[Nota introdutória II] Orlando: a personagem

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A figura de Orlando é claramente inspirada em Vita SackvilleWest (1892-1962), a nobre inglesa com a qual Virginia teve um caso amoroso em meados da década de 1920. Quando se conheceram, em 14 de dezembro de 1922, num jantar na casa de Clive Bell, cunhado de Virginia, Vita estava casada com Harold Nicolson, e Virginia com Leonard Woolf. Não podiam ser mais diferentes. A origem de Virginia estava na classe média intelectualizada: o pai, Leslie Stephen, escritor, era um dos editores da importante publicação Dicionário da Biografia Nacional. A de Vita, numa destacada família da nobreza britânica, os Sackville-West: Thomas Sackville, um remoto ancestral do século XVI, exercia um importante cargo na corte de Elizabeth I.

Virginia tinha uma vida sexual recatada: suspeita-se que o casamento com Leonard jamais tenha sido consumado, e, excetuando-se uma ou outra paixão feminina de juventude ou alguma amizade mais próxima na vida adulta, com uma ou outra mulher, não se tem notícia, além do que manteve com Vita, de qualquer caso mais sério. Vita, pelo contrário, tinha uma intensa vida sexual: casara-se com Harold, de inclinações homossexuais (isso ela só soube mais tarde, depois de casada), mas sua paixão por mulheres vinha de longe, e teve muitos casos, sucessivos e simultâneos, ao longo da vida.

Em comum, tinham a vida de escritora. Quando se conheceram, ambas já haviam publicado alguns livros e gozavam de razoável fama. Na verdade, Vita foi mais prolífica e fez mais sucesso no tempo delas do que Virginia. Mas faltava-lhe aquilo que mais admirava em Virginia: o talento. O que Vita escrevia não podia ser mais tradicional. Virginia, por sua vez, não parou de experimentar.

No começo, a estranheza foi mútua. Um dia após conhecê-la, Virginia registra no diário: “Estou com a cabeça muito confusa para compreender qualquer coisa. É, em parte, resultado de ter ido jantar, ontem à noite, na casa de Clive, para conhecer a adorável e talentosa aristocrata Sackville West. Não muito do meu gosto – enfeitada, uma penugem acima dos lábios, colorida como um periquito, com todo o condescendente desembaraço da aristocracia, mas sem a espirituosidade do artista. O jeito aristocrático é como nas atrizes – nenhuma falsa timidez ou modéstia: – tem tudo sob controle – me fez sentir virgem, acanhada, & colegial. Mas depois do jantar soltei o verbo. Ela é um granadeiro; dura; bonita, masculina ”.

A fama de Vita como mulher que gostava de mulheres já era bem conhecida. Em 19 de dezembro, Virginia é convidada por Vita a visitá-la. Em carta ao marido, Vita fala sobre o encontro: “A sra. Woolf é tão simples: ela dá a impressão de algo grande. Não tem qualquer afetação: não usa qualquer tipo de enfeite – veste-se de maneira atroz. No começo, você pensa que ela é sem graça; e então uma espécie de beleza espiritual se impõe sobre você e é fascinante observá-la. Ela é, ao mesmo tempo, desligada e humana, calada até o momento em que quer dizer alguma coisa, e então o diz de uma maneira maravilhosa. É um pouco velha (quarenta anos). Raramente gostei tanto de alguém, e acho que ela gosta de mim. Ao menos, ela me convidou para visitá-la em Richmond, onde mora. Meu querido, estou bastante apaixonada”.

Em fevereiro de 1923, Vita e o marido fazem uma visita aos Woolf. Virginia registrou-a no diário. Apesar de também ser uma mulher que gostava de mulheres (visível em muitas das passagens de suas cartas e diários e também em romances como Mrs. Dalloway e Ao Farol), Virginia não deixa de encarar com certa desconfiança as inclinações lésbicas da nova amiga, mas também já mostrando a atração que a origem nobre de Vita exercia sobre ela: “Tivemos uma visita de surpresa dos Nicolson. Ela é, nitidamente, uma safista e pode estar, apesar de eu ser velha como sou, de olho em mim. A natureza deve ter-lhe aguçado as faculdades. Esnobe como sou, remonto suas paixões a 500 anos atrás e, como vinho velho, elas se tornam românticas para mim”.

A aproximação continua por mais de dois anos, com intensidade crescente. Numa carta ao amigo Jacques Raverat, em 26 de dezembro de 1924, Virginia expressa sua atração por Vita em termos explicitamente físicos: “De quem mais posso falar? Bem, apenas de uma aristocrata chamada Vita Sackville-West, filha de lorde Sackville, filha de Knole, mulher de Harold Nicolson e romancista, mas seu real direito a ser levada em consideração está, se posso ser tão vulgar, em suas pernas. Oh, elas são maravilhosas – subindo como esguios pilares até o tronco , mas tudo nela é tão virginal, selvagem, nobre; e por qual razão ela escreve, o que ela faz com total competência , é um enigma para mim. Se fosse ela, eu simplesmente marcharia, com 11 elkhounds me seguindo, por meus bosques ancestrais”.

Mas é apenas em dezembro do ano seguinte, três anos após o primeiro encontro, que o caso entre as duas escritoras se torna realmente sério. Com Harold ausente, tendo viajado para a Pérsia (atual Irã) em função de suas obrigações como diplomata, Virginia chega numa quarta, dia 18 de dezembro, para passar três dias na casa de Vita, em Long Barn. Em carta à amiga prestes a se tornar amante, em 29 de dezembro, Virginia descreve o episódio como se ela tivesse sido a sedutora: “A noite em que você foi enredada, naquele inverno, em Long Barn ”. Em carta ao marido, em 25 de abril de 1926, Vita refere-se indiretamente ao que teria se passado na ocasião: “O amor que se sente por Virginia é uma coisa muito diferente: uma coisa mental, espiritual, intelectual, e ela me inspira um sentimento de ternura . Ela me causa um sentimento de proteção. Tenho medo mortal de despertar sentimentos físicos nela . Mas, meu querido, Virginia não é o tipo de pessoa em quem a gente pense desse jeito . Fui para a cama (duas vezes) com ela, mas isso é tudo . Agora você sabe tudo; e espero não tê-lo chocado”.

Ao seu diário (21 de dezembro), Virginia confidencia: “Com Vita por três dias em Long Barn, de onde Leonard [que fora buscá-la] e eu retornamos ontem. Essas safistas gostam de mulheres; a amizade nunca está isenta de amorosidade. Gosto dela & de estar com ela, & do esplendor – ela resplandece na mercearia em Sevenoaks [o vilarejo próximo à casa de Vita] com um brilho de vela acesa, pisando o chão sobre pernas que são como faias, rutilante num jérsei rosa, cabelos encaracolados, em pérolas enrolada. Esse é o segredo de seu glamour, suponho. Depois há nela alguma voluptuosidade; as uvas estão maduras ”.

Dois anos depois, Vita relembra o mágico momento: “Como eu estava certa em ter pressionado você em Richmond e, assim, ter instalado o rastilho para a explosão que aconteceu no sofá em meu quarto quando você se comportou tão desavergonhadamente e me conquistou para sempre”.

Em 21 de janeiro de 1926, a caminho de sua viagem à Pérsia, para ficar junto ao marido, Vita escreve a Virginia, em carta postada em Milão: “Estou reduzida a uma coisa que deseja Virginia. Simplesmente sinto falta de você, de um jeito humano, simples e desesperado. Sinto falta de você até mesmo mais do que eu podia acreditar . Assim, esta carta é apenas, na verdade, um grito de dor. É incrível como você se tornou essencial para mim”.

Em maio, Vita estava de volta à Inglaterra. Em junho, passa duas noites com Virginia, em Rodmell, na casa de campo dos Woolf. Numa carta ao marido, em 28 de junho de 1926, em que admite ter dormido mais uma vez com Virginia, ela faz questão de diferenciar a paixão por Virginia de suas outras “complicações” (muddles, em inglês, palavra-código utilizada pelo casal para se referir aos casos “arriscados” de Vita): “Não, não estou envolvida em nenhuma complicação. [Virginia] não é exatamente uma complicação, ela é uma mulher ocupada e sensível. Mas ela realmente me ama e eu realmente dormi com ela em Rodmell”.

Mas Vita já estava envolvida com a também escritora Dorothy Wellesley, com quem viajara para Teerã em janeiro. Em maio de 1927, Vita conhece a poetisa Mary Campbell, com quem começa um caso em outubro do mesmo ano. Com uma nova paixão na vida de Vita, a relação com Virginia já não é mais a mesma.

É nesse mesmo ano que tem início o projeto de Orlando. O livro é, de alguma forma, uma espécie de sutil vingança contra Vita por sua infidelidade. Mas é também uma homenagem à mulher que tanto amou. E, ao fazer com que, no romance, Orlando fique na posse da mansão ancestral da família, Virginia, de certa forma, restitui a Vita a mansão ancestral de sua própria família que, com a morte do pai, passara ao varão mais velho da família, um tio de Vita.

Mas a paixão das duas tinha chegado ao fim. Em 24 de maio de 1928, fazem juntas uma viagem de uma semana à França. Parecem ter se divertido, mas ocupam quartos separados nos hotéis e passam boa parte do tempo escrevendo cartas para os respectivos maridos. Na entrada do diário relativa ao último dia da viagem, Vita registra: “V. me contou a história de seus primeiros amores, como Madge Symonds, que é Sally em Mrs. Dalloway”. Mas a amizade permanecerá, ainda que com contatos cada vez mais esparsos, até a morte de Virginia, em 28 de março de 1941.

Tomaz Tadeu

[O texto acima é uma das notas da edição de Orlando: Uma biografia, publicado pela Autêntica Editora, com tradução e notas de Tomaz Tadeu. A imagem é um retrato de Vita Sackville-West, de autoria de William Strang, 1918]


Texto gentilmente cedido por Tomaz Tadeu e pela Editora Autêntica, para o Livro&Café, como introdução do projeto “Lendo Orlando“, que começará assim que a nova tradução estiver disponível nas principais livrarias. Vamos ler Orlando?

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Francine Ramos
Editora da Livro&Café desde 2011. É professora de Língua Portuguesa e tenta ser escritora (um conto seu foi publicado na coletânea Leia Mulheres, em 2019). Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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