Frases do livro As Ondas (Virginia Woolf)

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Uma seleção com as melhores frases do livro As Ondas, da escritora inglesa Virginia Woolf.

O romance As Ondas é conhecido como o livro mais experimental de Virginia Woolf, e também o mais difícil. Todos os conceitos e características comuns a um romance não fazem parte dele, pois os sete personagens do livro (que são como sete notas musicais) dialogam constantemente num formato de pura poesia.

Em 1930, Virginia anotou em seu diário: “Acho que este é o mais complexo e o mais difícil de meus livros. Como terminá-lo, a não ser por uma enorme discussão na qual cada vida terá sua voz, uma espécie de mosaico, não sei”.

Frases do livro As Ondas, Virginia Woolf. Tradução de Lya Luft. Editora Nova Fronteira.

O nó na minha garganta vai diminuindo. Palavras juntam-se, grudam-se, atropelam-se umas por cima das outras. Não importa quais sejam. Empurram-se e trepam uma nos ombros das outras. As isoladas, as solitárias acasalam-se, cambaleiam, multiplicam-se. Não importa o que digo. Como um pássaro a esvoaçar, uma frase cruza o espaço vazio entre nós. Pousa nos lábios dele. (p. 78)

Mas se algum dia você não vier depois do café da manhã, se algum dia avistar você em algum espelho, talvez procurando por outro homem, se o telefone toca e toca em seu quarto vazio, então, depois de indizível agonia, então – pois não tem fim a loucura do coração humano – procurarei outro, encontrarei outro você. Nesse meio tempo, vamos abolir com um sopro o tiquetaque dos relógios. Chega mais perto de mim. (p. 135)

– Mas espere. Enquanto somam a conta atrás do balcão, espere um momento. Agora que me vinguei de você pelo golpe que me fez cambalear entre migalhas e cascas e velhas lascas de carne, registrarei, em palavras de uma sílaba, o modo como, também debaixo do seu olhar, com aquela minha compulsão, começo a perceber isto, aquilo e outras coisas mais. O relógio tiquetaqueia; a mulher espirra; o garçom chega – há um encontro gradual, uma reunião, uma aceleração, uma unificação. Ouça: um apito soa, rodas disparam, a porta range nos gonzos. Recupero a consciência da complexidade e da realidade e da luta, pelo que lhe agradeço. E com alguma compaixão, alguma inveja e muita boa vontade, pego sua mão e lhe desejo boa noite. (p. 220)

Ele me esquecerá. Deixará sem resposta minhas cartas […]. Eu lhe mandarei poemas, talvez ele responda com um cartão-postal. Mas é por isso que o amo. Proporei um encontro – debaixo de um relógio, ou numa encruzilhada; esperarei, e ele não virá. É por isso que o amo. Ele se afastará da minha vida, esquecido, quase inteiramente ignorante do que foi para mim. E, por incrível que pareça, entrarei em outras vidas; talvez não seja mais que uma escapada, um simples prelúdio. […] continuarei a deslizar para trás das cortinas, para o seio da intimidade, em busca de palavras sussurradas a sós. Por isso parto, hesitante mas altivo; sentindo uma dor intolerável, mas seguro de que vou triunfar nessa aventura após tanto sofrimento, seguro – quero crer – de que no fim descobrirei o objeto do meu desejo.

Quão melhor é o silêncio; a xícara de café, a mesa. Quão melhor é sentar-me sozinho como a solitária ave marinha que abre suas asas sobre a estaca. Deixem-me ficar sentado aqui para sempre com coisas nuas, esta xícara de café, esta faca, este garfo, coisas em si, eu mesmo sendo eu mesmo. Não venham preocupar-me com suas alusões a que é tempo de fechar a casa e partir. Eu daria de boa vontade todo o meu dinheiro para que vocês não me perturbassem, mas me deixassem ficar aqui sentado, para sempre, silencioso e só.

Por isso odeio espelhos que me revelam meu verdadeiro rosto. Sozinha, muitas vezes mergulho no nada. Preciso firmar meu pé fortemente, se não, caio do limite do mundo para dentro do nada. Preciso bater minha mão contra uma porta rija, para me chamar de regresso a meu corpo.

Qual a frase para a lua? E a frase para o amor? Com que nome devemos designar a morte? Não sei. Preciso de uma linguagem reduzida como a dos amantes, palavras de uma sílaba como a que as crianças falam quando entram no quarto e encontram sua mãe costurando e apanham um pedacinho de lã colorida, uma pluma ou uma tira de chintz. Preciso de um uivo; um grito. Quando a tempestade vara o charco e passa por cima de mim, deitado na vala sem ser notado, não preciso de palavras. De nada que seja exato. De nada que baixe com todos os seus pés no chão. De nenhuma daquelas ressonâncias e adoráveis ecos que se quebram e repicam de nervo em nervo em nossos peitos, formando música selvagem e frases falsas. Acabei com a frase.

Meu coração fica todo àspero, esfola meu peito como uma espada de dois gumes; por um lado, adoro sua magnificência; por outro, desprezo sua pronuncia relaxada – eu, que lhe sou tão superior – e tenho ciúmes.

Agora vou embrulhar minha angústia dentro do meu lenço. Vou amassá-la numa bola apertada. Antes das aulas, quero ir sozinha ao bosque de faias. Não ficarei sentada à mesa fazendo cálculos. Não me sentarei perto de Jinny e perto de Louis. Vou levar minha angústia de depositá-la nas raízes sob as faias. Vou examiná-la, pegá-la entre meus dedos. Não me encontrarão. Comerei nozes e procurarei ovos entre as sarças, meu cabelo ficará emaranhado e vou dormir sob as sebes, bebendo água das poças, e morrerei lá.

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Francine Ramos

Editora da Livro&Café desde 2011. É professora de Língua Portuguesa e escritora. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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5 comentários

  1. Agradeço a você este momento introspectivo. Virginia é a mulher que mais admiro e qualquer coisa sobre ela me atrai instantaneamente. Obrigado pelo seu excelente trabalho.

  2. Increíbles mujeres que nos ofrecen frases
    de inspiración, como Virginia
    Woolf que tenía mucho que contar y decir acerca de su vida

  3. Aceitei o desafio de ler em inglês, confesso que palavra por palavra estou entendendo pouco, mas virginia é tão mágica que eu ainda sinto o pulsar poético de sua escrita. É tudo realmente genial, quando ela se propóe a descrever as paisagens, nos intervalos, me sinto no lugar que ela está descrevendo. Gostaria de ver em português uma passagem bem grande de Bernard, acho que na terceira parte do romance, logo no início, em que ele se questiona quem é ele, muito linda.

    • Oi, Nádia!
      As Ondas é um livro tão perfeito que quando comecei a marcar as frases, tive que me controlar muito para não marcar o livro inteiro! rs
      As frases deste post representam a primeira leitura que fiz, pretendo ler mais 1 vez e, claro, separar outras lindas frases.
      Bjos!

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