HEY HO LET’S GO! A História dos Ramones (Everett True)

Quando eu tinha lá meus quatorze, quinze anos, muito antes de eu realmente me preocupar com o que eu queria da vida (quando talvez já devesse estar), antes de pensar no que eu realmente iria fazer após terminar o colégio, como o que iria cursar, ou que tipo de emprego eu gostaria de ter, eu tinha em minha mente apenas uma coisa: eu quero ter uma banda! Mas assim como meus amigos, eu não tinha instrumentos, sabia poucos acordes e meus amigos em comum também não tinham lá uma habilidade musical muito refinada. Então, certo dia, em um festival de música na escola, estávamos assistindo as apresentações. Estávamos loucos para estar ali em cima tocando, quando em determinado momento, criamos coragem e pedimos à banda que emprestassem seus instrumentos para tocarmos uma única música. Talvez a única que saberíamos tocar em comum sem nunca termos ensaiado. Era a clássica Blitzkrieg Bop (famosa pelo Hey Ho Let’s Go) dos RAMONES! Não sei como nos saímos, mas depois daquilo formamos uma banda e, enfim, não importa, o fato é: qual outra banda na história do rock deixou como legado o “faça você mesmo” da mesma forma que aqueles quatro (ok, foram mais que quatro) caras de jaqueta preta e simples acordes? Sabe quem mais? Ninguém!

O que podemos perceber ao ler a biografia de Everett True, lançada em 2011 pela Editora Madras (480 pág),  é que na verdade, toda esta minha efervescência adolescente do ter e não poder, mas buscar seu modo de fazer com o que se tem, é justamente o que fez o Ramones acontecer. Quatro caras que queriam fazer sua música, com poucos recursos (financeiros e artísticos), e que quando engrenaram, fizeram questão de manter todo o polimento do que achavam mais chato na sonoridade do rock de sua geração: longos solos, introduções intermináveis e psicodelia. Os Ramones eram crus. Poucos acordes, distorções comparadas com sons de serra elétrica e tudo tocado em um espaço de tempo que muitas vezes não passava de dois minutos, mas que, como analisado diversas vezes no livro, continha estruturas musicais muito coerentes, com suas introduções, versos, refrões, etc.

O livro contém, além da história em si, narrada pelo autor, muitos depoimentos de pessoas ligadas à banda, equipe técnica e dos próprios integrantes. Cria-se uma imagem muito clara e por vezes surpreendente de quem realmente eram Joey, Johnny, Thommy e Dee Dee (membros da formação original). Joey que de baterista nos primeiros ensaios passou como vocalista, mas nem por isso líder da banda. De cara desengonçado à um vocalista cobiçado por produtores como Phill Spector (The Beatles) por sua bela voz que se destacava nas baladas. Johnny, este sim, podemos chamar de líder. O cara que sabia desde o começo onde queria chegar com a banda e que com a imposição quase que ditatorial, fez a banda seguir nos trilhos por mais de vinte anos. Dee Dee, o mais influente baixista da história do punk rock, que embora influente não era lá um grande instrumentista. O posto, ao meu ver, foi conquistado por seu carisma, seu jeito e sua energia nos palcos. Era o chapado da banda, o que dava mais trabalho, mas um grande letrista. Talvez ainda hoje, o Ramone mais querido. Thommy, baterista,  saiu após três discos e acompanhou a banda nos bastidores e produções, era como um pai.

O livro ilustra muito bem os problemas entre Joey e Johnny, que passaram anos e anos se odiando e sem se falar, dividindo o mesmo palco após problemas que envolveram desde a banda, até o fato de Johnny ter roubado a namorada de Joey (Linda, com a qual se casou e viveu até seus últimos dias). Depois, a entrada de C.J para o posto de Dee Dee, Marky Ramone entre idas e vindas de outros bateristas, e diversas histórias que mostram como a banda acabou por se tornar algo como um cartoon. Personagens dentro daquelas jaquetas tocando furiosamente seus acordes, estrategicamente posicionados no palco entre contagens de 1,2,3,4; introduzindo as cerca de trinta canções que compunham um show.

Não à toa os Ramones, para mim, têm total relação com adolescência. Pois é a época em que nós também acabamos por nos tornar personagens. Também estamos juntando isto e aquilo e formando uma identidade com o que temos, e talvez, como eles, se tudo o que for idealizado, for feito com vontade, as coisas realmente aconteçam.  Agora, tenho uma ressalva e contraindicação: pode acontecer de, assim como eu, tu estar com quase trinta anos, e sua fase de adolescência ainda não ter passado.

Viva Los Ramones!


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Ronie John

Ronie John vive em Sorocaba, é graduado em Letras Português/Inglês e atualmente leciona para o ensino fundamental. Tão apaixonado por café quanto por livros, já pensou em criar seu próprio blog “Livro & Cerveja”, mas desistiu após dormir durante as leituras em seus primeiros testes. Apreciador de biografias e obras que remetam aos “beats” e ao “rock and roll”, costuma escrever resenhas mais informais; algo como uma boa conversa sobre um bom livro.

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