2666 Roberto Bolãno

Estrela Distante (Roberto Bolaño) e o golpe de Pinochet

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Em Estrela Distante, Roberto Bolaño pondera sobre o acontecimento que ceifou os sonhos de sua geração, o golpe militar de Pinochet, e mostra ao leitor que o antídoto para o que aconteceu é a literatura, tanto para vingar o que já aconteceu, como também, em um universo paralelo, evitar as barbaridades que ocorreram nas ditaduras sul americanas na segunda metade do século XX.

O autor sempre mostrou em sua obra as cicatrizes deixadas por essa forma de governo, mas neste romance essa discussão é o foco. É um livro que nos dá um enredo em forma de metáfora para um final diferente da história que ele e muitos outros vivenciaram.

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A moldura é a mesma de seus outros livros, círculos literários, divagações sobre poesia, e escritores marginalizados. O romance é narrado pelo protagonista que não nos diz seu nome, e que começa o livro informando ao leitor que irá fazer um relato sobre a vida de um segundo personagem, que no início do livro tem o nome de Alberto Ruiz-Tagle.

Ambos os personagens frequentavam um grupo literário de uma universidade chilena, mas não chegaram realmente a se conhecer. Tudo que o narrador sabe de Alberto lhe é trazido por seus outros amigos que demonstram uma imensa avidez pela personalidade deste homem soturno e misterioso que é Ruiz-Tagle. Sua personalidade exerce tamanho fascínio e admiração no grupo que conquista uma das mulheres mais bonitas e desejadas, de modo que uma espécie de aversão ou inveja surge no narrador. Mas o golpe chega, a sociedade literária se desfazer, o narrador é preso durante algum tempo e nunca se ouve falar novamente de Ruiz-Tagle.

Durante o momento da prisão do protagonista, surge um aviador que escreve poesias no céu utilizando um avião e fumaça. A mídia passa a venerá-lo e sua fama a partir deste momento só aumenta. Ao sair da prisão, o personagem descobre que a pessoa que escreve os poemas é nada mais nada menos que seu antigo conhecido dos grupos literários Alberto Ruiz-Tagle que agora atende pelo nome de Carlos Wieder.

De certo modo onisciente…

Embora o livro todo seja narrado por um mesmo personagem, ele se torna de certo modo onisciente. Usando desse poder, mostra uma ocasião dentre as várias que Carlos Wieder comete uma chacina feminina, na qual inclui a mulher mais atraente do extinto grupo literário.
Após algumas divagações e mais informações sobre o ex poeta amador que se tornou um militar, o leitor é conduzido a uma festa em que Wieder iria fazer algumas poesias no céu e depois uma forma de arte mais próxima do espectador, que seria apresentada no seu quarto do hotel.

O quarto permaneceria trancado até que o aviador estivesse em terra para que ele próprio pudesse conduzir a apresentação de sua nova arte que ali dentro se escondia. Mas choveu, e ninguém foi ler a poesia que mal dava para se ver naquele temporal, ficando todos dentro da casa esperando o que era tido como a atração principal.

Quando o quarto foi aberto, foi permitido a entrada de uma pessoa por vez. A primeira saiu vomitando, o que causou um aumento da curiosidade sobre o que haveria lá dentro. Tão nebuloso quanto o céu daquele dia é a narrativa vertiginosa do livro, mas é revelado ao leitor que as paredes do quarto estão cobertas de fotografias a respeito dos corpos torturados de mulheres no decorrer da ditadura.

Desse episódio em diante, Carlos Wieder desaparece, e nosso narrador se encontra na Europa, e nos fala como tem sido sua vida após a fase “o homem de várias personalidades”, que embora mal conversassem, teve um efeito tremendo nas direções que sua vida levou.

Ao passar dos anos, o narrador recebe a visita de um policial que foi contratado por um particular para encontrar o ex Ruiz-Tagle. O protagonista diz não saber como, pois nem é policial, a que o oficial responde: mas ele era um literato, e só através de outro literato poderei encontrá-lo. E assim, ambos se unem para poder se vingar pelos amigos que perderam, e de um modo geral e simbólico, por todos que padeceram pelo golpe militar.

Um trecho de Estrela Distante

“[…] O menino se chamava Lorenzo, creio, não tenho certeza, e esqueci o sobrenome, mas outros o lembrarão, e gostava de brincar e de subir nas árvores e nos postes de alta-tensão. Um dia ele subiu num desses postes e recebeu um choque tão forte que perdeu os dois braços. Tiveram de amputá-los quase na altura dos ombros. Assim, Lorenzo cresceu no Chile e sem braços, o que por si só já o deixava numa situação bastante desvantajosa, mas ainda por cima ele cresceu no Chile de Pinochet, o que transformava qualquer situação desvantajosa em desesperadora. Mas isso ainda não era tudo, pois ele logo descobriu que era homossexual, o que transformava a situação desesperadora em inconcebível e inenarrável.
Com todas essas condicionantes, não era de estranhar que Lorenzo virasse artista. (Que mais poderia ser?) Mas é difícil ser artista no Terceiro Mundo quando se é pobre, sem braços e ainda por cima veado. Por isso Lorenzo se dedicou, durante algum tempo, a outras coisas. Estudava e aprendia. Cantava nas ruas. E se apaixonava, pois era um romântico incurável. Suas desilusões (para não falar das humilhações, dos desprezos, das ofensas) foram terríveis, e um dia – dias riscado com pedra – decidiu se suicidar. Numa tarde de verão especialmente triste, quando o sol se escondia no oceano Pacífico, Lorenzo saltou para o mar de uma rocha usada exclusivamente por suicidas (coisa que existe em qualquer trecho do litoral chileno que se preze). Afundou como uma pedra, com os olhos abertos, e viu a água ficando cada vez mais escura e as borbulhas que saíam de sua boca e depois, com um movimento de pernas involuntário, voltou à tona. As ondas não permitiam que visse a praia, tão somente as rochas e à distância os mastros de algumas embarcações de passeio ou de pesca. Depois voltou a afundar. Nesse momento também não fechou os olhos: moveu a cabeça com calma (a calma de um anestesiado) e buscou com os olhos alguma coisa, qualquer que fosse, mas que fosse bela, para retê-la no momento final. Mas o negror vendava qualquer objeto que pudesse descer junto com seu corpo até as profundezas, e ele nada viu. Então, sua vida, como se costuma dizer, desfilou diante de seus olhos como num filme. Alguns trechos eram em branco e preto e outros em cores. […]”

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Alister Vieira
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