Enreduana (Roger Mello): a grandeza da voz de um grão de areia

Muito se engana quem pensa que literatura infantil é menor, menos importante e, por isso, mais simples e menos válida. Muito se engana quem pensa que, por ser feita para crianças, mais valem a cor, o desenho, as formas do que aquilo que se conta.

Existe todo um mundo além das texturas, das firulas e das novas aventuras dos personagens da moda. É possível encontrar nos livros para os pequenos histórias mais densas e pesadas, sobre depressão e sobre perdas, por exemplo, até aventuras incríveis que os transportam para lugares fantásticos e livros que os apresentem figuras reais, sua vida e seus feitos. Esse é o caso de Enreduana, com autoria de Roger Mello, ilustrado por Massarani, e publicado pela Companhia das Letrinhas em outubro de 2018.


 

Se os grãos de areia falassem, o deserto estaria

cheio de vozes perdidas

Mas os grãos são mudos.

Menos eu, o menor grão do mundo

 

Enreduana ou Enheduana foi uma filósofa e sacerdotisa que nasceu na Mesopotâmia em 2.300 a.C. Também poeta, é considerada a primeira escritora, teve grande importância política e, por tensões relacionadas a isso, chegou a ser expulsa do reino de Ur.

Escrito em versos, o livro é contado pelo ponto de vista do menor grão de areia que, “afogado em histórias”, observa e acompanha Enreduana durante seu casamento com a deusa Innana, quando é expulsa pelo próprio irmão, pois seus poemas colocavam “ideias na cabeça das pessoas”, e durante o seu retorno.

Com uma linguagem talvez mais adequada para crianças que já tenham algum contato com literatura, suas páginas são muito coloridas, quentes como o deserto, e com ilustrações, colagens e desenhos feitos em grãos de areia. O livro me parece uma boa introdução para a questão do apagamento de mulheres e outras minorias, encorajando o desejo de conhecer essas muitas outras vozes perdidas.

 

Muito depois, não sei quando, só aí Enreduana vai se

desfazer em areia. Vai correr para os braços de sua Inana,

sua esposa, Então serei mesmo só um grão de argila.

serei molhado, misturado ao silêncio dos outros grãos,

amassado, um punhado de terra, um punhado de noite.

Até caber na palma da mão de alguém, como uma concha.

Vou ser o papel de meu tempo. Uma placa de barro. Justo eu…

o menor grão de todos. Mas um poema dela vai ser escrito

sobre mim. Vou estar debaixo da linha de um poema dela,

debaixo da palavra OUTRA. Se a placa de argila pegar fogo,

até melhor. Vira tijolo, dura mais que o papel. Um bocejo

antes de me calar, mas quem disse que eu me calo?

É a minha vingança.

 

Para quem se interessa por literatura infantil, recomendo fortemente o canal A cigarra e a formiga, feito pela Daisy que, além de ser mãe do Fran e do Vini, estuda o gênero e pode falar com mais propriedade sobre o assunto.

 

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Vanessa Pessoa

Vanessa é uma feminista introvertida, estuda letras na UFPR e coleciona uma porção de figos maduros que apodreceram aos seus pés. Gosta de livros riscados, lombadas quebradas, café sem açúcar e não sabe muito bem como escrever sobre ela mesma.

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