Tudo que você não soube (Fernanda Young)

 photo tudo-q_zpsoh6fznmp.jpgTudo que você não soube (Fernanda Young, Ediouro, 2007), é um romance escrito em primeira pessoa, que narra o relato de uma personagem, cujo nome não é revelado, que no leito de morte do pai resolve escrever um livro para conta-lo tudo o que ele não soube sobre a vida dela, antes que ele morra. Até então, ok. Não fosse o fato revelado logo nas primeiras páginas (portanto não é um “spoiler”), que ela simplesmente martelou sua mãe na tentativa de matá-la na cozinha de sua casa, e que embora tenha falhada no ato, a deixou inválida para o resto da vida. Que beleza!

É um tanto difícil analisar este livro. Acho que muitas pessoas poderiam repudiá-lo e jogá-lo no lixo antes de chegar na décima página. A escrita, cheia de vírgulas e capítulos curtos jogados como desabafos, berrados na orelha de um pai morrendo pode ser bem perturbador. Mas a dita estilística para compor o livro é repudiada pela própria personagem, que repete por diversas vezes estar odiando como o livro está saindo e ameaça engaveta-lo, julgando-se uma péssima escritora.

“(…) Isso aqui não é um diário, entendeu? Não foi escrito aos pouquinhos, com o passar do tempo. É minha história, contada de uma só vez, e sem grandes considerações, já que eu soube que você está nas últimas. Perdoe, portanto, este estilo conturbado. E saiba aproveitar o que há de precioso nestas linhas. Trata-se da vida da sua única filha, aquela que você jamais se interessou em conhecer, mesmo quando ela se tornou um caso de polícia. Ou não foi assim que aconteceu?” (pág 17)

Não bastasse o passado importuno, e o motivo pelo qual ela martelou a mãe (este deixarei pra quem ler, mas não espere um grande motivo), enquanto escreve o livro, casada e mãe de um filho, ela é abandonada pelo marido quando chega em casa após ter cortado seus longos cabelos e ele repudiar a sua aparência. O que na verdade foi o estopim para que ele se mudasse para viver com uma família que já tinha paralelamente há meses.

O livro é bom? Neste caso, depende de quem ler. Como disse, alguns repudiarão e outros não. Uma vez eu ouvi o Jô Soares dizer que é um grande fã da literatura marginal e eu me identifiquei com isso; mas mais do que isso, passei a perceber o quanto gosto quando o escritor não tem escrúpulos e parece não se importar em chocar ou ser grosseiro. Claro, não dá pra ser assim em toda obra, e até por isso quero ler outro título de sua autoria e tirar melhores conclusões, mas para a proposta deste livro foi na medida. Até por que se a ideia era, vamos por assim dizer, relatar a história de uma mulher que nunca havia escrito um livro, que realizou e odiou o trabalho em andamento: sucesso!

Quem ainda assim quiser ler e tirar suas conclusões, que o faça. Mas depois não venha julgar meu gosto esquisito pelo que pode ser julgado como repugnante.

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Ronie John

Ronie John vive em Sorocaba, é graduado em Letras Português/Inglês e atualmente leciona para o ensino fundamental. Tão apaixonado por café quanto por livros, já pensou em criar seu próprio blog “Livro & Cerveja”, mas desistiu após dormir durante as leituras em seus primeiros testes. Apreciador de biografias e obras que remetam aos “beats” e ao “rock and roll”, costuma escrever resenhas mais informais; algo como uma boa conversa sobre um bom livro.

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