Livro&Café Entrevista: Alex Sens Fuziy

Alex Sens Fuziy ganhou em 2012 o Prêmio Governo Minas Gerais de Literatura na categoria “jovem escritor”. Agora ele tem menos de 6 meses para escrever 300 laudas do romance O Frágil Toque dos Mutilados (acompanhe tudo sobre o romance no blog). Em entrevista para o Livro&Café, ele contou sobre o livro de estréia, que já nasce premiado, e também as suas experiências literárias, onde tudo começou e o que o inspira.

Quando você decidiu pela literatura?

A primeira resposta que me veio à mente foi aquele tipo de frase de efeito como “a literatura se decidiu por mim”. Mas seria mentira — ou uma verdade incompleta. Eu decidi pela literatura quando percebi que me sentia seguro e absolutamente eu mesmo nesse campo cheio de sombras, mas também de luzes. Foi uma decisão gradual; ela foi se abrindo, se mostrando, revelando um universo de possibilidades que a criação artística oferece. Decidi por ela quase inconscientemente, porque foi intrínseco, e daí posso voltar à ideia clichê de que ela se decidiu por mim. Quando vi, já estava escrevendo e me interessando mais pela escrita do que por qualquer outra coisa, inclusive chocolates, livros novos, a previsão do tempo ou o resultado da loteria. Talvez a minha “decisão”, ou pelo menos a primeira faísca desta carreira, tenha se dado nos meus 14 anos, quando depois de ler dezenas de romances policiais e novelas de terror, eu mesmo decidi escrever meu primeiro romance juvenil. De lá para cá vieram amadurecimento, cuidado estético, construções narrativas muito mais elaboradas, mais bem lapidadas.A escrita é a estrutura da casa a que chamamos de livro — lemos as paredes, mas a história está dentro, escondida entre os tijolos feitos de diamante bruto, como um segredo a ser quebrado pelo olhar pontiagudo; toda a dificuldade, toda a brutalidade, toda a sinuosidade da escrita estão por trás de um mero conjunto de palavras. Decidi-me pela literatura quando atingi o mistério da coisa.

Qual é o melhor momento: quando a ideia surge ou quando você coloca o ponto final no texto?

Gosto destes dois momentos, tanto quanto do momento intermediário, do processo, da construção, do brotamento do texto. Mas se preciso escolher, fico com o surgimento da ideia. Quando você vê umaestrela cadente, um cometa (por que não?), a espantosa alegria da apreciação surge no instante em que a luz se dá, quando o escuro é riscado? Ou quando aquele brilho milenar já desapareceu? Meu total prazer se dá no primeiro susto da surpresa, assim é com o texto. Não é mentira quando alguns escritores, pintores, músicos, atores ou dançarinos se referem ao fluxo artístico como uma espécie de possessão. Esta primeira ideia me possui e dela se avoluma e se expande todo o resto, todo o prazer da escrita. Embora o ponto-final guarde por si só um alívio tão libertador quanto um orgasmo, ele é só o exorcismo.

Quais foram suas experiências literárias antes de “O Frágil Toque Dos Mutilados?

A primeira foi na forma de uma redação — isso conta? Com meus 12 anos de idade ganhei um concurso de redação da minha escola e fui para Belo Horizonte conhecer Ziraldo e Samuel Costa, o ator que interpretava o Menino Maluquinho. Depois veio o romance juvenil aos 14 anos, lido na minha classe pela professora de português e em outras classes, o que me deu um sentimento maior de conquista, de autoestima também. Depois vieram os poemas naquela fase melancólica da adolescência, em que o mundo é escuro, tudo é escuro, o rock and roll é a trilha sonora do verão escuro, as roupas são escuras e você vê beleza no que é triste. Passei alguns anos me dedicando aos versos, estudando métrica, mas vi que meu prazer verdadeiro estava na prosa. Aos poucos deixei os poemas (nunca a poesia!), e comecei a escrever contos. Naquela fome de ser publicado, de ver meu trabalho impresso num livro de verdade, fui participando de coletâneas, pagando para estar em algumas delas, presente em outras por simples mérito. Ao todo, publiquei contos e poemas em 7 diferentes antologias, alguns mais em sites de literatura; em 2008 um pequeno livro de contos de humor negro e realismo mágico intitulado “Esdrúxulas” e um conto transformado em livro artesanal logo no ano seguinte. Entre tantos pequenos textos, há um romance juvenil ainda inédito, escrito há 6 anos.

Você publicou no Instagram uma frase sobre os detalhes, tanto na vida, quanto na literatura. Você acha possível reconhecer os detalhes de sua vida e de seu novo romance hoje, agora, ou você acredita que o tempo será o revelador desses detalhes?

Agora os detalhes se misturam, por isso não os reconheço de forma imediata. Sinto que com o romance publicado, eles serão mais visíveis, mas isso leva tempo, anos, até que surja um comentário, uma ideia de alguém que o leu e percebeu algo que criei… inconscientemente? Talvez. Há detalhes dos meus dias que naturalmente vão para a história, preenchem aquela lacuna branca que precisava ser preenchida, mas o reconhecimento, acho que só com o tempo. E o mesmo acontece de forma inversa: detalhes inventados, detalhes criados para o romance, os detalhes que enriquecem a narrativa e dão verossimilhança aos personagens, muitos deles podem ser manifestados na minha realidade como forma de desejo ou experimentação. Novamente, o tempo será o revelador e isso é reconfortante, deixar com o tempo…

Você registrou em seu blog os assuntos que pesquisou para o “O frágil toque dos mutilados”: transtorno de personalidade, alcoolismo, enologia, Virginia Woolf, design, vegetarianismo e homossexualidade na infância. Entre esses temas, qual deles você, naturalmente, conhecia mais e qual deles foi necessária uma pesquisa mais profunda?

Os assuntos mais técnicos precisavam (e continuarão precisando até o ponto-final) desta pesquisa mais profunda— é este sentido de profundidade que eu busco num determinado tema e que precisa ser real para que os fatos narrados não pareçam rasos. Eu poderia criar um personagem com o transtorno de personalidade lendo uma lista de sintomas deste transtorno, mas que graça isso teria, tanto para mim quanto para o leitor? É essa profundidade que me aquece os dedos, que me faz querer escrever e não apenas passar um verniz sobre as palavras para que pareçam mais brilhantes. E estes assuntos mais técnicos são o transtorno de personalidade (borderline, o TPB), o alcoolismo, a enologia e o vegetarianismo. O que acontece de interessante na escolha destes temas é que eu não conhecia absolutamente nada do primeiro nem do segundo (e talvez eles sejam os maiores desafios por formar, mas não completamente, os dois personagens centrais) e me interesso muito pelo terceiro e pelo quarto simplesmente porque fazem parte da minha vida. Foi no começo da idade adulta que me interessei pelo universo dos vinhos, li alguma coisa aqui e outra ali, ouvi especialistas, degustei sem presunção, fui me familiarizando com a bebida e uma coisa é certa: ela sempre estará nos meus livros. Com o vegetarianismo (não gosto desta palavra, mas não encontro outra) foi a mesma coisa: tornei-me vegetariano em 2009, mas só recentemente comecei a estudar os benefícios deste tipo de alimentação e achei que seria perfeito para potencializar os problemas emocionais e sociais da personagem. Então estes dois últimos assuntos me são mais queridos, fazem parte da minha personalidade, e ainda assim precisaram ser estudados. Os outros temas pedem por uma pesquisa mais superficial (embora eu também não goste desta palavra neste sentido, mas não deixa de ser verdade) porque Virginia Woolf é minha escritora preferida; tenho interesse em design, mas um interesse funcional, quase indiferente, especificamente para algumas poucas passagens do romance; finalmente, a homossexualidade na infância fica quase no mesmo nível do design: é importante para a história, mas não a ponto de afetar as narrativas principais — posso dizer que este assunto, assim como o design e a vida e obra de Virginia, é uma subnarrativa: ela tem ligação com as três narrativas principais, mas não depende delas nem é afetada por elas, e, claro, precisa de alguma breve pesquisa, um conhecimento básico de alguns pontos psicológicos para que “a criação” faça juz à Literatura e não pareça somente um catálogo de impressões.

A espinha dorsal do romance – os perfis dos personagens e os conflitos psicológicos e familiares – foram organizados com quais instrumentos (textos no computador, no papel, murais, fotos, desenhos, coração)?

No computador só reúno uma pequena parcela do material de pesquisa (a maior parte vem dos livros), então não faço aqueles documentos intitulados “Anotações do romance”. Todo o surgimento da espinha (e seu crescimento) é, depois de mental e cardíaco, manuscrito. Como você disse, no papel (em cadernos variados para diferentes anotações), em murais para que também a imaginação seja uma realidade manifestada visualmente e quase nunca na forma de desenhos porque quando quero uma imagem, busco a fotografia (confesso que faço um desenho ou outro, mas isso é mero capricho, ou procrastinação); tenho muitas ideias visuais, sou constantemente atingido (ou encontrado?) por estímulos sensoriais que me inspiram quando o fluxo criativo está acontecendo em seu melhor momento, daí não tem retorno.

O Frágil Toque Dos Mutilados é um romance em construção e que já tem um prêmio literário, isso, de alguma forma, te pressiona? Quais são as suas expectativas quando o romance for publicado?

Existe, sim, uma pressão, mas é benéfica, um movimento de engrenagem para que disso algo seja produzido, seja criado. O prêmio neutraliza a ansiedade porque o mérito é certo, então meu trabalho é escrever, sentir cada segundo desta imensa e deliciosa jornada sem me preocupar com o objeto livro. Ao mesmo tempo, as expectativas são altas, claro, porque é meu primeiro romance a ser publicado já com um incentivo do governo, da família, dos amigos, um ainda tímido olhar dos meios de comunicação cultural, mas são as melhores expectativas, sempre. Publicado, vou inscrevê-lo em outros prêmios, fazê-lo subir degraus mais altos. Tenho muitos projetos para ele, quero que seja um grande romance de estreia.

E para finalizar, a dedicatória do livro já está escrita? Se sim, para quem vai?

Não, a dedicatória não foi escrita, embora eu já saiba para quem vai. Muito desse caráter dedicatório, que também é gratidão, estará numa longa lista de agradecimentos, algo de que faço questão que haja neste livro especificamente.


Conheça o trabalho de Alex Sens Fuziy nos links:

Miniconto no site Releituras
Miniconto na revista Germina
Conto “O Lamento de Ingrid” (em .pdf)

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Francine Ramos

Faz da Livro&Café parte essencial de sua vida desde 2011. É professora de Língua Portuguesa, adora ler, escrever (um dia vai publicar um livro) e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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