O gesto de revisitar textos guardados em uma velha caixa de sapato dá vida ao Inventário de Mulheres Possíveis, de Val Prochnow. 

    A escrita começou na tentativa de criar um método. “Escrevo desde sempre. Mas eu tinha o receio de publicar, tanto no meio impresso quanto digitalmente, também não submetia meus textos aos concursos literários.  Talvez, essa recusa passasse por uma questão que, creio eu, seja muito comum a quem lida com a escrita: o processo contínuo e difícil de edição e alteração do texto. Me propus o exercício de colocar em uma caixa de sapatos vazia, todos os dias, ao longo de um ano, uma série de formulações, começos, esboços, fragmentos colhidos a partir da observação cotidiana. Foi fácil perceber que todos os textos depositados na caixa traziam a mulher como figura central”, conta Val sobre o seu processo criativo.

    Após abrir a caixa, a autora iniciou o percurso de montagem dos textos. “Foi como estruturar um quebra-cabeça de peças díspares. O reencontro com as anotações iniciais me ofereceu uma variedade de tipos femininos, de fragmentos heterogêneos. Mesclei características físicas às frases coletadas nas ruas e mergulhei, ao mesmo tempo, na diversidade de figuras que me cercavam”, explica. Ao todo, 37 textos compõem a publicação e, cada um, recebe o nome de uma mulher. Os textos foram organizados na forma de um inventário, em ordem alfabética.

    Val destaca a característica fragmentária da escrita na captura das figuras femininas. “Após uma semana de notas colhidas, percebi que todos os trechos traziam instantes, estados momentâneos de pessoas que eu observava nas ruas, todas elas mulheres – imagino que, parte disso, desse modo de capturar o fugidio das cenas e teor dos assuntos tenha relação com a minha formação como jornalista. Talvez essas personagens tenham me encontrado, talvez tenhamos nos encontrado no ponto exato de um chamado, de uma atenção, de algo que poderia ter passado como coisa ordinária. Porque a uma mulher (apenas de passagem) pode não ser exatamente um acontecimento notável, mas eu me ocupei de cada mulher desse inventário, e cada mulher também me ocupou como invenção possível”, explica.

     A autora ressalta que o universo feminino da obra se manteve em todo o processo, desde a feitura inicial dos trechos até a finalização do objeto, inclusive a equipe: Assim, editora, ilustradora, revisora, artista gráfica, comunicação, fotografia, todas as parcerias são mulheres. “O livro não é um manifesto político, mas, de certa forma, evoca certas vozes de resistência que estão em atrito e confluência com o momento atual. O ‘Inventário’ transita por universos complexos e bastante humanos, ora mais trágicos, ora mais estranhos, ora mais explícitos, ora mais sutis. Penso que, quanto mais mulheres publicarem, quanto mais mulheres se colocarem e se posicionarem mais chance temos de abrir uma outra percepção de mundo que altere o retrato padrão, convencionalmente traçado pela predominância de uma visão masculina.” 

    A parceria de Julia Panadés com a autora passa tanto pela edição dos poemas quanto pela criação dos desenhos, com um “ar” de inacabados, mas suficientemente traçados para compor com a atmosfera das personagens. “Semente, fruto, ramo, flor, folha e raiz são alguns dos elementos que dividem com as mãos e os textos o diagrama do livro. Diferente do caráter inacabado dos desenhos das mãos humanas, os elementos vegetais são objetos retratados mais integralmente, são corpos de limites tateados e texturas exploradas,  como se precisassem ser salvos de uma condição efêmera.”

    Sobre a autora Val Prochnow

    Valéria Prochnow dos Anjos formou-se jornalista para ter a escrita e o uso da palavra como ferramentas diárias de trabalho. Atua na área de assessoria de imprensa cultural há mais de dez anos. É cocriadora da Evas do Paraíso, coletivo de mulheres que desenvolve produtos a partir dos eixos da literatura, artes visuais e botânica, e sócia da Amora Comunicação. É colaboradora de sites especializados em literatura, escrevendo resenhas sobre livros e processos criativos. Realiza leituras críticas de originais e acompanha processos de escrita em encontros individuais com toda e qualquer pessoa que se proponha a escrever. O Inventário de Mulheres Possíveis é sua primeira obra publicada, pela editora colaborativa Modular. Outros dois livros estão em fase de pesquisa e escrita iniciais. 

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