Mineirinho, um conto de Clarice Lispector sobre justiça

O conto “Mineirinho” é um dos preferidos da própria Clarice Lispector. Junto com “A Galinha e o ovo”, ela revelou numa entrevista emblemática para a TV Cultura em 1977 que alguns contos ela mesma conseguia explicar e entender.

Mineirinho realmente existiu, para muitos um bandido; para outros tantos um Robin Hood, o que fez da sua morte tema de noticiários em 1962. Ele leva 13 tiros e a mulher, a própria Clarice, eu, você, o cidadão brasileiro, fica perplexo:

Esta é a lei. Mas há alguma coisa que, se me faz ouvir o primeiro e o segundo tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina — porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.

O começo do conto é assim, essas 13 balas já penetram no leitor. O restante é uma explicação mergulhada na angústia em tentar entender a violência do ser humano. É natural sermos assim vingativos? “Essa justiça que vela meu sono, eu a repudio, humilhada por precisar dela. Enquanto isso durmo e falsamente me salvo. Nós, os sonsos essenciais.”

Clarice é uma escritora de difícil definição. Um simples parágrafo dela é possível uma análise existencial e metafísica. Ela caminha pelo erudito e pelo popular. Ora é existência, ora é mistério.

Quando estamos em nossos lares, aquecidos e bem alimentados, em que pensamos? Na justiça que a televisão mostra? Na conversa com a vizinha? O que é a justiça? Com o personagem Mineirinho, Clarice tenta buscar o que havia antes dos 13 tiros:

Eu não quero esta casa. Quero uma justiça que tivesse dado chance a uma coisa pura e cheia de desamparo em Mineirinho — essa coisa que move montanhas e é a mesma que o fez gostar “feito doido” de uma mulher, e a mesma que o levou a passar por porta tão estreita que dilacera a nudez; é uma coisa que em nós é tão intensa e límpida como uma grama perigosa de radium, essa coisa é um grão de vida que se for pisado se transforma em algo ameaçador — em amor pisado; essa coisa, que em Mineirinho se tornou punhal, é a mesma que em mim faz com que eu dê água a outro homem, não porque eu tenha água, mas porque, também eu, sei o que é sede; e também eu, que não me perdi, experimentei a perdição.

Antes do revólver apontado, era a vingança, antes da vingança era amor, antes do amor era uma pessoa que buscava algo e que encontrou a paixão. O “amor pisado” fez Mineirinho cometer um crime passional, o que revela a quadrilha de horrores a qual tudo está inserido. A vingança disfarçada de paixão. E depois a vingança fantasiada de justiça. Até que ponto é certo; até que ponto é errado? O que difere um e outro?

Se nem mesmo a própria autora do texto consegue desvendá-lo, quem dirá o leitor. O que quer Clarice com essa compaixão sobre Mineirinho? Como então eu devo punir o assassino? Devemos esperar por uma justiça do futuro a qual Mineirinho seria preso antes mesmo do crime? Mas e a crueldade em prender um não-criminoso?

Na entrevista, que ela deu meses antes de morrer, além do abatimento devido ao câncer que lhe tomava, seus olhos estavam profundamente tristes. Em vários momentos da entrevista, Clarice diz que está morta, porque não está escrevendo. Até que o entrevistador pergunta a ela sobre os seus contos, se ela entende ou não.

Mineirinho é mistério porque é amor e morte. É vingança e solidão. Ao final, como se a personagem Clarice, como se a escritora Clarice, pedisse ajuda e desse um conselho ao mesmo tempo, vem uma definição (doida) de justiça:

Até que viesse uma justiça um pouco mais doida. Uma que levasse em conta que todos temos que falar por um homem que se desesperou porque neste a fala humana já falhou, ele já é tão mudo que só o bruto grito desarticulado serve de sinalização.
Uma justiça prévia que se lembrasse de que nossa grande luta é a do medo, e que um homem que mata muito é porque teve muito medo. Sobretudo uma justiça que se olhasse a si própria, e que visse que nós todos, lama viva, somos escuros, e por isso nem mesmo a maldade de um homem pode ser entregue à maldade de outro homem: para que este não possa cometer livre e aprovadamente um crime de fuzilamento.
Uma justiça que não se esqueça de que nós todos somos perigosos, e que na hora em que o justiceiro mata, ele não está mais nos protegendo nem querendo eliminar um criminoso, ele está cometendo o seu crime particular, um longamente guardado. Na hora de matar um criminoso – nesse instante está sendo morto um inocente. Não, não é que eu queira o sublime, nem as coisas que foram se tornando as palavras que me fazem dormir tranqüila, mistura de perdão, de caridade vaga, nós que nos refugiamos no abstrato.
O que eu quero é muito mais áspero e mais difícil: quero o terreno.

Este terreno clariciano é insólito, ela pede solidez na justiça, que contenha apenas um tiro, pois os outros é crueldade. Ela, advogada por formação, vê a história de Mineirinho como um mistério sobre a vida metafísica e existencial. Querer o terreno áspero e difícil é pedir um chão firme, duro, inquebrável, para cada um de nós pisar. é defesa dos direitos humanos. Utopia?

Onde comprar o conto Mineirinho, que faz parte do livro “Para não esquecer”: Amazon

Francine Ramos

Faz da Livro&Café parte essencial de sua vida desde 2011. É professora de Língua Portuguesa, adora ler, escrever (um dia vai publicar um livro) e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

3 Comentários
  1. Esse conto é muito foda.
    Discordo com a última análise, onde você disse ”Este terreno clariciano é insólito, ela pede solidez na justiça, que contenha apenas um tiro, pois os outros é crueldade”.
    Na minha compreensão ela é contra qualquer tiro, mas só se deu conta disso quando o 13º foi efetuado. A partir desse momento todo o resto do conto é baseado em como ela se coloca no lugar de Mineirinho. Evidenciando que as vezes ficamos tão embebidos pela raiva que perdemos nossa humanidade e buscamos justificativas para julgar.

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