Amor Sem Fim (Ian McEwan)

Há várias formas de iniciar uma história, da frase clássica “era uma vez” a algo mais moderno como “Mrs. Dalloway disse que ela mesma iria comprar as flores”. E o que vem depois da primeira frase é a consequência dela mesma, que leva o leitor a mais uma frase; e outra; e outra; e outra. O conteúdo é que muda, alguns autores, preferem levíssimas pinceladas sobre a história que irá contar (um bom exemplo são os romances antigos), outros, como Ian McEwan fez em Amor Sem Fim, marcam a primeira cena do livro com um pincel forte e carregado da tinta da emoção, que faz o leitor ficar sem fôlego. Que delícia.

“Mas o fato é que, durante muitos segundos eu desfrutei salutar e simultaneamente de dois prazeres antagônicos e adoráveis: ler e foder.” (p. 161)

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Amor Sem Fim é um livro esquisito pra caramba. Tem um acidente de balão, um cara louco e um cientista frustrado. O cenário é Londres, suas ruas, bibliotecas e o Museu de História Natural. Dá vontade de estar lá, com o cientista frustrado, que narra a sua própria história de amor: por sua mulher, uma professora de literatura; e também o “amor” que um cara maluco sente por ele. E tem o acidente de balão, que, nossa, que loucura é aquilo!

A partir do acidente (que é o primeiro capítulo do livro), o leitor é apresentado aos vários tipos de amor, por meio dos personagens que participaram direta e indiretamente do acidente. O protagonista-narrador chama-se Joe Rose e a grande cena inicial é cortada por um acontecimento rotineiro na vida dele – buscar sua esposa, Clarissa Mellon, no aeroporto e realizar um piquenique.

Ainda durante o acidente, nosso narrador se encontra sozinho num gramado e Jed Perry, um homem que também fez parte do infortúnio com o balão, aproxima-se dele e sugere uma oração, porém, Joe não aceita realiza-la, uma vez que não acredita em forças divinas e, por conta da forma que Jed recebe a resposta do cientista, a vida dele se transforma para pior, pois desencadeia um processo de paixão doentia, que além de causar um imenso desconforto na vida de Joe, atrapalha também a sua vida sentimental com Clarissa.

Cada capítulo é um mistério para o leitor, pois é a tentativa de Joe entender Jed, mas sempre algo a mais acontece, que deixa o narrador mais perturbado ainda, que faz Clarissa, seu grande amor, se afastar. Que faz, principalmente, do leitor mais uma vítima das loucuras de um homem, que pode ser tudo ilusão, alucinação, perseguição…

Ian McEwan consegue transformar cenas do cotidiano em histórias inesperadas, obscuras, porém totalmente possíveis. Os dois personagens, Joe e Clarissa, são figuras deliciosas, dessas que gostaríamos de ter como amigos, se real fossem. Joe, por sua Inteligência, Clarissa por sua dedicação à literatura.

Ler Amor sem Fim é uma ótima experiência, tanto para o leitor comum, quanto para pesquisadores e profissionais da área, pois, além da inquestionável qualidade do texto, a trama de Ian McEwan é sempre recheada de modernidades literárias.

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Francine Ramos

Faz da Livro&Café parte essencial de sua vida desde 2011. É professora de Língua Portuguesa, adora ler, escrever (um dia vai publicar um livro) e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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