Diário de Leitura Mrs Dalloway #8: o beijo, o amor, a vida

O amor e a religião! Pensou Clarissa, voltando à sala, tremendo toda. Como são detestáveis, como são detestáveis! Pois agora que o corpo da Srta. Kilman não estava à sua frente, era isso que tomava conta dela – a ideia. As mais cruéis das coisas do mundo, pensou, vendo-as, sem graça, inflamadas, hipócritas, bisbilhoteiras, invejosas, infinitamente cruéis e inescrupulosas, vestindo uma capa de borracha, sobre o patamar da entrada; o amor e a religião.  ( p. 127)

Mrs Dalloway pensa diferente sobre o amor e a religião (imagine a repercussão dessa personagem a partir de 1925, quando foi publicado) e talvez por isso ela seja comentada como uma mulher moderna à frente do tempo. Temos a tendência em acreditar, mesmo que por breves instantes, que as mulheres modernas não se apaixonam; não sofrem; não sentem. Uma grande bobagem muito confundida para quem apenas ouve e reproduz os aspectos a serem considerados sobre a evolução da mulher. Ser uma mulher livre é muito mais (não de além, mas de diferente) a queimar um sutiã, a fazer sexo por prazer, a ouvir funk, a não ter filhos, a não querer filhos… Ser uma mulher moderna é ter a liberdade da escolha – para tudo –, e não ser julgada por um comportamento assim ou assado. Se permitir ser, acima de tudo. No romance Mrs Dalloway, a própria protagonista é assim e também Sally, amiga dela, que a beijou no passado. O beijo, tão comentado como se fosse importantíssimo para o romance e não é. Mas deixou a sua marca por ser revelado com naturalidade, com verdade. Sally, uma personagem muito divertida, espontânea e sincera beijou a amiga porque quis beijar a amiga e fim. Tudo o que compõe a cena do beijo é fruto da imaginação de cada um, que pode ser positiva ou negativa, como comentei: o olhar sobre a mulher, o sentido de ser mulher.

Cada cena de Mrs Dalloway compõe atitudes, sentimentos e situações adversas e o que há de comum entre elas é o tempo. O Big Ben revela as horas, incomoda com a sua batida ao ponto de avisar que ele, o próprio tempo é que irá resolver as complicações de cada personagem, assim a leitura flui de uma forma que o leitor não se preocupa com as soluções do problema, como num romance policial, e sim abre os olhos porque percebe que cada frase do texto é capaz de transformar a realidade da obra e a sua própria realidade. Os personagens sentem amor, ódio, raiva, felicidade, tristeza, depressão, medo, insegurança, solidão, querem viver e querem morrer. E tudo isso, cada parte disso e tudo junto, é que faz do romance Mrs Dalloway uma obra-prima, que mergulha sem medo nas pedras do caminho e com muita honestidade. E paira no ar o sentido de “deixemos o tempo resolver as coisas e vamos viver”.

“O amor… mas aqui o outro relógio, o relógio que sempre batia dois minutos depois do Big Bem, vinha se arrastando com o seu regaço cheio de restos e retalhos, que descarregou como se o Big Bem, tão solene, tão justo, estivesse, com sua majestade, no perfeito direito de ditar a lei, mas ela tinha que se lembrar também de todo o tipo de pequeninas coisas – a Sra. Marsham, Ellie Henderson, taças para os sorvetes -, todo o tipo de pequeninas coisas que chegavam alagando e envolvendo e balançando, na esteira daquela solene badalada que caía de chapa como uma barra de ouro na superfície do mar.” (p. 129)

Eu já terminei a leitura do livro, mas não sei se quero encerrar este diário. Há muitas anotações no livro, muitos pensamentos que ainda pedem um texto só para eles. Então, continua aberto  o Diário de Leitura Mrs Dalloway. Livro bom é assim: ler; ler; ler; e pensar para sempre.

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Francine Ramos

Faz da Livro&Café parte essencial de sua vida desde 2011. É professora de Língua Portuguesa, adora ler, escrever (um dia vai publicar um livro) e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

3 Comentários
    1. Olá Danilo!

      Ainda não li Ao Farol, mas assim que eu ler, faço a resenha, pois gosto muito de escrever sobre a Virginia Woolf.

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