A Arte de Pedir (Amanda Palmer): sobre conexões verdadeiras

Quando terminei de ler o livro A Arte de Pedir, fui atrás do twitter da Amanda Palmer. No meio da leitura, parei para assistir alguns vídeos da banda dela. Que mulher incrível! E também fiz muitas anotações decorrentes à leitura. O livro, que eu considero uma autobiografia, fala sobre buscar um jeito de tornar as coisas mais leves. De acreditar no próprio potencial como artista, principalmente. Mas acredito que o livro pode também ser encarado como uma fonte interessante de descobertas que facilitam o dia-a-dia de pessoas que buscam um trabalho diferente do convencional.

A palavra, o verbo é: aceitar.

 photo amanda-palmer-noiva_zpsybyt7oke.jpgAmanda Palmer era uma artista de rua. Se vestia de noiva e ficava em algum espaço público, de estátua, aguardando um gesto de alguém: um olhar, um carinho, um dinheiro, qualquer coisa, e ela retribuía com um movimento corporal e uma flor. A partir dessa experiência como estátua viva Amanda Palmer aprendeu a se conectar às pessoas, levando o ato da comunicação para caminhos nada convencionais. Tempos depois, com a banda Dresden Dools e outros projetos de música, Amanda elaborou um jeito diferente de lidar com as pessoas que acompanhavam o seu trabalho. Artista e público se misturam quando o assunto é Amanda Palmer. Ela incentiva a arte deles, que incentivam a arte dela. É lindo de ver.

O livro A Arte de Pedir surgiu após uma palestra que Amanda realizou no famoso TED, conhecido por trazer histórias inspiradoras de pessoas do mundo inteiro. Lá ela contou sobre a relação dela com os seus fãs e como se tornou uma das pessoas mais bem-sucedidas quando o assunto é Financiamento Coletivo. O seu projeto de lançar um novo CD atingiu a marca de 1 milhão de dólares em pouquíssimo tempo e todos passaram a questionar Amanda sobre como ela conseguiu isso – questionamentos positivos e negativos.

Financiamento Coletivo (Crowdfunding) é um jeito moderno de lançar um projeto para o mundo, aguardar para que pessoas se encantem com a ideia e te ajudem financeiramente. Há projetos assim sobre música, cinema, teatro, livro, etc. Tudo é possível ser feito pelo Crowdfuding, que podemos chamar como um tipo de “vaquinha” do século XXI.

“Eu estava aprendendo, aos poucos, mas com nitidez, que A Mídia – a tradicional, pelo menos – tinha cada vez menos importância. A possibilidade de criar diretamente as conexões, por nossa própria iniciativa, estava deixando uma coisa muito clara: Nós éramos A Mídia.” (p. 124)

No caso da Amanda Palmer, partir para o Financiamento Coletivo foi um jeito que ela encontrou para não ver sua arte preza nas mãos de uma gravadora que, infelizmente, ainda trabalham de um jeito opressor. Então, o que ela fez, movimentou muito o cenário da música e da relação do artista com os seus fãs. É simples: você pode decidir tudo diretamente com eles, sem passar pelo crivo da gravadora. Um exemplo: na hora de fazer turnê que tal se hospedar na casa de um fã? Amanda Palmer fez isso, ou seja, criou relações e quebrou o muro que separa a artista das pessoas que a idolatram. Passou a ser uma pessoa “normal”, que fazia um trabalho bacana, que, por isso, tinha uma legião de seguidores não apenas nas redes sociais, mas na vida real também.

Com o sucesso, por meio do “fazer diferente”, vieram muitos questionamentos, um deles é sobre a diferença de pedir e mendigar. Ao final do show, Amanda pede aos fãs para colaborar, pede dinheiro sim, mas ela também aceita o que o fã tiver para dar. Alguns, como comentei, hospedam a artista; outros levam lanche para a banda; alguns colaboram com a divulgação dos shows e assim ela trabalha. Simples, deixando todo mundo ajudar, porque querem, porque gostam, porque se sentem parte do processo artístico dela.

“Pedir é um ato de intimidade e confiança.
Mendigar é uma função do medo, desespero ou fraqueza.” (p. 58)

O pedir, a gentileza, a troca, a colaboração, o “abraçar uma causa”, é um bom jeito de cutucar os sistemas financeiros tradicionais, como o capitalismo que ensina que primeiro você paga, depois você usufrui pelo que pagou. Com Amanda Palmer aprendemos o contrário: Ouviu? Assistiu? Leu? Curtiu? Se inspirou? Então você pode colaborar, apadrinhar, abraçar a causa! Aqui neste blog, por exemplo, você pode ser um padrinho ou madrinha. E foi com o livro A Arte de Pedir que aprendi a aceitar isso como uma forma de conexão.

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Quando cheguei na metade do livro, já considerei Amanda Palmer uma artista inovadora, porque ela revela em seu texto uma enorme capacidade de compreensão com o desconhecido. Ela, literalmente, abraça as pessoas que acompanham o seu trabalho e o mais bonito, não tem medo de dizer sobre suas fraquezas e assim, ela busca derrubar as barreiras do ato de pedir. No livro ela dá um exemplo muito tocante, sobre como foi difícil o processo de aceitar a ajuda do seu marido, o escritor Neil Gaiman.

Então, ler Amanda Palmer evoca várias partes da vida do leitor, porque você vai conhecer uma artista, porque você vai pensar sobre os meios que você mesmo usa para realizar os seus desejos, porque Amanda parece mesmo como uma amiga a trocar confidência sobre as dificuldades da vida, sobre ser independente, sobre ser mulher, sobre ser artista, sobre querer amar as pessoas. O melhor amigo dela, Antony, que aparece com frequência no livro, diz uma frase a ela que pode ser usada como um mantra para a vida: “se você amar as pessoas o suficiente, elas te darão tudo” (p. 292). O que cabe nessa frase é desprendimento, é deixar as coisas acontecerem e perceber quando a ajuda aparece, quando a conexão com pessoas reais traz sentido à vida.

Assista ao vídeo no canal Livro&Café!

Onde comprar o livro A Arte de Pedir:

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Livraria Saraiva
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Francine Ramos

Faz da Livro&Café parte essencial de sua vida desde 2011. É professora de Língua Portuguesa, adora ler, escrever (um dia vai publicar um livro) e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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