O Congresso (Jorge Luis Borges): uma crítica às organizações?

“As palavras são símbolos que postulam uma memória compartilhada” (p. 36)

Continuo tecendo o meu labirinto de Borges, se é que posso chamar assim. Há um livro chamado “Nos labirintos de Borges“, então, tentando mergulhar na obra desse autor, lembrei-me desse livro que ainda não li.

Em “O Congresso“, Jorge Luis Borges parece criticar às organizações, pois, um homem que faz parte de um grupo de pessoas que pretende criar um Congresso do Mundo, passa por uma sequência muito comum quando se conhece algo novo. Primeiro a euforia, o trabalho árduo e por fim um certo tipo de decepção.

Mas, se tratando de Borges e do pouco que conheço do autor, fica difícil criar algum tipo de conclusão ou ficar confortável apenas com uma ideia. Aliás, isso também pode entrar como uma temática do conto O Congresso, que apresenta para o leitor o desapontamento, porém, é possível perceber que o caminho dos poucos personagens – todos dispostos a fazer o maior congresso do mundo – é o que há de mais importante, uma vez que é o caminhar das ideias que o transformam.

O conto, narrado em primeira pessoa, pode confundir o leitor sobre quem é o personagem-narrador: o próprio Borges? Um eu-lírico? Talvez uma mistura dos dois. Entretanto, acredito que o mais bacana é deixar-se levar por essa história, pois a epifania que ela pode causar no leitor é o que há de mais bonito mesmo.

A problemática que o conto apresenta é sobre a construção desse tal Congresso do Mundo. Como é possível um congresso do mundo não tornar-se excludente e classista? Como colocar em um mesmo ambiente, com data e hora marcada, pessoas que representem todo o mundo verdadeiramente?

“Twirl, cuja inteligência era lúcida, observou que o Congresso propunha um problema de caráter filosófico. Planejar uma assembleia que representasse todos os homens era como fixar um número exato dos arquétipos platônicos.” (p. 27)

Mas, conforme o próprio narrador informa, tudo isso não é o que ele quer contar, pois a sua narrativa caminha para revelar ao leitor a sua grande descoberta, “talvez o único de toda a minha vida.” E como todo bom conto, ficamos realmente apreensivos com a grande descoberta que será revelada. É neste ponto que tudo faz sentido quando chamam a obra de Borges de labiríntica, pois os desdobramentos que os seus contos provocam são realmente inesperados e de uma profundidade que assusta.

Se há a possibilidade de fazer o tal congresso, de juntar pessoas que querem discutir o mesmo tema, para Borges, isso não é o máximo, mas sim a descoberta que – ao ter uma ideia e colocá-la em prática – pode causar às pessoas. Inclusive sobre o sentido de ter colocado a tal ideia em prática. Tudo se transforma tudo muda, sem controle. Que bom.

As ações do personagem-narrador como um participante da organização desse congresso, faz com que ele viaje. Ele passa um tempo nas fronteiras do Brasil, depois em Paris, local em que vive uma paixão. Ao retornar para as reuniões do congresso, percebe que não é o único que saiu um pouco de seu objetivo. Até mesmo o próprio idealizador do congresso, mostra-se muito diferente.

“(…), procurei ao longo dos anos o sabor daquela noite; certa vez acreditei recuperá-la na música, no amor, na incerta memória, mas não voltou, exceto uma única madrugada, num sonho.” (p. 37)

Se queimar livros para todos os leitores e não-leitores parece ser uma grande loucura, neste conto, o ato de transformar palavras em pó ganha um novo significado. Se juntar pessoas e organizar esses encontros parece ser algo comum, neste conto, é possível ressignificar para algo muito maior, como se todos nós já fizéssemos parte desse tal Congresso do Mundo. Continuo tecendo o meu labirinto de Borges.

Epílogo

Ao final do livro há algumas palavras do autor que nos ajudam a entender o  conto:

“O congresso” é talvez a mais ambiciosa das fábulas deste livro; seu tema é uma empresa tão vasta que se confunde afinal com o cosmos e com a soma dos dias. O início opaco quer imitar o das ficções de Kafka; o fim quer se elevar, sem dúvida, inutilmente, aos êxtases de Chesterton* ou de John Bunyan**. Nunca mereci semelhante revelação, mas procurei sonhá-la. Em seu percurso entremeei, conforme meu hábito, traços autobiográficos.” (p. 102)

*Cheterston: poeta inglês conhecido como “o príncipe do paradoxo”.
**Joh Bunyan: escritor inglês. Escreveu o livro “O Peregrino”, considerado a alegoria cristã mais conhecida de todos os tempos.

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Francine Ramos

Faz da Livro&Café parte essencial de sua vida desde 2011. É professora de Língua Portuguesa, adora ler, escrever (um dia vai publicar um livro) e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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