Paraíso (Tatiana Salem Levy): verdades complexas

Tatiana Salem Levy tornou-se uma escritora preferida, graças ao encanto despertado em A chave de casa e Dois rios.  Tatiana é sempre linguagem simplificada e carregada de uma verdade sempre complexa. Enormidades em um texto simples. A leitura é sempre fluente; uma correnteza mansa que te leva a muitas margens de entendimento; cada palavra amarrada e firme.

Mas em “Paraíso” há uma confusão de temas. Ana refugia-se no sítio de uma amiga para escrever um livro enquanto espera o resultado de um exame (Ana fez sexo sem proteção com um homem que, só depois, disse-lhe que tinha HIV). Lá Ana conhece Daniel, que vive afastado da civilização, num refúgio-aprendizado, tentado viver a mesma experiência que seu avô teria vivido num passado de guerra em um contexto difícil. Ana também convive com Rosa, a empregada da casa que é violentada pelo marido.

Ana também começa a escrevinhar o passado de uma maldição que suspostamente acompanha as mulheres de sua família: quando uma escrava-sarcedotisa amaldiçoa as gerações vindouras logo após ter sido enterrada viva pela esposa de seu patrão (a esposa descobre, manda cortar a língua da escrava e enterrá-la viva.). Ana vê o fantasma, sente a presença, começa a escrever um romance histórico e, de repente, não se fala-escreve-explica o romance.

Passagens mais tocantes

As passagens mais tocantes referem-se às memórias de Ana, de sua relação com o padrasto e a mãe, o início de um abuso sexual e um dolorido abuso psicológico praticado por aquele: são os momentos mais intensos da personagem, lindamente escritos por Tatiana.

São quatro momentos importantes costurados no romance, tudo nas mãos de uma escritora talentosa, mas que se perdem, quase desconexos, frouxos, cansados. Quatro momentos que não se alinhavam. Ana apavora-se com a possibilidade de saber-se soropositiva, o que a leva a se refugiar no mato para escrever um livro, então a ideia de um romance histórico, e o resgate da cultura africana, depois Daniel e o desconhecido sensual e a chance da paixão e nova filosofia de vida e mudança, aí vem Rosa e a violência doméstica, e também as lembranças familiares da morte da irmã, dos abusos do padrasto, da condescendência materna, e tudo acontecendo aos pulos; não vi a maestria de Tatiana que enxerguei nos seus livros anteriores. Eu, que não sou crítico, não sou escritor, vi costuras escapando, um tecido fino, delicado, bonito mesmo, mal costurado, arranhando no corpo de quem veste e a vontade irritada de arrancar com os dentes a linha mal ajambrada.

Li Dois rios 3 vezes. Li A chave de casa duas vezes. Mas com Paraíso eu corri os olhos apressado, louco para que o fim chegasse.

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1 comentário

  1. Acabei de ler Paraíso, corri os olhos pra chegar no fim, acabo o livro e ele não tem um fim é isso mesmo ? E não encontro em nenhum lugar falando se há continuação. O que aconteceu com Rosa? Foi o teu marido que tentou mata-la? E o exame de Ana da positivo ou negativo ?

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