comuns é a sua clareza em querer lidar com “o aqui e agora”, em achar uma tolice a preocupação de pensar “isso ou aquilo” sobre as pessoas e a partir disso procurar se livrar desses apoios superficiais da sociedade.

Viver é muito perigoso para Clarissa Dalloway

Clarissa Dalloway é uma personagem moderna, que quebra barreiras machistas sutilmente, traça um desenho da mulher do final do século XX (e também do século XXI), que quer ser dona de seu próprio nariz, totalmente capaz de viver uma aventura em busca de um sentido para a vida, sem a resposta ser um casamento ou filhos:

Seria muito melhor se ela fosse uma daquelas pessoas, como Richard, que fazia as coisas por si mesmas, ao passo que ela, pensou, esperando para cruzar a rua, fazia as coisas, a metade do tempo, não simplesmente por si mesmas; mas para que as pessoas pensassem isso ou aquilo; perfeita idiotice, ela sabia (…), pois nunca ninguém, por um segundo sequer, se deixava enganar. Ah, se ela pudesse começar a vida outra vez! pensou, pisando no passeio, ela poderia ter até mesmo uma aparência diferente!

p. 12

A frase acima revela sobre o que é o romance Mrs Dalloway: uma busca de identidade pelo gigante sertão que há dentro de nós mesmos. Assim como o personagem Riobaldo, criado por Guimarães Rosa, Mrs Dalloway também parte para uma grande aventura, mas nas veredas de Londres em busca de um novo sentido para a sua vida.

Roía-lhe, contudo, ter esse monstro brutal se mexendo dentro dela! ouvir gravetos estalando e sentir cascos fincados nas profundezas desta floresta coberta de camadas e camadas de folhas; a alma; nunca estar inteiramente contente, ou inteiramente segura, pois a qualquer momento a fera podia estar se mexendo, esse ódio, que, especialmente, desde a sua doença, tinha o poder de fazê-la sentir-se arranhada, ferida na espinha; que lhe causava dor física, e que sacudia, balançava e vergava todo o prazer que pudesse ter na beleza, na amizade, em sentir-se bem, em sentir-se amada e tornar sua casa agradável, como se de fato houvesse um monstro escavando as raízes, como se toda a panóplia de contentamento não fosse nada além de amor-próprio! este ódio! (p. 14)

(Ilustração de Mayra Martins Redin para o Estojo Mrs Dalloway, Ed. Autêntica, 2012.)

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Francine Ramos
Editora da Livro&Café desde 2011. É professora de Língua Portuguesa e tenta ser escritora (um conto seu foi publicado na coletânea Leia Mulheres, em 2019). Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.
Artigos: 832

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3 comentários

  1. Ótima a referência a Guimarães Rosa com o seu Riobaldo.

  2. João Guimarães Rosa
    João Guimarães Rosa

    Prezada Francine,

    parabéns pelo blog. Excelente. Uma pequena correção, o personagem de Grande Sertão é Riobaldo e não Teobaldo.

    Abraços,

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