Minhas leituras favoritas em 2018, por Bruna Bengozi

Muitas das descobertas literárias que fiz ao longo de 2018 foram no âmbito dos encontros do Leia Mulheres Sorocaba e do Clube de Leitura do Sesc, ou, então, para resenhas enviadas ao Livro & Café. Porém, também tive alguns felizes reencontros com obras que estiveram em minha vida em outros momentos, que deixaram a tarefa de separar os melhores livros lidos neste ano um pouco mais difícil. Vamos lá!

 

Kindred – laços de sangue, de Octavia E. Butler (Morro Branco, 2017)
Sabe desses livros que você termina, mas fica digerindo, digerindo, digerindo tudo o que leu? Foi essa a minha sensação ao finalizar a obra da escritora norte-americana Octavia E. Butler, que foi escolhida para o encontro do Leia Mulheres de novembro. O livro nos apresenta Dana, uma jovem escritora negra, que viaja no tempo e espaço: sai da Califórnia na década de 1970 e vai parar em Maryland no período escravocrata, pouco antes da Guerra de Secessão (Guerra Civil). O que poderia ser só mais uma história de ficção científica que brinca com as viagens temporais, se mostrou uma narrativa dolorida, que me fez sentir as angústias da escravidão, do abuso, da separação, da luta pela sobrevivência. É um livro essencial para qualquer pessoa que queira entender como o ser humano é capaz de desumanizar e coisificar outro ser humano e como as opressões de raça, classe e gênero não ficaram no passado nem são frutos da ficção. + Compre na Amazon

 

Vozes de Tchernóbil, de Svetlana Aleksiévitch (Companhia das Letras, 2016) 
Quem me conhece sabe o quanto sou apaixonada pela “mulher-ouvido”. Seu livro, “A guerra não tem rosto de mulher”, mora em meu coração e sua obra sobre o desastre nuclear de Tchernóbil também encontrou morada por aqui. Como não poderia deixar de ser, Svetlana Aleksiévitch nos apresenta relatos duros e ao mesmo tempo sensíveis sobre o antes e depois das vidas de pessoas comuns que vivenciaram (algumas ainda vivenciam) aquela tragédia. Como historiadora, sempre me deparo com o velho dilema entre lembrar e esquecer, algo muito comum quando lidamos com memórias de guerras, catástrofes etc. Em “Vozes de Tchernóbil”, esse embate é frequente: há vozes que querem gritar sobre tudo que aconteceu; há vozes que querem calar. Sua obra é uma aula de História e de humanidade, sobre como lidamos com a vida de modo geral. O respeito e a sensibilidade de Svetlana em seus escritos sempre irão me tocar. Não foi diferente com este livro. + Compre na Amazon

 

A cidade solitária, de Olivia Laing (Rocco, 2017) 
Esse livro foi sorteado para o encontro do Leia Mulheres de julho e trata da jornada de Laing, uma escritora britânica que se vê sozinha em Nova York. A obra, então, disserta sobre suas experiências pessoais, analisa produções artísticas e apresenta pesquisas que versam sobre um tema tão complexo e tão presente: a solidão humana. Fiquei surpresa e tocada pela sua narrativa, que contempla tanto os aspectos individuais quanto os políticos que contribuem para que sejamos pessoas e sociedades solitárias. Me vi, em diversos momentos, retratada e abraçada naquelas páginas. Uma grata surpresa para a minha biblioteca e para a minha vida! + Compre na Amazon

 

No seu pescoço, de Chimamanda Ngozi Adichie (Companhia das Letras, 2017) 
Hibisco Roxo foi minha primeira – e ainda favorita – leitura de uma obra escrita pela nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. Porém, por causa do encontro do Sesc Sorocaba, busquei ler outras produções de sua autoria e me deparei com “No seu pescoço”, seu único livro de contos. Ele traz elementos explorados em outros trabalhos, como a imigração, o racismo, a crítica ao sonho americano, ao machismo da sociedade nigeriana, entre outros. “No seu pescoço” é um livro poderoso, dolorido, que mostra o controle que Chimamanda tem da sua escrita e da sua trajetória como autora, como imigrante, como mulher. + Compre na Amazon

 

Uma noite na praia, de Elena Ferrante (Intrínseca, 2016)
Sim, tem livro infanto-juvenil na lista. Eu gosto de livros infantis e tenho a sorte de ter vários deles em casa. Quando soube que a italiana misteriosa Elena Ferrante havia escrito um neste gênero, fiquei muito ansiosa pela leitura. Consegui lê-lo há alguns dias e posso dizer que ainda não o assimilei. O tom sombrio do texto e das ilustrações, da também italiana Mara Cerri, me impactou e ainda me pego pensando sobre o quê, afinal, está por trás da história da boneca Celina. Fiz uma resenha sobre a obra, que você pode acessar aqui, mas adoraria que outras pessoas também  a lessem e compartilhassem suas impressões e angústias. Porque, definitivamente, não dá para ler Ferrante e ficar bem [risos nervosos]. + Compre na Amazon

 

Alta Fidelidade, de Nick Hornby (Companhia das Letras, 2013)
Aqui, não se trata de uma leitura, mas de uma releitura. Esse livro chegou às minhas mãos por meio de uma amiga querida há alguns anos. Em 2018, depois de um término, me vi de novo diante dessa capa. E devorei. Talvez pela identificação com o protaginista, Rob, um cara na casa dos 35 anos, sarcástico, que se sente fracassado em todos os aspectos da vida, mas que nutre um grande interesse por música e listas (quem não é viciado em listas?). Um anti-herói vivendo, na década de 1990, dramas que são atemporais. Impossível não rir e se emocionar. + Compre na Amazon

 

Lugares Distantes: como viajar pode mudar o mundo, de Andrew Solomon (Companhia das Letras, 2018)
Eu sou uma pessoa simples: vejo um livro do Solomon e leio. Talvez por uma relação afetiva que criei com ele desde a leitura de “O demônio do meio-dia”, um dos meus favoritos para a vida, eu sempre me encanto com a sua capacidade de observação do mundo, das pessoas e de si próprio. E essa sagacidade fica muito explícita neste livro que reúne diversos ensaios que o autor produziu sobre as suas viagens pelo mundo. O que me surpreendeu também é que esses relatos não são diários de um turista visitando lugares famosos; ao contrário, Solomon esteve em cidades que passaram por diversas tribulações (ambientais, sociais, políticas, culturais etc.) e observa tudo como um pesquisador, um curioso, e, principalmente, como alguém que quer se conectar à outra pessoa, à outra realidade.  Se quiser saber mais sobre esse livro, pode ler a resenha que fiz sobre ele aqui. + Compre na Amazon

 

Aprendendo a viver, de Clarice Lispector (Rocco, 2004)
Comecei a ler esse livro nas minhas longas esperas na rodoviária de Campinas entre 2015 e 2016. Depois o abandonei e retomei a leitura neste ano. Me pergunto por que demorei tanto. A obra, que não está entre as mais conhecidas de Lispector, traz uma seleção das crônicas confessionais que ela escreveu no Jornal do Brasil, entre agosto de 1967 e dezembro de 1973. É possível ter mais contato com o seu processo criativo, sua rotina, seus dramas, o que me fez admirá-la ainda mais como escritora. + Compre na Amazon

 

A sutil arte de ligar o f*da-se, de Mark Manson (Intrínseca, 2017)
Não gosto de livros de autoajuda. Pode ser preconceito literário da minha parte, mas todos que já tentei ler apresentam soluções que não dão conta da complexidade humana e, muitas vezes, prometem coisas impossíveis. Alguém aqui já atingiu a felicidade plena ou a riqueza após seguir 10 dicas do fulano de tal? [Se conseguiu, me manda as dicas, por favor]. Tendo isso em mente, resolvi dar uma chance ao livro do Manson justamente por ele não se vender como autoajuda e já começar desmistificando a ideia de que todos devemos ter sucesso, ser felizes, otimistas o tempo todo etc. etc. etc. Em um mundo que preza pelas aparências e pelo discurso hedonista, custe o que custar, é uma surpresa ter em mãos um livro que joga algumas verdades na nossa cara de maneira direta, até agressiva, mas honesta, daquele jeito que só um amigo ou amiga consegue fazer conosco às vezes. No final, “A sutil arte…” se mostrou um livro de autoajuda ao recorrer à realidade da vida – geralmente dura, feia, cruel – para nos lembrar que está tudo bem ser assim, está tudo bem sofrer, está tudo bem “ligar o f*da-se” de vez em quando. + Compre na Amazon

 

A queda, de Albert Camus (BestBolso, 2007)
Camus é desses escritores que me atraem e, ao mesmo tempo, me amedrontam, possivelmente porque eu sei que também é desses autores capazes de “ler a alma humana”, desses que nos mostram características que temos e não queremos ver, aceitar. Pois bem, é isso mesmo. Ao terminar de ler “A queda”, me senti exposta, confusa, como se alguém tivesse brincado com tudo aquilo que sei, que acho correto. A história, que começa com um encontro num bar de marinheiros em Amsterdã, se mostra, na realidade, um monólogo sobre vaidade, farsa, culpa, morte. Não é uma narrativa fácil ou simples; é o tipo de livro que precisa ser lido duas, três vezes, e sempre dará a sensação de que estamos perdendo algo. Recomento e espero reler em 2019! + Compre na Amazon

 

E aí, quais foram as suas leituras favoritas em 2018?






Saraiva

Bruna Bengozi

Bruna é mestra em História pela USP, redescobriu (e redescobre) o amor pelos livros, pela música e pela vida. Aguarda ansiosamente a queda do capitalismo e do patriarcado. Sofre de "síndrome do impostor".

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