A Metamorfose (Franz Kafka): opressão e medo

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Alguns escritores existem para nos encher de perguntas, sem dar nenhuma resposta, mas infinitas reflexões. Assim é Franz Kafka (1883 – 1924) e sua obra mais conhecida, A Metamorfose, que vai contar todo o sofrimento de Gregor Samsa, um caixeiro-viajante muito dedicado à sua família, mas que num dia acorda transformado em um inseto nojento.

“Certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Grego Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.” (p. 37, Franz Kafka, obras escolhidas, L&PM)

A novela está dividia em três capítulos que, a partir da primeira frase destacada acima, mostra a relação de Kafka com a família, o trabalho e todas as transformações após a descoberta que o seu corpo não é mais humano.

Durante todo o primeiro capítulo o leitor irá questionar a transformação do personagem, que é o único elemento “mágico” da obra, pois tudo o que vem depois é extremamente real, como se Kafka conseguisse esmiuçar e chegar no triste ideal do comportamento humano quando algo fora do padrão acontece. O segundo capítulo foca um pouco mais nas possíveis relações de Samsa com a família, em seu corpo de inseto, mostra as possibilidade de alguma forma de comunicação, alguma luz que acalente aquela desgraçada família. E no terceiro capítulo, após o final cruel do segundo, o inseto está entregue à própria sorte e à solidão.

A irmã mais nova de Samsa, cuida do irmão como se ele fosse um animal a precisar apenas de comida e um espaço limpo para ficar. Ele, desesperado e descrente de qualquer esperança e tentativa de mudança, aceita o seu destino, como se fosse impossível reverter a metamorfose. A mãe, desesperada, mal consegue olhar para o filho e o pai, como uma marca na obra kafkaniana, representa a opressão e o medo.

A grande pergunta da obra é: por que Samsa se transforou num inseto tão nojento? por que ele aceita a sua condição? por que a família não questiona a mudança?

Cada linha da obra produz uma forte angústia no leitor. O texto de Franz Kafka, enxuto e certeiro, comove o leitor por sua clareza ao mesmo tempo que causa o espanto pela própria história, principalmente pela figura tão complexa que é o autor.

Franz Kafka morreu aos 40 anos de tuberculose, não se sentia bem consigo mesmo por diversos motivos, mas sem dúvida, a influencia negativa que o próprio pai causou na vida do autor refletiu em sua obra, causando até hoje inúmeras interpretações para a metamorfose. Uma delas, talvez a mais esdrúxula, explorada pelo crítico Hellmuth Kayser, é que em certa cena da história, quando Gregor Samsa é atingido por uma maça nas costas, está uma representação de um desejo masoquista de fecundação.

Enfim, Kafka é um autor que sempre estará presente na literatura, pois é um contemporâneo eterno, uma vez que em sua obra, além do realismo mágico, temos a presença do existencialismo que, para Kafka, a usar um inseto como exemplo, quer dizer o quanto é difícil ser diferente, o quanto é difícil dizer e não ser compreendido, o quanto dói a solidão e o desprezo. Será que alguém já entendeu realmente Kafka?

Confira os comentários sobre a obra em vídeo:

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Francine Ramos
Editora da Livro&Café desde 2011. É professora de Língua Portuguesa e tenta ser escritora (um conto seu foi publicado na coletânea Leia Mulheres, em 2019). Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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