Tempo é Dinheiro(Lionel Shriver) e um câncer incurável

Compartilhe:

Em Tempo é Dinheiro, a história principal é de Glynnis Knacker, uma mulher que descobre um câncer incurável.

Quando se separaram e Jackson acenou um adeus, antes de se virar para descer a avenida, ocorreu-lhe que um bom abraço tinha sido mesmo a pedida certa. Melhor que ser inteligente. (p. 378)

Lionel Shriver é uma escritora americana, que ficou muito conhecida pelo romance Precisamos Falar Sobre o Kevin, que foi o primeiro livro que li dela. Depois, por eu ter colocado esse livro na lista dos melhores livros que li na vida, corri atrás para ler os outros livros da escritora e não me decepcionei com nenhum deles: O Mundo Pós Aniversário e Dupla Falta.

Em Tempo é Dinheiro (título que não gostei, afinal o título original é So Much For That), a história principal é de Glynnis Knacker, uma mulher que descobre um câncer no momento em que o seu marido Sheperd resolve chutar o balde e mudar radicalmente de vida: ir (com ou sem sua família) para Pemba, uma ilha africana e por lá viver para sempre. Mas como Sheperd é um homem sensato, ele coloca de lado o seu desejo de mudança para salvar Glynnis da terrível doença.

O sistema de saúde americano

A autora então faz uma crítica severa da qualidade do sistema de saúde americano e dos convênios médicos que, quando mais seus clientes precisam, eles não estão lá. E penso comigo que se nos EUA o descaso com a Saúde é grande, o que acontece aqui no Brasil é mais que desumano, é surreal.

Para contar a história de uma família que tem de encarar um câncer e um sistema de saúde precário, Lionel Shriver apresenta uma conta financeira de quase 1 milhão de dólares, que é o valor que Sheperd vendeu a sua empresa de “consertos em gerais”. Esse dinheiro, guardado com todo carinho até encontrar o lugar perfeito para começar uma nova vida é totalmente sugado pelo plano de saúde que só cobre algumas partes do tratamento para o câncer raro que atingiu sua mulher.

Outros personagens

Além da história da família Knacker, há um casal de amigos deles, Carol e Jackson que também precisam de um bom convênio médico para cuidar da filha Flicka, que possui uma doença raríssima. Carol é uma mulher bastante comum, a qual não causa desconfortos para o leitor, digo isso porque Lionel é perfeita em construir personagens que ao mesmo tempo amamos e odiamos. Glynnis, por exemplo, consegue ser maravilhosamente insuportável, Sheperd é um pé no saco de tão passivo, mas também muito generoso. E Jackson… putz, o cara é patético. E a irmã de Sheperd é do tipo que dá vontade de matar.

Uma sombra

Quando uma família enfrenta um câncer, independente do resultado final (a vida ou a morte) permanece uma sombra que com o tempo fica mais fraca, mas não apaga por completo, como se fosse um lembrete da dor que todos ali passaram.

Além de Lionel Shriver abrir com precisão cirúrgica todos os tipos de reações perante o câncer (da mãe, do marido, dos filhos, dos amigos), ela nos faz mergulhar com Glynnis, que é uma personagem muito verdadeira e que passa longe do molde que, sei lá de onde tiramos, que quando a pessoa tem câncer ela descobre todos os mistérios da vida, da morte, de Deus, e tudo mais. Há sim uma grande descoberta em Tempo é Dinheiro, porém não é banalizada com base no sofrimento, nem no dinheiro, muito menos na dor. Cada personagem, capítulo a capítulo revela uma nova ilha para desbravar, alguns afundam, outros não.

Resenha em vídeo – Canal Livro&Café:


Onde Comprar Tempo é dinheiro: Amazon

Compartilhe:
Imagem padrão
Francine Ramos

Editora da Livro&Café desde 2011. É professora de Língua Portuguesa e escritora. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

Assine nossa newsletter

Toda semana um resumo com os principais conteúdos da revista em seu e-mail!

5 comentários

  1. Agora entendi melhor, Fran. Seu vídeo lá no YouTube ficou tão curtinho… =/
    A Lionel também tece algumas críticas ao sistema de saúde da Inglaterra em O Mundo Pós-Aniversário, lembra? Pelo visto é algo que a afeta muito.
    Só fiquei com uma dúvida. Ele tem muitas páginas?
    Beijo! ^_^

  2. É, saúde é um problema mundial. Um dos principais empecilhos de me fazerem me dedicar a área da educação hoje é justamente a perda do plano de saúde. Depender do governo aqui está osso. Mas fazer o que, é torcer pra não adoecer haha, sad but true.

Deixe um comentário