[#2 Sobre alguns personagens] Diário de Leitura – Graça Infinita (DFW)

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Cheguei na página 147 e aproveitei para escrever sobre o livro porque mais um personagem diferente apareceu e antes que ele complete a teia de personagens malucos-legais-incríveis e tantos outros chatos pra caramba é melhor fazer mais uma anotação para manter a meta do Diário de Leitura, mas também para organizar minhas ideias sobre Graça Infinita.

Fiz uma brincadeira no twitter chamando o Graça Infinita de “o meu gracinha infinita”, mas de gracinha, meu amigo, o livro não tem nada. É literatura que vem com tudo, em alta velocidade e se você não estiver atento, tchau, comece tudo de novo porque talvez você não tenha entendido nada. Falando nisso, no começo da leitura, lá pela página 30 ou 40 – não me recordo bem – eu tive que voltar tudo, pois me bateu uma insegurança, pois cheguei numa página que parecia que ela não me dizia nada, como se eu estivesse lendo em grego. Coisa estranha. Ou é só cansaço. Ou é só o verão.

Uma frase para um personagem:

O primeiro personagem que aparece chama-se Hal Incandenza. Ele é um jovem jogador de tênis e estou achando que toda a sua família também já apareceu na história. Revendo as minhas marcações, consegui relacionar uma frase do próprio livro sobre cada integrante da família, como uma forma de caracterizá-los sem usar adjetivos comuns e sendo essas frases o que me fez guarda-los a memória:

Hal Incandenza – filho

“Acredito que a minha aparência seja neutra, quem sabe até agradável, embora tenham me instruído a ficar mais para a neutralidade e não tentar o que para mim pareceria uma expressão agradável ou um sorriso” (p. 7)

Mario Incandeza – filho

“É sempre Schtitt que acaba testando algum sabor exótico de sorteve, quando eles chegam. Mario sempre dá para trás e opta pelo bom e velho chocolate quando chega o momento da decisão no balcão. Pensando coisas como Melhor o sabor que você tem certeza que já adora.” (p. 89)

James Orin Incandeza – filho

“Eu tinha parado de chorar, ele lembra, e simplesmente estava ali parado, do tamanho e da cor de um hidrante, de pijamão vermelho com pezinhos, estendendo o mofo, sério, como se fosse o relato de algum tipo de auditoria.” (p. 16)

Dr. James Orin Incandeza – pai

“O casamento em maio-dezembro do alto, deselegante, socialmente prejudicado e beberrão dr. Incandenza (…)” (p. 69)

Avril Incandeza – mãe

“Os olhos dela melhoraram. Não parece que eles estão muito afundados. Eles ficaram mais bonitos. Ela ri do C.T. bem mais do que ela ria de Sipróprio. Ela ri de um lugar mais lá dentro. Ela ri mais. As piadas dela até são melhores que as tuas agora, quase sempre.” (p. 47)

Dos comentários no YouTube:

Um comentário deixado no primeiro vídeo sobre Graça Infinita foi de extremo valor, pois há um site (em inglês) sobre o livro que contém uma lista de todos os personagens.

Guilherme Felippe Olá. Anotar o nome dos personagens em folhinhas não será muito prático daqui umas dezenas de páginas – são, pelo menos, 200 personagens no livro inteiro, sendo uns 50 mais frequentes. Recomendo esse site aqui: http://goo.gl/kkdo6I. Lá você encontra a lista de todos personagens e onde eles aparecem (pela paginação do livro original, mas já dá uma ajudinha), além de anotações página a página com descrição e explicação das milhares de referências que o DFW fez no livro. 

Sobre amor e ódio e tudo junto e misturado:

Na página 111 acontece um diálogo muito interessante entre dois personagens que eu estou gostando MUITO, além da família Incandenza. Um chama-se Steeply e o outro Marathe. Eles são amigos de longa data, se amam, mas também se odeiam por conta de opiniões políticas diferentes. A conversa entre eles começa de uma forma banal, como se nada importante fosse sair dali, como se fosse um jeito de DFW humanizar os personagens, afinal, a vida real é feita de conversas banais e eu acredito que na construção do personagem é importante essa pitada. E de repente os personagens se revelam tão mais no diálogo do que uma narração sobre suas características e preferências. Steeply e Marathe levam a conversa para a difícil concepção do que é amor e, o principal, o que e como e quando amar:

“Morrer por uma pessoa? Isso é loucura. As pessoas mudam, partem, morrem, adoecem. Elas partem, mentem, enlouquecem, tem doenças, traem você, morrem. Sua nação sobrevive a você. Uma causa sobrevive a você.” (p. 112) – frase do personagem Marathe

“E se às vezes não houver escolha do que amar? E se o templo for a Maomé? E se você simplesmente ama? Sem decidir? Você simplesmente ama: você vê aquela mulher e naquele instante danou-se a contabilidade sensata e você só pode escolher amar?”frase do personagem Steeply

Na sequência do diálogo fica difícil escolher um lado, pois os dois amigos possuem qualidades que provocam aquele sentido de identificação do leitor com o personagem: eles estão fazendo coisas erradas; eles têm uma causa para lutar; eles estão correndo riscos; eles parecem fazer de tudo por amor – lembrando que amor é muito diferente para cada um deles.

Ainda sobre as notas (quase uma teoria da conspiração):

As duas notas da página 49 e 50 me deu uma ideia sobre o motivo das notas estarem separadas no final do livro e serem tão longas, porque elas parecem fazer o leitor de idiota. Como algo da metaliteratura, penso que as notas não são para explicar simplesmente algo para o leitor, mas sim compõem a própria história, como se um narrador tivesse encontrado o livro, o estudasse em detalhes, fazendo então surgir as notas. Enfim, estou só conspirando.

No site Posfácio está acontecendo a leitura coletiva de Graça Infinita. Passe lá 😉

O vídeo:

147 páginas concluídas de 1141 páginas existentes.


Graça Infinita (David Foster Wallace)
Companhia das Letras, tradução de Caetano W. Galindo
Literatura Americana, 1141 páginas, 2014.
Título original: Infinite Jest

Onde comprar Graça Infinita: Amazon (e-book)

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Francine Ramos

Editora da Livro&Café desde 2011. É professora de Língua Portuguesa e escritora. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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2 comentários

  1. “Eu tinha parado de chorar, ele lembra, e simplesmente estava ali parado, do tamanho e da cor de um hidrante, de pijamão vermelho com pezinhos, estendendo o mofo, sério, como se fosse o relato de algum tipo de auditoria.”

    Em “Ano feliz”, a voz narrativa é de Hall. É Hall quem parece um hidrante, não Orin. 🙂

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