Os Transparentes (Ondjaki): verdade e urgência

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“um homem é feito do que planifica e do que vai sentindo. de correntes de ferro que o prendem ao chão e de correntes de ar que lhe atravessam o corpo em ecos de poesia.
verdade e urgência.” 

Os Transparentes estava na minha prateleira de leituras futuras desde 2013. Não porque eu não queria ler, mas porque eu gosto de esperar o livro “me chamar” para a leitura. E Ondjaki (pseudônimo de Ndalu de Almeida) só me chamou agora, mais precisamente na segunda quinzena de janeiro. Funciona assim: quando termino de ler um livro, fico alguns dias pensando sobre ele e “namorando” a minha prateleira de livros até que meus olhos brilhem por outro livro, para eu ter certeza que é aquele que eu quero. Se isso não acontece, espero. Se fico em dúvidas, espero. Tudo porque acredito que mágicas acontecem entre os leitores e os seus livros. E somente agora em 2014 que a história da cidade de Luanda, na Angola, me abraçou – e depois me picou em pequenos pedaços – e depois me remontou – e depois me fez voar. A escrita de Ondjaki é muito bonita, marcante e original, como há tempos não vejo entre os novos nomes da literatura. Ele tem apenas 37 anos, 18 livros publicados e bons prêmios literários.

Em Os Transparentes, romance lançado em 2012, eu conheci Luanda, uma cidade tão cheia de defeitos quanto as capitais do Brasil e suas favelas, mas também, tão mágica e pura, quanto qualquer lugar do mundo onde existem pessoas que sobrevivem às mais difíceis situações do cotidiano, que estão repletas de conexões com a política tão suja e o capitalismo tão devorador.

A primeira cena do livro mostra diversos moradores de um prédio (em péssimas condições) apavorados por conta do fogo que está dominando tudo. Eu imaginei que era uma guerra acontecendo, porém, somente no final do livro é que eu soube o quer era todo aquele fogo. Por que após essa cena inicial, somos apresentados aos personagens que constroem aquela cidade, principalmente os moradores do prédio, de forma que o motivo do fogo fica em segundo plano e cada capítulo traz novas informações sobre aquela favela vertical, seus inúmeros moradores – tão iguais e tão diferentes, incluindo o Senhor Odonato, o meu preferido, que depois de certas decisões tomadas de acordo com sua condição de vida, começa a ganhar uma condição física diferente.

Também no início, o cenário é pequeno, mas à medida que os personagens vão surgindo, amplia-se o campo de visão. E o que pareia ser a história íntima de cada personagem (que me lembrou a prosa-poética de Hilda Hilst em “A Obscena Senhora D.”), se transforma na história da cidade inteira, da Angola, da África e do mundo todo.

O que contribui para a beleza de Os Transparentes, além dos personagens e a história em si, é a forma que Ondjaki usa em seus textos, pois há uma conexão entre a história contada e a linguagem do texto. Por exemplo: quando a narração é sobre os moradores de Angola, a prosa-poética ganha destaque, fica mais bela; quando é momento de conhecermos os personagens políticos – fiscais corruptos, assessores desonestos e afins – o texto fica mais seco, sujo, que revela tanto quanto as descrições das falcatruas dos personagens.

Um outro ponto alto no texto são os parágrafos iniciados com letras minúsculas (recurso também utilizado por Valter Hugo Mãe). A sensação é de um pensamento incompleto, que justifica quando a mão – ao digitar ou escrever – não acompanha o ritmo acelerado do pensamento, de forma que o que vemos no papel foi o máximo que o escritor conseguiu extrair e também um forma dele dizer “é tudo isso e mais”. É um exercício de humildade e pureza.

No final do livro, estamos tão tomados por aquele prédio, os seus personagens e por cada pequena história que acontece em Luanda que quando a parte do fogo é retomada, uma saudade aperta no peito, “está chegando ao final”, e por outro lado somos invadido por aquele tipo de alegria que só os bons livros nos dá, mesmo que a história não seja assim. É alegria por ver a literatura tão bem feita, tão esplendorosa, lá no alto, voando, livre…

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Francine Ramos

Faz da Livro&Café parte essencial de sua vida desde 2011. É professora de Língua Portuguesa, adora ler, escrever (um dia vai publicar um livro) e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

7 Comments
  1. Eu li um único livro do Ondjaki, “Bom dia, camaradas”. Na época gostei muito! Ele escreve muito bem. Vou colocar esse na minha listinha! 😉

    1. Foi o primeiro que li dele e adorei! A literatura angolana é muito boa! Você já leu Chinua Achebe? É muito bom também 🙂

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