Um Teto Todo Seu (Virginia Woolf)

Virginia Woolf, quando já era uma escritora conhecida, foi convidada a realizar palestras em algumas faculdades inglesas. A partir dessas suas apresentações sobre literatura e mulher, surgiu o livro Um Teto Todo Seu (Editora Tordesilhas, 2014) que revela o seu genial pensamento e eloquência sobre a história da literatura vista por uma mulher sem um teto todo dela. Numa mistura de ensaio e ficção, o livro faz o leitor transbordar com a escritora sobre esse tema ainda – infelizmente – tão pouco explorado. É claro que melhoramos muito desde a época de Jane Austen aos dias de hoje, mas a mulher ainda precisa conquistar tetos e desbravar seus próprios limites patriarcais.

O livro está dividido em 6 capítulos, cada qual, Virginia Woolf vai acendendo luzes no escuro e difícil espaço que divide o mundo entre masculino e feminino. No primeiro capítulo ela, humildemente, põe em cheque a dificuldade em falar sobre mulheres na ficção, “Quando vocês me pediram para falar sobre (…) sentei-me às margens de um rio e ponderei sobre o significado dessas palavras. (…) as palavras não parecem tão simples” (p.11), e também a própria dificuldade de um palestrante que “a principal tarefa é dar, após um discurso de uma hora, uma pepita de preciosa verdade para ser embrulhada nas páginas de um certo caderno e mantida em permanente exibição” (p. 12).

Ela sabia da grande missão que foi designada e em nenhum momento trabalhou com desdém para chegar à importante análise sobre a literatura feita por mulheres, num mundo masculino. Ela começa se apresentando com um outro nome, que pode ser qualquer um, pois apenas propõe o sexo feminino como protagonista. E desde um passeio por Londres, nos jardins de uma faculdade, jantares e conversas, essa personagem atinge boas descobertas sobre o quanto a mulher do século XIX e XX ainda está presa dentro de si mesma, ao ponto de não conseguirem expor uma ideia própria e, o mais difícil, sem amarguras; e rancores; e raiva; “(…) e pensei em como é desagradável ficar presa do lado de fora; e pensei em como talvez seja pior ficar presa do lado de dentro.” (p. 39) Virginia Woolf enche o leitor de perguntas, que pulam das páginas do segundo capítulo, se sente munida e, como o melhor soldado de uma guerra, vai em busca da vitória, da verdade:

“Por que os homens bebem vinho e as mulheres água?” “Por que um sexo é tão próspero e o outro, tão pobre?” “Que efeito tem a pobreza sobre a ficção?” “Quais as condições necessárias para a criação de obras de arte?” “Vocês têm noção de quantos livros sobre mulheres são escritos no decorrer de um ano?” “Vocês têm noção de quantos são escritos por homens?” “Têm ciência de que vocês são talvez o animal mais debatido no universo?” (p. 41 e 43)

As respostas acontecem durante os próximos capítulos. Cada qual reserva um único dia de pesquisas numa biblioteca que por meio das prateleiras de livros, entupidas de escritores masculinos e um ou outro feminino, permite a Virginia Woolf se entregar às respostas das inúmeras questões que permeiam as possibilidades da mulher na ficção. E cada capítulo é melhor que o outro, pois além de responder às perguntas propostas no início, mostram que nada é realmente simples, pois outras perguntas pairam no ar ao ponto de termos a certeza que ser mulher, mesmo hoje, no século XXI, ainda é uma natural militância na qual fazemos parte e morremos. Assim como aconteceu com a ficcional irmã de Shakespeare que Virginia Woolf criou. Uma mulher dilacerada pela sociedade que impôs a ela, cruelmente, uma vida não desejada.

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“Quem pode medir a fúria e a violência do coração de um poeta quando preso e emaranhado em um corpo de mulher?” (p. 72)

É muito difícil afirmar qual é o meu capítulo preferido, uma vez que todos estão interligados por um único pensamento que o leitor irá compreender com clareza no final. Mas os últimos capítulos possuem análises literárias sobre livros escritos por mulheres, escolhidos aleatoriamente na biblioteca, que merecem uma atenção especial, por funcionarem como exemplos maravilhosos de como é uma resenha bem escrita, do quanto é possível ampliar os horizontes para um texto verdadeiro e sincero. É como se Virginia Woolf, além de tudo, ensinasse o leitor-blogueiro a escrever resenhas. Por fim, porque eu poderia passar um bom tempo escrevendo e falando sobre Um Teto Todo Seu, o que precisa ficar registrado por agora é que esse tal teto que Virginia fala e que tantos por aí replicam não significa um quadrado em cima da cabeça. É muito além disso. Um teto é o que pode dar segurança à liberdade da mulher, ao ponto dela poder ir e vir para onde quiser e o teto ser a sua maior e verdadeira proteção própria, dela para ela mesma. Não no sentido de proteger do medo; no sentido de acompanha-la como se fosse uma luz a iluminar tudo.

“E, conforme compreendi esses obstáculos, aos poucos o medo e a amargura transformaram-se em pena e tolerância; depois, em um ano ou dois, a pena e a tolerância se foram, e a maior de todas as libertações veio, que é a liberdade de pensar nas coisas em si.” (p. 59)

Assista ao vídeo no canal Livro&Café:

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Francine Ramos

Faz da Livro&Café parte essencial de sua vida desde 2011. É professora de Língua Portuguesa, adora ler, escrever (um dia vai publicar um livro) e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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