Ulrica (Jorge Luis Borges): sobre quando tudo vai deixando de existir

O segundo conto do livro “O livro de areia” é sobre um cotidiano muito simples, de um homem que se apaixona e vive uma noite de amor. Este homem – o narrador, Borges, eu ou você, percebe nas entrelinhas a beleza e a tragédia da vida e por isso, informa o quanto é importante relatar a sua história, mesmo tão simples.

Porém, conforme o conto vai ganhando formas, o cenário aparece, a ação aparece, a sensação de que algo vai acontecer chega e deixa o leitor – que parece tão íntimo do narrador, curioso e confortável como se, sentado em uma poltrona confortável, conversasse com um grande amigo.

Mas, aprendi neste segundo conto que ler Borges é ler também o fantástico e o absurdo, porém, na mesma proporção que dois prédios espelhados numa grande e comum cidade, lá dentro pode haver diferenças, não pelos móveis ou objetos, mas pelas pessoas – não por suas profissões ou escolhas no canal de tv, mas por seus sonhos e pesadelos. Não pesadelos que invocam algo maligno como nos clássicos filmes de terror, mas aquele medo de perder algo muito especial. De ver a paixão e o amor escapar pelas mãos. E vem a angústia e o desconforto. É isso o fantástico em Borges, por isso ele pode ser ao mesmo tempo assustador e reconfortante, porque sua epifania é ainda é sobre o que pode acontecer com todos nós.

“Como areia, escoava o tempo” (p. 19).

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Francine Ramos
Editora da Livro&Café desde 2011. É professora de Língua Portuguesa e tenta ser escritora (um conto seu foi publicado na coletânea Leia Mulheres, em 2019). Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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