Aprender a ler com Virginia Woolf

 photo o-valor-do-riso_zpszfqyclq6.jpg“Ler um romance é uma arte complexa e difícil. Não só de muita agudeza de percepção, mas também de muita audácia de imaginação você terá de ser capaz para poder fazer uso de tudo o que o romancista – o grande artista – lhe dá” (p. 168)

Aprende a ler quem lê. Esta é a máxima, porém com um olhar mais atento sobre o ato da leitura pode acontecer uma transformação no leitor. É sobre isso que o artigo “Como se deve ler um livro” (presente no livro “O Valor do Riso e outros ensaios”, escrito por Virginia Woolf em 1926, comenta. Como uma boa conversa literária, uma das mais importantes escritoras da literatura ajuda significativamente o leitor a pensar sobre o seu próprio ato de ler e também a se ver do lado de lá, como um escritor.

A princípio é necessário que o leitor não aceite conselho algum, pois é preciso “seguir os próprios instintos, usar o próprio bom senso e tirar suas próprias conclusões” (p. 164). Porém, a escritora acredita que se o leitor concordar com ela quanto a essa premissa será possível um diálogo a respeito de como ler e por quê.

É preciso parar para pensar em nossas expectativas.

Quando decidimos ler o livro x ou y temos que pensar nos verdadeiros motivos que nos levaram até eles, porque nós esperamos dos livros muito mais do que eles são capazes de dar. Muitas vezes queremos que eles se tornem apenas mais um tijolo para reforçar nossas paredes de convicções, de preconceitos.

“Poucas porém são as pessoas que aos livros pedem o que os livros são capazes de dar. É mais comum que os abordemos com a mente toldada e dividida, pedindo à ficção que seja verídica, à poesia que seja falsa, à biografia que seja lisonjeira, à história que ela reforce nossos próprios preconceitos. Se pudéssemos banir, quando lemos, todas essas ideias preconcebidas, isso seria um admirável começo.” (p.165)

Não seja reticente e crítico

Preconceito literário existe, quem não tem que atire a primeira pedra. Ao ler um livro é preciso fazer do escritor um amigo, porque não é possível saber o que ele quer dar ao leitor. Paciência, respeito, educação para “ouvir” o livro.

“Não dite para o seu autor; tente transformar-se nele. (…) Caso relute, e se mantenha a princípio reticente e crítico, você mesmo se impedirá de obter daquilo que está lendo o máximo de valor possível. Porém, caso abra a mente, tanto quanto possível, sinais e indicações de uma quase imperceptível finura, desde a inflexão torneada das primeiras frases, hão de leva-lo á presença de um ser humano diferente de qualquer outro. Mergulhe nisso, familiarize-se com isso, e logo você verá que o seu autor lhe está dando, ou tentando lhe dar, alguma coisa muito mais categórica” (p. 166)

Escreva

Quem escreve com qualidade é um bom leitor. Quem escreve consegue estar dos dois lados do texto, o lado do criador, o lado do contemplador. O leitor que sabe escrever e quer descobrir as técnicas da ficção, por exemplo, será capaz de compreender muito melhor qualquer livro que caia em seu colo, pois ele saberá a difícil arte de transformar pensamentos em palavras. “O modo mais rápido de compreender os elementos daquilo que um romancista está fazendo talvez não seja ler mas sim escrever; fazer seu próprio experimento com as dificuldades e os riscos das palavras.” (p. 166)

Ler do entulho

Nem todos os livros são obras de arte, mas todos têm o seu valor. Devemos recusar a leitura de um livro que os críticos apontam como ruim? Não, pois “podemos ler a fim de revigorar e exercitar nosso próprio potencial criativo…”. Alguns livros considerados “entulhos” literários podem surpreender o leitor que “acabará por submeter-se mesmo às relíquias de vida humana vazadas fora do molde”. (p. 172)

Mas a leitura do entulho, a longo prazo, nos cansa

Ler “qualquer coisa” pode ser bom divertido, interessante, etc, mas chega uma hora que cansa, pois o cérebro fica em estagnação. É necessário subir degraus, para manter o prazer da leitura sempre completo. “Cresce pois em nós o desejo de dizer basta aos meios-termos e aproximações; de cessar de ir à cata das sombras diminutas do caráter humano para desfrutar da abstração maior, da verdade mais pura da ficção.” (p. 174)

A intensidade da poesia cobre uma gama imensa de emoções

Leia poesia. Para Virginia Woolf a poesia tem um impacto muito forte e direto, diferente da prosa que é gradativa. A poesia “tem poder de nos fazer a um só tempo atores e espectadores”. (p. 177)

Deixe que a poeira da leitura se assente

Quando terminamos a leitura de um livro não devemos nos preocupar de imediato com a interpretação que iremos dar a tudo que a leitura proporcionou, pois é preciso dar um tempo para que a história fique mais clara na mente, para que os pontos fortes ganhem força, outros sejam entendidos, etc.

“Deixe que a poeira da leitura se assente; que o conflito e o questionamento se aquietem; caminhe, converse, tire as pétalas secas de uma rosa, ou então durma. De repente, sem que o queiramos, pois é assim que a Natureza empreende essas transições, o livro irá retornar, mas de outro modo, flutuando até o topo da mente como um todo. E o livro como um todo difere do livro recebido comumente em frases soltas.” (p. 178)

Comparar livro com livro

Compare, pesquise, pergunte para um outro livro sobre o livro. Analise, discuta, converse. Quando a leitura termina e a poeira abaixa não somos mais amigos do escritor, devemos ser os seus juízes, “ser demasiadamente severos”.

“Comparemos cada livro com o maior de sua espécie. As formas dos livros que já lemos, solidificadas pelos julgamentos sobre eles que foram feitos por nós, pendem na mente – Robinson Crusoe, Emma, O retorno do nativo. Compare a esses os romances novos – até mesmo o mais recente e mais insignificante dos romances tem direito de ser julgado com o que há de melhor.” (p. 179)

O valor absoluto de um livro

Talvez seja mais simples deixar que um crítico decida por nós sobre o valor de um livro, mas se deixarmos de lado a nossa capacidade de análise, seremos leitores sem identidade.

“Podemos acentuar o valor da compreensão; podemos tentar submergir, enquanto lemos, nossa própria identidade. Mas sabemos não poder compreender totalmente nem ficar imersos de todo; há sempre um demônio em nós que murmura: ‘Eu odeio, eu amo’, e não temos como silenciá-lo. (…) Mesmo que os resultados sejam abomináveis e nossos julgamentos errôneos, é o nosso gosto, o nervo sensorial que através de nós transmite choques, o que ainda assim mais nos ilumina; é pelo sentir que aprendemos; não podemos suprimir nossa própria idiossincrasia sem empobrecê-lo” (p. 180)

Os raros escritores capazes de nos esclarecer sobre a literatura como arte

É importante conhecer os “raros escritores”, aqueles que escreveram obras que já perduram gerações e gerações, séculos e séculos, pois são eles que irão nos ajudar com o entendimento sobre a literatura como arte. No entanto, ler apenas esses escritores, sem ter uma gama interessante para poder comparar, talvez não seja proveitoso, talvez não cause efeito. Um bom exemplo disso, são os alunos do ensino fundamental e médio que são obrigados a ler os clássicos sem antes estarem preparados como leitor. “Nada mais fácil e absurdo do que regras criadas para existir num vazio, sem relação com os fatos”. (p. 181)

Virginia Woolf esclarece que os escritores raros só “conseguirão nos ajudar se formos até eles imbuídos das questões e sugestões conquistadas, com efeito, no decurso de nossas próprias leituras” (p. 182)

Temos nossas responsabilidades, como leitores, e até importância

A literatura é feita de autor, de livro e de leitor. Entre eles há a crítica – que também é um tipo de leitor – e a (tão gasta) mídia. Sendo assim, o leitor pode ser considerado uma peça fundamental que exerce influência no autor e no livro.

“Os padrões que criamos e os julgamentos que fazemos penetram na atmosfera e se tornam parte do ar que os escritores respiram quando estão trabalhando. Estabelece-se assim uma influência que se exerce sobre eles, ainda que ela jamais se encaminhe para ser impressa. E se essa influência, se for bem informada, vigorosa e individual e sincera, pode ser de grande valor agora, quando a crítica se encontra fatalmente vacante” (p. 182)

Virginia Woolf parece adivinhar que hoje leitores estariam na internet falando e escrevendo sobre livros e, sendo assim, imagino que ela seria uma escritora que iria gostar muito da movimentação de blogs, canais e sites literários, pois a forma como ela encerra o seu artigo “Como se deve ler um livro”, é um registro sobre o futuro da leitura, do prazer de ler e, principalmente, como os leitores que amam ler são e devem ser vistos.

“Se por trás da errática fuzilaria da imprensa o autor sentisse que havia um outro tipo de crítica, a opinião de pessoas lendo por amor à leitura, lenta e não profissionalmente, e julgando com grande compreensão, porém com grande severidade, a qualidade de seu trabalho não poderia melhorar com isso? E se os livros, pelos meios de que dispomos, se tornassem mais fortes, mais ricos e mais variados, eis aí um fim que valeria a pena alcançar.” (p. 183)

O último parágrafo contém uma breve ideia que se realmente houver o dia do Juízo Final, cada um irá querer de Deus e seus discípulos presentes, de forma a agradecer o bem que fizeram, mas os leitores também estarão lá e, segundo Virginia Woolf, o Todo-Poderoso vai dizer: “Esses aí, olhe só, não precisam de recompensa. Não temos nada para dar-lhes aqui. Eles adoravam ler.”

No canal Livro&Café fiz um vídeo sobre essas dicas de leitura de Virginia Woolf:

 

Referência: WOOLF, Virginia. O valor do riso e outros ensaios, Tradução de Leonardo Fróes, CosacNaify, 2014. 512 p.

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Francine Ramos

Faz da Livro&Café parte essencial de sua vida desde 2011. É professora de Língua Portuguesa, adora ler, escrever (um dia vai publicar um livro) e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

10 Comentários
  1. Louca por esse livro! E devorar tudo que ela escreveu, como se fosse morrer se não fizer. Compreende?

  2. Francine, não esquece: por trás de todo livro traduzido há um tradutor ou uma tradutora que trabalhou duramente, muito duramente, para proporcionar essas belezas. No caso, a tradução é de Leonardo Fróes, um conhecido e veterano tradutor. Quando eu era orientador de pós-graduação, eu não deixava meus orientandos deixar de fora, nas referências bibliográficas, quem havia traduzido o livro (no caso de tradução) de jeito nenhum. Em parte por insistência da Denise Bottmann, hoje os grandes jornais também nunca deixam de fora quem traduziu o livro quando fazem alguma resenha dele. Aliás, seria bom que você pudesse encontrar um meio de fazer isso também nos seus vídeos. Quem sabe uma chamada sobre a tela com todas as informações (o que os jornais chamam de “serviço”) sobre o livro: editora, tradutor/a, etc. Seria um grande avanço. De resto, parabéns por seu incansável e maravilhoso trabalho. Tomaz

    1. Oi, Tomaz!
      Eu costumo colocar o nome dos tradutores aqui no site, mas desta vez esqueci! rs
      Vou adicionar já essa informação no post. Obrigada por avisar. Obrigada por ler 🙂
      Quanto a informar isso nos vídeos, dá para fazer sim. Nos próximos ficarei atenta.

  3. “Não seja reticente e crítico”, esta eu estou tentando pôr em prática com o Haruki Murakami…

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