Viagem Sentimental ao Japão (Paula Bajer Fernandes)

capa-viagem-sentimentalViagem é substantivo, com “g”; viajar, com “j”, é o verbo. Nem sempre viajar significa viagem; nem sempre uma viagem significa viajar. Antes de ler “Viagem Sentimental ao Japão” livro da brasileira Paula Bajer Fernandes e lançado pela Editora Apicuri, a lembrança literária que eu tinha sobre “viajem” e “viagem” era do livro A Obscena Senhora D., da Hilda Hilst:

“(…) uma criança que deu dois passos e contornou o mundo, um velho que esquadrinhou o mundo mas quando voltou à casa viu que não tinha saído do primeiro degrau de sua escada”

Porque viajar é muito relativo e essa conexão com a criança livre e o velho preso me agrada, apesar de triste. Me agrada porque quando pensamentos em viagens com um pouco mais de cuidado, fica evidente que não é botar os pés para fora de casa e sim botar os pés para fora de nós mesmos.

Se a viagem é física – para outra casa, outro bairro, outra cidade, outro país – é necessário ter disposição em aceitar o que é diferente. Se a viagem é dentro de nós mesmos – além da disposição em aceitar o que é diferente e que está trancado nos nossos próprios cofres secretos – é preciso também coragem. Se fazermos qualquer uma dessas duas viagens com disposição e coragem podemos atingir o cume mais alto do que é uma viagem e do que é viajar.

Paula Bajer Fernandes foi muito feliz na forma de contar a história da personagem Anette, uma moça sem rumo que, a partir de um emprego numa agência de viagens, começa uma grande viagem, do tipo completa: com disposição e coragem.

Porém, não é simples ter disposição, tampouco coragem, outros substantivos e adjetivos são necessários para que a vida ganhe um formato mais robusto e completo. Alguns vivem constantemente nessa forma completa – são raros – outros podem passar a vida toda tentando e não vão chegar nem perto.

O formato que Anette encontrou para obter disposição e coragem não foi um dos mais nobres, porém, ela foi capaz de encarar a família desestruturada pela falta de diálogo, o chefe misterioso, a secretária estranha, e a rotina do trabalho para, então, ter coragem de fazer uma viagem ao Japão, um sonho, daqueles que não dá para explicar por quê.

As 234 páginas do livro são como um diário de Anette, onde ela procurar refletir sobre os próprios passos rumo à sua primeira grande viagem. Ela é formada em Letras, mantém um blog sobre viagens, faz diversas referências aos clássicos da Literatura e também a alguns novos escritores. É delicioso acompanhar a evolução dela, de uma moça para uma mulher corajosa, capaz de fazer qualquer viagem. Uma delas foi o de saber reconstruir um roteiro de sua própria viagem sentimental, que é do tipo completa: disposição, coragem e a infinidade de obstáculos que estão presentes entre o significado dessas duas palavras.

Agora, além de Hilda Hilst, Paula Bajer Fernandes, completa a minha memória literária sobre “viajem” e “viagem”.

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Francine Ramos

Faz da Livro&Café parte essencial de sua vida desde 2011. É professora de Língua Portuguesa, adora ler, escrever (um dia vai publicar um livro) e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

2 Comentários
  1. Resenha incrível, Fran! Amei!
    Adorei acompanhar essa “jornada” da Anette, também 🙂
    E muito bacana o paralelo com A obscena senhora D. Preciso ler esse livro!

    Beijos

    1. Obrigada, Mell!
      Eu adorei o livro, não imaginei que seria tão bom! 🙂
      E vc precisa mesmo de A Obscena Senhora D, é uma das melhores coisas da literatura brasileira! Incrível, profundo, intenso!!! o/ #empolguei hahaha

      Beijos!!!

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