O professor de letras, um conto de Tchekhov

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Tchekhov é o cara quando o assunto é conto. Entre os maiores contistas da literatura é o nome dele que sempre vem em primeiro lugar quando se pensa em estudar as histórias curtas. Katherine Mansfield, por exemplo, tinha em Tchekhov profunda admiração e respeito, o via realmente como um professor para esse gênero literário tão especial e envolvente. E se você, caro leitor, não gosta de contos, por favor, dê uma chance, se possível dez, vinte, cinquenta, cem, que seja! porque quando um conto ganhar o seu coração, você se tornará um leitor mais completo, acredite.

Tchekhov nasceu em 1860, na Rússia. Escreveu peças de teatro, alguns ensaios, novelas e muitos contos. Além de escritor, ele também era médico. Dizem que Tchekhov chamava a medicina de sua esposa e a literatura, a amante. Que engraçadinho.

Mas vamos então conversar sobre o conto O professor de letras. É um conto simples, sobre um homem, chamado Nikítin, que se vê apaixonado por um mulher, mas tímido, demora um pouco para pedir a mão da donzela em casamento. Em seguida, após o casamento ser consumado, ele passa por uma enorme transformação, nas entrelinhas, para então perceber o quanto está infeliz com a própria vida.

“Nikítin pressentiu que a ilusão se havia exaurido e que havia começado uma vida nova, nervosa e consciente, a qual não se conformava com a paz e a felicidade pessoal.” (p. 48)

Nikítin faz um caminho simples, conforme manda a sociedade a qual está inserido. Uma grande paixão, a agonia de não saber se também é amado, a consumação do amor, o casamento. E o que vem depois? Ele não sabe… se sente atordoado, infeliz, miserável.

“…desejou que alguma coisa o arrebatasse e o levasse ao esquecimento de si mesmo, à indiferença quanto à felicidade pessoal, tão monótona” (p. 46)

Por outro lado, em segundo plano, há a mulher, Maniússia, que o professor se casa. Também uma personagem padronizada nos moldes sociais da época e não sabemos a versão dela sobre a história. O que é triste constatar que realmente não há o lado dela, uma vez que o conto focaliza apenas na angústia do professor. Compreendo Tchekhov, a história é dele, mas, é importante destacar que, conforme o leitor, de um jeito muito pessoal, sentir empatia pelo professor ou pela mulher que ele se casa, por um mais, por outro menos, pode diagnosticar uma compreensão maior ou menor sobre o sistema patriarcal a qual estamos inseridos, ainda.

Então, O professor de letras é um conto sem grandes firulas literárias, mas o brilhantismo – ah, o brilhantismo! fica por conta da forma como a história é contada. O jeito, o caminho, as pequenas pedras no desenvolvimento dos personagens, colocadas por Tchekhov, sabiamente, é que faz da vida do personagem, e dos outros que o cercam, algo muito denso e pungente. A princípio é como se você estivesse lendo um conto romântico, mas de repente…

O conto é sobre ilusão e desilusão. Sobre criar expectativas e a difícil e dolorosa tarefa de abrir os olhos e não gostar do que vê. O professor, além de se sentir destruído pela rotina da própria vida pessoal e profissional, perde algo muito importante para a vida ser possível, a fé em si mesmo.

O conto faz parte do livro O Assassinato e outras histórias. Onde comprar:

Amazon
Livraria Cultura
Saraiva
Livraria da Folha

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3 comentários

  1. Lembro que li este conto há alguns anos e de me apaixonar pelas personagens, Nikítin não figura tanto quanto os outros, mas seuS colegas são simplesmente hilários. O humor suave que o autor imprime nesse conto me fascinou de uma maneira monstruosa. Um dos meus contos favoritos de todos os tempos.

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