o homem duplicado

A Caverna (José Saramago)

Mais um livro de José Saramago (1922 – 2010) para fazer parte de minha vida, mas, talvez, de uma forma diferente, pois o que senti ao ler A Caverna (Cia das Letras, 352 páginas), foi diferente das leituras anteriores: O Homem Duplicado, Memorial do Convento e O Conto da Ilha Desconhecida. O fim dessas 4 leituras conseguiram provocar em mim tudo o que eu mesma espero de uma leitura – aquela compreensão misteriosa de tudo assim que a última página do livro é fechada. O mesmo não aconteceu em A Caverna. Por quê?

O enredo é simples: uma família de oleiros vê a profissão tradicional ser derrubada pelas novas tecnologias: Cipriano Algor (o pai), Marta (a filha) e Marçal Gacho (o marido da filha) tentam sobreviver num mundo simples, mas se veem engolidos pela cidade, pela industria e o comércio de produtos modernos.

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Após, por anos, vender exclusivamente pratos de barro para um gigante comércio no centro da cidade, a família Algor recebe a notícia que o único cliente deles não irá comprar os pratos, pois alega que não há mais pessoas interessadas nesse tipo de material. A família, em choque e sem saber o que fazer, coloca a esperança em Marçal Aquino que, talvez, consiga um emprego melhor, capaz de sustentar a pequena família.

Marta, a filha de Cipriano e que sempre ajudou na olaria, tem a ideia de fazer bonecos de argila, como uma forma de voltar a fornecer os produtos para o comércio da cidade. Ela pesquisa os bonecos numa enciclopédia, desenha-os e pede ao pai que leve ao centro comercial para apresentar os novos produtos.

O foco das personagens

A partir deste ponto, a história fica focada na construção dos bonecos, nas dificuldades que a família encontra perante a alta produção exigida pelo centro comercial e o levar e buscar Marçal no emprego de vigilante no próprio centro comercial. Alguns outros personagens aparecem na história, como o cão Achado e a vizinha viúva Isaura Estudiosa.

Do início da história – que é muito gostoso de ler (pela gramática peculiar de Saramago e o reconhecimento dos personagens) eu gostei muito. O meio da história achei um pouco cansativo, sem muitas informações importantes. Porém, no final do livro, lá pelos 40 minutos do segundo tempo, há um acontecimento no centro comercial que acaba impulsionando a família de oleiros a ter coragem para tomar uma grande decisão.

Essa parte foi muito interessante de ler, principalmente por que ela faz com que tenhamos várias novas “conexões” da história. Aquela sensação de busca dos “porquês” e dúvida do “será?”. Links vão surgindo na mente, operando a construção dos detalhes, provocando, instigando o leitor a pensar um pouquinho mais, a entender que tal passagem do livro, aparentemente, despretensiosa, guardava, na verdade, algum mistério a ser descoberto. E não é um mistério revelado no final da história, é daquele que deixa por conto do leitor.

Por fim, a certeza é que os personagens dessa história estranha já fazem parte de alguma coisa em mim, como se eles fossem amigos que nunca vi pessoalmente, mas que num dia irão bater em minha porta para revelar um segredo. São as boas histórias contadas por grandes escritores, elas nunca terminam.

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Francine Ramos
Editora da Livro&Café desde 2011. É professora de Língua Portuguesa e tenta ser escritora (um conto seu foi publicado na coletânea Leia Mulheres, em 2019). Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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2 comentários

  1. Um dos livros que mais gosto do Saramago. Desejo viajar de furgoneta.

  2. Adoro livro que no final faz as conexões com o que achamos que não era importante. Adoro. ._.

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