A identidade: a anatomia de uma relação amorosa

Kundera talvez seja um dos maiores romancistas vivos da Europa. Autor do inolvidável “A insustentável leveza do ser”, clássico de proporções gigantescas e uma das mais fortes ficções que desmembra as relações humanas e suas complexidades, Mila Kundera é, tal qual Roland Barthes e o seu “Fragmentos de um discurso amoroso”, um leitor das relações amorosas. Isso fica claro e notório no seu curto romance “A identidade” (Companhia de Bolso, 2009. Traducão de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca).

milan-kunderaComo toda boa narrativa, o título de Kundera não vem aleatório. Ao falar da história do casal Jean-Marc e Chantal, o escritor promove um conjunto de reflexões sobre as formas em que as relações amorosas se dão. Jean-Marc e Chantal são um casal que habituaram-se um com o outro e vivem agora a monotonia de uma relação instável – porém sem conflitos apoteóticos, tudo está ali na sutileza das reflexões.

Kundera nos guia em seu romance, como se ele fosse um manual de anatomia: destrincha os desejos escondidos de seus personagens, intercambiando e compartilhando os pensamentos de ambos com o leitor. É isso que vemos em Chantal frustrada por não despertar o desejo em estranhos, de viver “num mundo em que os homens já não se viram para me olhar”. Ao mesmo tempo o paralelo é traçado ao percebermos o que pensa Jean-Marc sobre essa conclusão de sua companheira: “Fita-a, incapaz de compreender o que ela diz, o que quer dizer. Está triste porque os homens não se viram mais para olhar para ela? Ele quer dizer: E eu? E eu? Eu, que a procuro porque quilômetros de praia, eu, que grito seu nome chorando e que sou capaz de correr o planeta inteiro atrás de você?”. Chantal ver-se às vias com os desejos da juventude, em que havia se prometido de viver a doce lascividade da carne, “ser um perfume de rosa, um perfume que se difundisse, que conquistasse, queria atravessar assim todos os homens e, pelos homens, envolver a terra inteira.” A maneira como Kundera permite que os dois se apresentem para o leitor, de como a forma deles se relacionar podem criar pontos de identificação – já que estamos falando de sentimentos e sensações universais, que facilmente se reproduzem nas mesmas bases afetivas.

O autor fala de sentimentos caros ao leitor que porventura possa estar, ou já esteve na mesma situação de Jean-Marc e Chantal. É bem pouco provável que mesmo o leitor mais desatento não se identifique com os elementos que Kundera adota na elaboração desse escrutínio que faz. Alguns desses pontos valem o destaque:

Saudade do objeto presente: Numa das cenas, Chantal olha para Jean-Marc que estava a sua frente e percebe a saudade que sente dele, algo muito típico de uma relação que baseia-se na idealização do outro. E Kundera apresenta a resposta no mesmo parágrafo, pelo o que Jean-Marc poderia responder: “Saudade? Como podia sentir saudades se ele estava na frente dela? Como se pode sofrer com a ausência de alguém que está presente? (Jean-Marc saberia responder: pode-se sofrer de saudade na presença do amado se se entrevê um futuro em que o amado não está mais presente; se a morte do amado já está então, invisivelmente, presente.)

A irracionalidade dos sentimentos: Chantal perdera um filho, numa gravidez mal sucedida e divide um misto de culpa e felicidade com esse fim que sua cria teve. Afinal, é graças a morte de seu filho, que ela pode viver, de forma mais “livre”, o seu relacionamento com Jean-Marc. “[…] ela se lembrou de repente do seu filho morto e uma onda de felicidade a inundou. Logo depois, ficaria assustada com esse sentimento. Mas contra os sentimentos ninguém pode fazer nada, estão aí e escapam a qualquer censura. Podemos nos censurar por um ato, uma palavra pronunciada, não podemos nos censurar por um sentimento, simplesmente porque não temos nenhum poder sobre ele.” Há como uma espécie de condescendência sentimental, dessa que justifica qualquer absurdo lógico, mas onde não há traço algum de saúde.

Encantar-se com outros: Há, no meio da trama, o envio de cartas anônimas de um admirador secreto de Chantal. Cartas que despertam nela os sentimentos arrefecidos por Jean-Marc. Nas insinuações do anônimo remetente, ela entra numa espiral de desejo e culpa. É o terceiro elemento inserindo-se na relação. Um terceiro elemento também idealizado, longínquo, que estimula muito mais pela imaginação do que pela realidade das ações. O que não modifica o impacto que tem sobre Chantal, que afeta-se e modifica-se completamente por imaginar-se desejada e observada por outro.

A perda da identidade: Talvez o aspecto mais importante do romance de Kundera. Jean-Marc e Chantal enxergam-se imbricados de si. Formam um par uno. O que se revela um embuste, já que é sabido que relações simbióticas geram apenas a despersonalização do sujeito, é o apagamento do indivíduo em prol de uma vida outra que não a sua. É aí que a identidade una some, para dar espaço a identidade do casal. O que gera um conflito, como Kundera desenha em claros contornos em sua trama. Quando então um dos lados, ou ambos os lados, percebe a armadilha romanticamente criada e tenta desvencilhar-se dela, através do exercício da própria individualidade, há o choque. Numa relação siamesa, não há espaço para o indivíduo. Aliás, não há espaço. E logo, aquilo que parece ser a fonte de felicidade, torna-se um tormento, um lento (ou mesmo repentino) processo de sufocamento. É o começo do fim.

O ciúme: Esse é o processo natural de um colapso eminente numa relação. Por detalhes que não cabem dizer aqui sem que haja prejuízo na leitura do romance de Kundera, Jean-Marc se vê inflamado por ciúmes de Chantal, quando ela enrubesce repentinamente ao imaginar estar sendo observada pelo anônimo que lhe envia as cartas. É nesse momento que o romancista toca num ponto muito importante para entender a anatomia de uma relação amorosa, que é o da falsificação da realidade. Quando um dos lados precisa esconder o seu espaço de desejos e vontades, porque ele entra em conflito com o espaço compartilhado por quem é partícipe da relação, tudo precisa transformar-se num simulacro do real. E nisso, a escrita de Kundera é certeira, ao falar do ciúme de Jean-Marc: “Seu ciúme não se parecia com o que conhecera na juventude, quando a imaginação estimulava nele uma torturante fantasia erótica; dessa vez, ele era menos doloroso porém mais destrutivo: lenta e mansamente, transformava uma mulher amada em simulacro de mulher amada. E, como ela não era mais um ser seguro para ele, não havia mais nenhum ponto de estabilidade no caos sem valores que é o mundo. Diante de uma Chantal transubstanciada (ou dessubstanciada), uma estranha indiferença melancólica se apossava dele. Não indiferença em relação a ela mas indiferença em relação a tudo. Se Chantal é um simulacro, toda a vida de Jean-Marc o é também.

Então, quando essas percepções se tornam claras, o relacionamento vira um jogo de queda de braço. Onde testa-se a força do outro: “Na verdade quem era mais forte? Quando estavam ambos na terra do amor, talvez fosse realmente ele. Mas, uma vez desaparecida sob seus pés a terra do amor, ela é que é a forte e ele que é o fraco.”, diz o narrador como se falasse ao ouvido íntimo do leitor. E seguindo o sutil sentido que a linha lógica de Kundera adota em sua narrativa, chega-se a conclusão cabal, que uma das partes do relacionamento logo vai cair em si: o amor não existe. E isso fica claro na forma como Chantal concatena essa ideia e deixa-se entranhar por ela: “o amor, como exaltação de dois indivíduos, o amor como fidelidade, ligação apaixonada com uma só pessoa, não, isso não existe. E, se existe, é apenas como autopunição, cegueira voluntária, fuga para um mosteiro. Mesmo que exista, pensa ela, o amor não deveria existir, e essa ideia não a torna amarga, ao contrário, experimenta uma felicidade que se espalha por seu corpo. Ela pensa na metáfora da rosa que atravessa todos os homens e diz a si mesma que viveu numa reclusão de amor e que agora está pronta para obedecer ao mito da rosa e se confundir com seu estonteante perfume.

Nesse seu curto romance, possível de ler em apenas um gole, Kundera define as claras linhas de um relacionamento amoroso com parcimônia, reflexões profundas sobre a vida a dois e a existência humana em níveis filosóficos porém sem pesar a mão em grandes elucubrações. É a riqueza de sua prosa em alto e bom nível. Pode ser que não esteja entre suas mais esplêndidas obras, mas “A identidade” talvez esteja entre as mais filosoficamente importantes e é uma das leituras fundamentais para a compreensão desse tipo de relação tão permeado de labirintos sentimentais, que é a relação amorosa.

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Ricardo Silva

Ricardo Silva é leitor de bula, de pequenas mentiras e crítico literário. Eterno acadêmico de Filosofia, escreve sobre literatura e livros desde que se entende alfabetizado. Mantém o blog "Roedor de Livros" e colabora para diversas publicações - e em todas fala da mesma coisa: livros.

2 Comentários
  1. Li “A identidade” recentemente, em meio a questionamentos sobre o que quero para minha vida amorosa, e foi como se o chão desaparecesse debaixo dos meus pés!

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