10 frases de Katherine Mansfield que irão te encantar

10 frases de Katherine Mansfield que irão te encantar

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Uma singela lista com 10 frases de Katherine Mansfield que irão te encantar!

Katherine Mansfield foi uma escritora que se dedicou exclusivamente aos contos, em seu curto tempo de vida, pois a tuberculose a levou embora com apenas 35 anos. Seus contos merecem uma leitura atenta, mais de uma vez, pois, a cada nova leitura, um novo mundo vai surgindo, como se a leitura fosse um lápis a desenhar gradualmente uma história de traços fortes. As frases de Katherine Mansfield abaixo são lindas e merecem atenção, como também a leitura do conto a qual pertence, indicado no final de cada frase.

Algo horrível tinha acontecido. Inesperadamente, no teatro, a noite passada, quando ela e Jimmy estavam sentados um ao lado do outro no balcão nobre, sem nenhum aviso prévio – na verdade, Edna tinha acabado de comer uma amêndoa coberta com chocolate e devolvera a caixa para Jimmy – ela se apaixonou por um ator. Realmente se apaixonou.
Era um sentimento diferente de qualquer coisa que tinha imaginado antes. Não era nem um pouco agradável. Muito menos vibrante. A não ser que você possa chamar de vibrante a mais terrível sensação de abandono, agonia, infelicidade e desespero. Combinada com a certeza de que se aquele ator cruzasse com ela na calçada, enquanto Jimmy estivesse procurando um cabriolé, ela o seguiria até os confins da terra. Bastaria um aceno, bastaria um sinal; ela não pensaria duas vezes em Jimmy, ou em seu pai, ou em sua mãe, ou na felicidade da sua casa, nem nos incontáveis amigos.

Katherine Mansfield. Cinco Contos. Tomada de Hábito. Editora Paz e Terra. Vários tradutores. p. 18

A discreta porta fechou-se com um clique. Ela ficou do lado de fora, na escada, a observar a tarde de inverno. A chuva caía e parecia que, com a chuva, também chegava a escuridão, rodopiando e descendo como cinza. Sentia-se um gosto amargo gelado no ar, e as lâmpadas recém-acesas pareciam tristes. E tristes eram as luzes nas casas do lado oposto da rua; queimavam palidamente, como se lamentassem alguma coisa. As pessoas se apressavam, escondidas sob guarda-chuvas horríveis. Rosemary sentiu uma estranha pontada; apertou contra o peito as mãos agasalhadas num regalo e desejou ter consigo a caixinha, para senti-la também. O carro estava lá, é claro, ela precisava apenas atravessar a calçada. Mas, mesmo assim, esperava. Há momentos, momentos terríveis na vida, em que é abominável sair de um lugar abrigado e olhar para fora. Não devemos ceder a esses momentos; precisamos ir para casa, tomar um chá superespecial.

Katherine Mansfield. A festa e outros outros contos. Uma xícara de chá. Tradução de Julieta Cupertino, Editora Revan, p. 36

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“É isso mesmo! É isso mesmo!”, exclamou o Sr. Hammond. ‘Que coisa aborrecida!” Ele deu alguns passos pra lá e para cá, e voltou até seu lugar entre o casal Scott e o Sr. Gaven. “Além do mais, começa a escurecer”, disse, e agitou o guarda-chuva, como se assinalasse à escuridão que tivesse a decência de afastar-se um pouquinho. Mas ela veio lentam espalhando-se sobre a água como uma mancha vagarosa.

Katherine Mansfield. A festa e outros contos. O desconhecido. Tradução de Julieta Cupertino, Editora Revan, p. 47

(…) de repente deixou cair a escova. Viu que estava na cozinha. Sua tristeza era tamanha que ela pôs o chapéu na cabeça, vestiu o casaco e caminhou para fora do apartamento como uma pessoa dentro de um sonho. Não sabia o que estava fazendo. Parecia alguém que, de tão conturbado por um horror acontecido, andasse sem rumo, como se, caminhando, pudesse fugir.

Katherine Mansfield, A festa e outros contos. A vida de Mãe Parker. Tradução de Julieta Cupertino, Editora Revan, p. 70

Ah, como era fascinante! Como gostava de ficar sentada naquele banco e observar tudo aquilo! Era como se assistisse a uma peça de teatro. Era exatamente como um teatro! Quem acreditaria não ser um cenário, o céu ao fundo? Mas, só quando um cachorrinho marrom passou trotando com solenidade, e caminhou de volta, como um pequeno cachorro “teatral”, como um cachorrinho que tivesse sido dopado, foi que Srta. Brill se deu conta do que é que tornava tudo aquilo tão interessante. Estavam todos num palco. Não eram apenas a platéia, que só assistia, estavam todos representando. Ela própria desempenhava um papel, e vinha ali todos os domingos. Sem dúvida alguém notaria, se ela faltasse um domingo; afinal, ela fazia parte do espetáculo. Como era estranho nunca ter pensado nisso, dessa maneira. No entanto, era o que explicava por que ela fazia questão de sair de casa à mesma hora, toda semana – como se tivesse preocupada em não se atrasar para o espetáculo – e explicava também a razão do estranho acanhamento em dizer a seus alunos de inglês onde havia passado a tarde de domingo. Pudera, a Srta. Brill riu alto. Pois se ela havia estado num palco! Pensou no velho senhor inválido, para quem lia o jornal quatro vezes por semana enquanto ele dormitava no jardim. Ela se acostumara com a frágil cabeça sobre o travesseiro de paina, os olhos cavos, a boca entreaberta, o nariz muito afilado. Se ele morresse, poderia nem notar durante semanas. Nem se importaria. Mas de repente ele saberia que o seu jornal era lido por uma atriz. “Uma atriz, a senhora?” E a Srta. Brill alisaria o jornal, como se fosse o manuscrito de seu papel, e diria delicadamente: “Sim, eu venho sendo uma atriz há muito tempo.”

Katherine Mansfield. A festa e outros contos. Srta. Brill. Tradução de Julieta Cupertino, Editora Revan, p. 78

Você já ouviu essas histórias de crianças amamentadas por lobas que são aceitas pela matilha e como elas sempre terão livre trânsito no meio de seus lépidos e cinzentos irmãozinhos? Algo assim aconteceu comigo. Mas espere! Essa história de lobos não dá. Estranho! Antes de passar para o papel, quando ainda estava na minha cabeça, eu adorei essa história. Parecia exprimir, ou mais do que isso, sugerir, exatamente o que eu queria dizer. Mas escrita farejo imediatamente a falsidade e… a origem do cheiro está na palavra lépidos. Não é? Lépidos e cinzentos irmãozinhos! “Lépidos”. Uma palavra que eu nunca uso. Quando escrevi “lobas”, o termo atravessou minha mente como uma sombra e não pude resisitir. Diga-me! Diga-me! Por que é tão fácil escrever com simplicidade – e não apenas com simplicidade, mas sotto voce* – se é que você entende? É assim que desejo escrever. Sem belos efeitos, sem virtuosismo. Mas apenas a simples verdade, como só um mentiroso é capaz de fazer.

*”Em voz baixa”

Katherine Mansfield. Contos. Conto de Homem Casado. Tradução de Carlos Eugênio Marcondes de Moura e Alexandre Barbosa de Souza. CosacNaify. p. 221

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“Pim” – a porta voltou a se abrir. Mais dois soldados entraram. Sentaram-se à mesa mais próxima da gerente e ela inclinou-se em direção a eles, com um movimento que evocava o de um pássaro, virando a cabeça de lado. Oh, eles estavam contrariados! O tenente era um idiota – metia o bedelho em tudo – implicava com eles – e estavam apenas pregando botões. Sim, só isso – pregavam botões e aí apareceu aquele rapaz esquentado. “E aí, o que é que vocês estão fazendo?”. Eles imitaram a voz do idiota. No rosto da gerente surgiu uma expressão de solidariedade. O garçom trouxe copos para os recém-chegados, pegou uma garrafa que continha uma bebida de cor alaranjada e colocou-a na beirada da mesa.
Um grito, vindo dos soldados que jogavam baralho, o fez virar-se bruscamente, e lá se foi a garrafa, espalhando sobre a mesa e no chão partículas tilintantes. Um silêncio perplexo. Só se ouvia o gotejar da bebida, que caía da mesa do chão. Era muito estranho ver o líquido pingar lentamente, como se a mesa estivesse chorando.

Katherine Mansfield. Contos. Uma viagem indiscreta. Tradução de Carlos Eugênio de Moura e Alexandre Barbosa de Souza. CosacNaify p. 45

“Ah, não, por favor”, ele implorou. “Fique mais um pouquinho”, e ele pegou uma de suas luvas em cima da mesa agarrando-a como se aquilo a segurasse. “Encontro tão pouca gente com quem conversar atualmente que me transformei em uma espécie de bárbaro. Fiz alguma coisa que a ofendesse?”Não, de jeito nenhum”, ela mentiu. Mas ao observá-lo puxar a luva por entre os dedos, muito delicadamente, sua zanga na verdade foi diminuindo, e além disso, ele estava mais parecido com o que era seis anos atrás…”O que eu de fato queria naquela época”, ele falou com brandura, “era ser uma espécie de tapete, tornar-me uma espécie de tapete sobre o qual você caminhasse para não correr o risco de ser ferida pelas pedras pontudas e pela lama que você detestava tanto. Não era nada mais positivo do que isso, nada mais egoísta. Eu eventualmente desejei me transformar em um tapete mágico e carregá-la por todas as terras que você ansiava por ver.

Katherine Mansfield, Aula de Canto e outros contos. Tradução de Julieta Cupertino. Editora Revan.p. 137

Quando, no passado, se olharam assim, tinham sentido uma compreensão tão infinita entre eles que suas almas tinham, por assim dizer, colocado seus braços em volta uma da outra e tinham caído no mesmo oceano, contentes de se afogarem, como amantes sofredores.

Katherine Mansfield. Aula de Canto e outros contos. Um pepino em conserva. Tradução de Julieta Cupertino. Editora Revan, p. 136

Ah! Ela o amava! Ela o amara sempre, é claro, mas com outras formas de amor, não com o que sentia agora. E também, é claro, ela havia compreendido que ele era diferente. Haviam discutido isto inúmeras vezes. Ela havia se afligido horrivelmente, a princípio, ao descobrir sua própria frigidez, mas, com o passar do tempo isso deixara de incomodá-la. Havia tanta franqueza entre os dois, eles eram tão bons companheiros! Nisso estava a grande vantagem de serem modernos.
Mas agora – era um desejo! Com tesão! A palavra doía em seu corpo em brasa. Era a isto que o seu sentimento de felicidade tinha levado? Mas então, então…

Katherine Mansfield. Felicidade e outros contos. Felicidade. Tradução de Julieta Cupertino. Editora Revan, p. 25.
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Francine Ramos

Editora da Livro&Café desde 2011. É professora de Língua Portuguesa e escritora. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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