A noite dos dons (Jorge Luis borges): a história é sua ou de outra pessoa?

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Alguns contos, quando você lê, descobre que o assunto abordado já fez parte das rodas despretensiosas de conversas com os amigos. Recentemente, conversamos sobre os sutis roubos de histórias. Aquela história que você ouviu certa vez e achou tão incrível que, de repente, está contando como se fosse sua. E aproveita para florear certas passagens com o objetivo de provocar o maior riso entre os amigos. Isso pode ser saudável, ou não.

A noite dos dons

Já dizia Fernando Pessoa, todos os meus amigos são bons em tudo. Talvez, porque eles pegam histórias de outros e as transforam em histórias próprias ao ponto de arrancar do amigo incrédulo uma frase tão conhecida: só com você que acontece essas coisas mesmo!

Mas, para Borges, ou exclusivamente no conto “A noite dos dons”, a sutileza de recontar histórias pode ser explicada pelos arquétipos platônicos. Quem realmente poderá dizer onde essa história começou?

“Já vimos de tudo num mundo anterior, de modo que conhecer é reconhecer; meu pai, creio, disse que Bacon tinha escrito que, se aprender é recordar, ignorar é de fato ter esquecido.”

p. 51

Assim, o conto nos apresenta um senhor que relata a história de uma moça que consegui ser salva pelo destino de uma terrível situação de ataque, uma violência que atingiu todos de sua família, mas que por sorte, a livrou de um terrível destino. Quando a moça conta a sua história, um estado de transe a envolve e fica o questionamento: é a sua história ou apenas palavras decoradas que ela está transmitindo? Há um entendimento substancial dessas palavras? Mas esse senhor que relata a história dessa moça também pode estar perdido em seu bonito mar de histórias. É isso.

O valor da experiência

Descubro que os contos de Borges não possuem a responsabilidade de trazer finais explicativos e isso é maravilhoso. Aqui, na noite dos dons, o que vale mesmo é a experiência, da história contada, da história vivida e do quanto é possível relatar, a partir das lembranças. Que também podem funcionar como um mecanismo falho, que mistura ideias, histórias reais e imaginadas.

O que, por fim, importa onde tudo começou?

Ler Borges pode ser muito divertido também.

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Francine Ramos
Editora da Livro&Café desde 2011. É professora de Língua Portuguesa e tenta ser escritora (um conto seu foi publicado na coletânea Leia Mulheres, em 2019). Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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