A trilogia Fronteiras do Universo, de Philip Pullman

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Tive meu primeiro contato com a saga na tenra idade. Estava numa excursão da escola com destino ao shopping de uma cidade vizinha, e tentava me decidir, junto com um amigo, algum livro infanto-juvenil cujo tema fosse aventura para comprar, não apenas um, mas quantos eu pudesse levar para minha cidade que não possuía uma livraria. Lembro-me de ter comprado o vol. 1 da Trilogia Fronteiras do Universo, A Bússola de Ouro. No momento da compra, sabia apenas que haveria dimensões alternativas, assunto que me interessava na época devido a Nárnia e vários outros livros da mesma vertente (mundos diferentes) que veio a me acompanhar durante os próximos anos.

A capa me impressionou muito, um céu róseo fazia fundo a uma bússola nada convencional. Voltei lendo no ônibus, os sacolejos não ajudaram na ambientação de um livro cujos novos parâmetros de vivência dum universo alternativo era o grande trunfo da obra. Fiquei meio perdido com nomes novos, humanos diferentes, e uma tentativa de envenenamento logo no início. O livro era muito surreal, e o que mais me impressionou, ele estava me convencendo com uma facilidade assombrosa. Quando cheguei em casa, percebi que havia algo relacionado a Satanás na epígrafe. E havia a palavra “daemons” pululando por toda obra. A forte persuasão de um livro com uma leve analogia a algo que minha família cristã ferrenha tinha total aversão me fez uma tamanha pressão que culminou com o livro indo parar no lixo.

Quando o tempo passa

Passado alguns anos, certo amadurecimento dado as caras, e alguma indicação que não me lembro mais, eis que me tenho às voltas novamente com a trilogia. Fui hipnotizado pelo som da flauta que emanava daquela escrita que me arrebatou da mesma forma como da primeira vez. Mas eu já podia perceber esse poder de escrita além de apreciá-lo melhor.

Fronteiras do Universo realmente se passa num universo alternativo, como o próprio nome sugere. A diferença reside em todo minucioso trabalho, praticamente o primeiro livro inteiro, que o autor teve em desbravar juntamente com o leitor as peculiaridades desse novo mundo. Sem pressa alguma, deixando-nos olhar o tempo que fosse aquele objeto estranho ou aquele costume nada convencional. É uma verdadeira sala de espera para a história, que sem que percebêssemos, já avança paulatina e silenciosamente enquanto observamos o novo e pitoresco cenário.

Uma peculiaridade que vale ressaltar é que a alma de cada pessoa nesse mundo se apresenta na forma de um animal (do sexo oposto) que é conectado a cada ser. Esse animal-alma, Dimon (quando voltei a ler, a tradução era outra), é o maior companheiro que alguém pode ter nesse universo, até porque ele é a própria pessoa.

E nada que fosse criado e nos apresentado era à esmo. Tudo teve sua devida importância no decorrer da história. Philip Pullman soube colocar cada novo fato na hora correta e a usá-lo quando não podia ser mais conveniente.

Não ligue para o filme

Há um filme que não fez jus à história porque cortou o plot principal, que é bem polêmico. Até porque, polêmica é a palavra certa pra essa série, cujos temas variam desde as perguntas que temos em nossa puberdade até ateísmo. No geral, essa coleção não é indicada às crianças, em consequência dos temas abordados (que são spoilers, então não saiam por aí procurando). Mas eu não sei a razão de crianças não poderem ter acesso a temas que lhe serão pertinentes num futuro breve.

A protagonista, de nome Lyra, e seu Dimon, Pantalaimon, vivem numa espécie de universidade. Ela não vive com seus pais e mal os conhece. Não sabendo quem realmente é sua mãe. O que não é um pretexto para que ela saia nas maiores aventuras da sessão da tarde, já que depois seus pais tem um papel importante na história, e inclusive o autor dialoga com a relação entre pai-filho, o que quase não vejo em premissas de outro mundo, cuja figura adulta é completamente excluída e não trabalhada.

A história, distribuída em três livros, nunca fica cansativa. É uma dinâmica impressionante. Os personagens nunca aparecem todos ao mesmo tempo. Os artifícios usados tanto para tirá-los como para reavê-los em cena são dos mais elaborados. Além das relações dotadas de verossimilhança entre eles. Novos participantes são postos em jogo conforme a história vai exigindo uma revitalização das vozes existentes, e do que cada uma delas prega. Acima de tudo, Fronteiras do Universo é um livro de ideologias. Existem vários grupos, e cada um deles defende um tipo. E é no pugilismo desses grupos com brasões de ideias que a saga vai se esmerando e melhorando até que se chegue o ápice.

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Alister Vieira
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1 comentário

  1. Po, amo essa série, e sou cristão, dai pra quem vira a cara pela posição do autor ou sua critica, não sabe o que ta perdendo!

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