Machado de Assis: o leitor da alma humana

Nascia no dia 21 de junho de 1839, o maior escritor que as terras tupiniquins já produziu: Joaquim Maria Machado de Assis. Filho de um pintor de paredes e uma lavadeira, Machado chegou ao mundo sob o signo do deslocamento: gago, mulato, pobre e epilético. Mas a ironia não era a força motriz apenas da sua obra, era também da sua vida. O lugar onde nasceu já predizia o seu destino: Morro do Livramento. Livrou-se do determinismo social para então, por si, adquirir umas das mais robustas intelectualidades que o país já teve.

Machado, que sempre foi arredio, tomou pra si o desafio de ser maior do que apenas um aprendiz de tipógrafo. Embrenhou-se nos livros e nas línguas, conheceu a pobreza de perto, e fez dela o que os grandes fazem das adversidades: combustível para injetar estímulo ao projeto de vida que fez pra si. Foi com essa dura vivência inicial, que forjou a visão irônica do mundo que depois o consagrou como o maior prosador das letras nacionais, e um dos colossos da literatura mundial, ombreando com nomes do tamanho de Shakespeare, Camões, Dante, Cervantes e outros monstros soberanos das palavras.


Imerso no mundo à margem, e com formação clássica e erudita, o Bruxo do Cosme Velho – alcunha que recebera nos últimos anos de vida, já envolto na mística do enclausuramento – talhou, em sua obra, o mais profundo estudo da alma humana. Mesmo em suas obras iniciais, marcadas pelo romantismo – do qual ele mesmo, nas obras de sua segunda fase, procura pedir perdão ao leitor pelos deslizes da juventude -, Machado desenvolveu seu profundo reconhecimento das agruras em que vive o humano. Já na segunda fase, acentuadamente a melhor, o Bruxo imiscui-se de toda a ironia e pessimismo para desacreditar toda a hipocrisia moral, política e social da sua (e da nossa) época numa obra que valeu-se de profundos arquétipos, como o conflito bíblico vivido por Pedro e Paulo (também referências da bíblia) no seu Esaú e Jacó, ou do drama shakespeariano da peça Otelo que inspirou o seu inolvidável – e o maior romance brasileiro – Dom Casmurro, obra essa que eleva a força da psicose de Bentinho ao extremo nível de nos fazer criar identificação e repulsa simultaneamente por suas memórias. E nessa sua leitura do que a alma humana pode guardar, Machado de Assis não poupa o leitor. Faz dele seu cúmplice involuntário. É assim que nos pegamos lendo o relato, transvestido de documentação histórica, da sua novela O Alienista, em que a loucura e sanidade adotam fronteiras tão tênues como a conclusão do leitor, que fica inconclusa.

O humano na obra machadiana é lido como um livro aberto, com entrelinhas bem construídas, e sempre carregado de insinuações. Talvez o grande feito de Machado de Assis tenha sido ensinar à Literatura Brasileira a arte de insinuar. É a (nossa) alma ali refletida. É bem pouco provável que um leitor, por mais desavisado que seja, não se pegue rindo dos gracejos de Brás Cubas e suas memórias póstumas. Ou ainda se veja perdido nos emaranhados filosóficos de Quincas Borba e a sua famosa corrente de pensamento: o Humanitismo. Em Machado, como bem pontuou o professor Antônio Cândido, o homem transformar-se em “objeto do homem, que é uma das maldições ligadas à falta de liberdade verdadeira, econômica e espiritual.” Não há saída para o humano na obra de Machado. Estamos fadados, assim como em Sartre, a condenação da (falsa) liberdade. É ali que a alma humana se aprisiona: nas iludidas amarras do socialmente aceitável.

Machado, como ninguém, conhecia a aristocracia e seu modo de pensar. Não à toa, a transforma em caricatura em seus contos e romances. Também desacredita, como cético que sempre foi, das atuações do destino – o seu conto A Cartomante é um dos fortes indicativos desse seu ceticismo. Não nega as intenções imorais que nos move – qual conclusão se pode tirar de uma história como a da Missa do galo? -. É um dos primeiros escritores a abordar temas como a loucura, a homossexualidade, a putrefação das instituições. É nele, nesse mulato calado, que temos a mais ampla leitura do humano. Nada escapa dos olhos atentos desse Bruxo oblíquo e dissimulado. Com sua estilística profunda, sua metalinguagem, a sobreposição psicológica e a gama de possibilidades interpretativas que sua obra nos apresenta, Machado foi e continuará sendo o mais profundo leitor dos meandros da alma humana. Resta-nos também, nesse pequeno esforço comparado ao seu, nos debruçar sobre a obra daquele que foi o maior entre nós.





Saraiva

Ricardo Silva

Ricardo Silva é leitor de bula, de pequenas mentiras e crítico literário. Eterno acadêmico de Filosofia, escreve sobre literatura e livros desde que se entende alfabetizado. Mantém o blog "Roedor de Livros" e colabora para diversas publicações - e em todas fala da mesma coisa: livros.

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