Lua de Larvas (Sally Gardner)

No livro Lua de Larvas (WMF Martins Fontes), de Sally Gardner, uma escritora inglesa, temos o ingrediente comum de conhecer a difícil vida de um garoto na escola, com os seus problemas em conviver com os outros alunos violentos e cruéis. O cenário, um lugar devastado por inúmeras guerras e com um governo opressor, que nos faz pensar muito em como seria o mundo caso o Nazismo tivesse conseguido dominar tudo, transforma a sofrida vida de um garoto órfão numa aventura ao mesmo tempo doce e perigosa, para vencer uma mentira absurda imposta pelo governo.

Standish Treadwell é o nosso personagem principal, é ele que narra a própria história. Um garoto simples, que mora com o avô numa parte da cidade conhecida como Zona Sete, onde poucos sobreviveram, por viverem em condições precárias, por serem diferentes e defeituosos, segundo o poderoso governo. Standish, que possui um olho azul, outro castanho e é disléxico não consegue nem disfarçar o seu defeito, o que faz ele ter certeza que o seu futuro não pode ser muito diferente do que o presente revela. Sobreviver é a palavra. Seu avô, esperto e discreto, consegue manter o mínimo de alimentação para os dois. Consegue manter uma horta, uma galinha e uma televisão que, quando funciona, mostra apenas inverdades.

Com a chegada de novos vizinhos, a família Lush, Standish ganha um amigo, Hector, que além da companhia em imaginar um mundo melhor, ajuda-o a resolver alguns problemas que ele tentava diariamente enfrentar na escola: um professor violento e as frequentes surras recebidas de outros alunos.

Alguns fatos que acontecem na vida desses moradores da Zona Sete, faz com que eles se juntem para se sentirem mais fortes, apesar da fome e tudo mais. É essa a proposta do avô de Standish. Se eles ficarem unidos, podem sobreviver por mais tempo. O acaso, sorte ou falta dela acontece porque próximo ao local onde eles moram há um espaço reservado, do governo, onde é proibida a entrada, porém Standish e Hector, brincando com o único brinquedo que eles têm, uma bola de futebol velha, sem querer, chutam a bola para o local proibido. E então é como se eles percebessem que é possível penetrar no lado de lá, de um jeito ou de outro, aquele muro gigante que divide a vida deles com a construção poderosa que o governo está preparando, indica diversas possibilidades, de luta mas também de derrota.

Hector, diferente de Standish é um garoto mais reservado e, pelo seu tamanho e força, consegue sobreviver com mais facilidade no caos que é o ambiente escolar e também na realidade fora da escola. Um garoto que um dia morou na parte rica da cidade, mas que agora faz parte do triste e desolador cenário da Zona Sete.

A amizade entre os dois é de uma beleza ímpar. Standish acredita que pode viajar para outros planetas, inventa sobre eles, cria cenários perfeitos e até uma nave espacial feita de capa de mesa de passar roupa, enquanto Hector, mais cético, acha graça nas ideias de seu amigo, participa delas, mas sabe que é tudo ilusão.

A história não está contada numa ordem cronológica. Em pequenos capítulos, o narrador volta ao seu curto passado, logo depois está no presente, e assim é construída uma aventura difícil de parar de ler. São 293 páginas que o leitor devora rapidamente, por ser uma linguagem simples e enxuta, com parágrafos curtos, mas reveladores. As páginas mostram aos poucos o segredo do governo autoritário, sobre como ele irá vencer a corrida para chegar primeiro à Lua; contém também desenhos que são uma metáfora sobre a própria história; e o mais bonito, as atitudes dos garotos em relação a si mesmos.


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Francine Ramos

Faz da Livro&Café parte essencial de sua vida desde 2011. É professora de Língua Portuguesa, adora ler, escrever (um dia vai publicar um livro) e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

4 Comentários
  1. Comecei a ler Lua de Larvas meio que sem muito entusiasmo. Pensei que seria um romancezinho bobo em ambiente distópico. Mas que bom que eu me enganei. rs Achei o livro muito fofo, muito fofo mesmo. E mesmo não sendo uma narrativa linear, a gente não se perde. Foi uma grata surpresa!

  2. Eu li esse livro e no final eu fiquei “ahhhh”. Fiquei todo bobo porque é uma história tão bonita num ambiente tão opressor! Legal sua resenha!

    1. Oi, Caio!
      Também fiquei boba com o livro. É muita fofura, apesar de tudo…
      Obrigada pela visita 🙂

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