Não sou uma dessas (Lena Dunham)

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Minha consideração e aproveitamento em relação à série Girls da HBO foi sempre em geral maior que a das outras séries que conheço. Como a protagonista e a criadora (fica um pouco complicado distinguir qual atitude é de quem) tem uma visão incomum do mundo e é fascinada por escrita criativa, sempre pesquisei na internet relações entre Lena Dunham (autora do livro Não Sou Uma Dessas) e literatura.

Já consegui descobrir artigos sobre os quais ela falava sobre Alice Munro ou de seus dez livros favoritos (que acabaram sendo mais lugar comum do que eu pensava que fosse possível, mas creio que está tudo em como ela interpretou tais leituras, ou simplesmente mentiu a respeito dos dez títulos porque sabia que dariam uma desenvoltura mais grandiosa do que apenas citados em uma lista), e qual também não foi minha surpresa quando vi a personagem lendo meu querido Saul Bellow no episódio 8 da primeira temporada.

Até que um dia uma notícia começou a se disseminar gradualmente na internet e chegou até mim como uma espécie de carta de aprovação em alguma parte da minha vida que eu queria muito que se concretizasse (sim, minha afinidade com Lena chega a esse ponto): a notícia de que Lena Dunham estava escrevendo um livro. Minha euforia não se encontra menor no momento em que terminei de ler o livro e faço essa resenha. É o tipo de livro que me proporcionou um reencontro comigo mesmo e que me faz querer muito falar dele apenas com o meu analista.

O livro são memórias e comentários que Dunham acredita que já está em condições de fazer dado o tempo que já viveu (é uma alusão muito cômica quando ela fala sobre uma parente que escreveu um livro de memórias aos setenta anos e ainda viveu cerca de duas décadas depois disso), que são divididas em algumas sessões, que me recuso a dizer por não fazerem justiça ao que realmente concentram em si mesmas.

Acredito que este post seja a grande exceção referente aos excertos: essa resenha não ficaria de modo algum completa se eles não estivessem presentes.

“Tenho amigas: um grupo simpático de garotas cujas paixões (fazer bolos, montar álbuns de flores prensadas, fazer trabalho social) não me empolgam. Eu me sinto culpada por isso, uma sensação de que minha inabilidade para me sentir à vontade com elas prova, de uma vez por todas, que não sirvo para nada. Rio, concordo, encontro razões para casa mais cedo. Tenho a sensação incômoda de que minhas verdadeiras amigas estão me esperando depois da faculdade: mulheres incomuns cujas ambições são tão grandes quanto suas transgressões passadas, cujos penteados atingem as alturas, dramáticas como a topiaria dos jardins de Versalhes e que nunca, jamais dizem “eu não precisava saber disso” quando alguém menciona um sonho erótico que teve com o próprio pai. Mas eu também me sentia assim no ensino médio, com a certeza de que meu grupo era de outro lugar, tinha outro destino e me reconheceria se me visse. Eles gostariam tanto de mim que não faria diferença se eu gostasse de mim mesma. Eles veriam as coisas boas em mim para que eu pudesse vê-las também.”

“Lembra quando você descobriu que o seu pai tinha um livro chamado ‘How to Disappear and Never Be Found´? Você tem certeza de que aquilo foi usado apenas para pesquisar novas formas criativas de pensar e conceitos que ele poderia aplicar no trabalho, mas a descoberta levantou a clara possibilidade de que há algo muito perturbador que uma pessoa que você ama pode fazer em vez de morrer. Você já sabia que seu pai era mórbido, mas supôs que ele fosse tão feliz quanto lhe era inerentemente possível, e isso era um consolo. O fato de essa revelação sugerir o contrário é algo em que você prefere não pensar. “

“Eu queria ser uma daquelas jovens que parecem ignorar por completo o fato de que o seu corpo núbil e reluzente é, na verdade, falível. (Talvez seja preciso ter um corpo núbil e reluzente para se sentir assim). Ledo engano: ser jovem não é isso? Você acha que é imortal até que um dia, aos sessente anos, a ficha cai, você vê um espectro da morte meio ao estilo de ingmar Bergman, faz um exame de consciência e talvez adote uma criança carente. Você decide viver o resto da vida de uma forma que lhe dê orgulho. Mas eu não sou uma dessas jovens. Sou obcecada pela morte desde que nasci.”

“Sempre tive talento para reconhecer quando estou num momento digno de saudades futuras. Quando eu era pequena, minha mãe voltava para casa de uma festa, o cabelo frio por causa do vento, o cheiro do perfume quase imperceptível e, nos lábios, apenas os restos do batom vermelho, e murmurava para mim: ‘Você ainda está acordada! Oiiii.’ E eu pensava em como ela era bonita e como eu sempre ia querer me lembrar dela daquele jeito, saindo do elevador no seu casaco de lã verde-ervilha, aos 39 anos.”

Com exceção de Game of Thrones (porque aqueles livros de bolso realmente foram feitos para se deteriorar: especialmente a lombada dos volumes 3 e 5) eu nunca detonei tanto um livro novo numa única leitura: fazia pequenas ou grandes orelhas nas páginas, dependendo do quanto elas tinham mexido comigo. Eu tenho post it, mas queria deixar marcada de uma forma física que essa leitura mexeu comigo; e ao final, olhando para o livro que parece que foi lido mais de dez vezes por dez pessoas diferentes com toda sorte de peculiaridades referentes ao seus cuidados no manuseio de um livro, sinto que apreciei o máximo que essa primeira leitura pode me proporcionar.

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Alister Vieira
Life's short, talk fast

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1 comentário

  1. É um livro que eu gostei muito por ser uma leitura bastante leve. Ele tem inspirado muitas mulheres, inclusive eu, para discutir questões que não são considerados adequados. Vou sentir falta de sua série. Ele conseguiu personagens interessantes e profundas, sem descurar a pouco explorado na combinação de humor e drama de TV (Deixo o trailer http://br.hbomax.tv/movie/TTL606985/Girls-06-Eps-01), por isso é um dos melhores series para esta geração.

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