Arte em Sorocaba: entrevista com Evandro Aranha

Fazer arte no nosso país já é muito difícil; no interior, então, os desafios são ainda maiores. Incentivos escassos, falta de espaços adequados para apresentações, pouca divulgação etc. podem acabar desestimulando artistas das nossas cidades.

Por isso, acreditamos que, para mudar esse cenário, precisamos conhecer e dar mais visibilidade às pessoas que resistem e fazem a diferença em prol da cultura brasileira. Portanto, a Revista Digital Livro & Café passará a trazer entrevistas com artistas de Sorocaba e região. E, para começar, você pode conferir o bate-papo que tivemos com o poeta sorocabano Evandro Aranha.

 

Livro & Café: Nos fale um pouco sobre você, suas influências artísticas etc.
Evandro Aranha: Bom, eu sou Evandro Aranha, tenho 29 anos, pai do Théo, de dois gatos e dois cachorros, casado com a Quelita e professor de Administração. Comecei a escrever por volta dos 10 anos por influência da minha mãe e não parei mais. Gosto muito de poetas da Geração Beat, como Allen Ginsberg e, também, da Geração Mimeógrafo ou Marginal, como Chacal, Torquato Neto, Ana Cristina César, Paulo Leminski, Sérgio Vaz entre outros. Também aprecio poetas que vivem perto de mim, como Poeta em Queda, Córdoba Jr., Márcio Dabliume, Dayan Marchini, Mariana Hannickel, Sabrina Hoier, e artistas como Júlia Leonel, Dah Fiore etc.

 

Livro e Café: Fazer poesia, por si só, já é um ato revolucionário, mas sempre existem discussões sobre a necessidade ou não de um(a) artista se posicionar a respeito de diversos acontecimentos, especialmente, na esfera política. Como você entende o papel social e político do(a) artista em nossa sociedade?
Evandro Aranha: Eu acredito que a expressão artística por si só é um ato político, pois é uma forma de exteriorizar algo muito íntimo e compartilhá-lo com o mundo, se sujeitando a criticas, desdém e todo tipo de fala negativa, por isso a arte por si só é revolucionária. Além disso, é importante que o artista, ao meu ver, seja um agente de conscientização cultural, para levantar questões como importância da arte na sociedade, visto que temos visto uma demonização de artistas, como informações falsas e deturpadas sobre Lei Rouanet e leis de incentivo em geral, bem como a velha máxima de que “artista não é profissão”, em um movimento de diminuir nossa importância na sociedade. Sobre apoios e rejeições mais enfáticos a partidos e políticos, acredito que a liberdade é importante, porém, é necessário ver se o projeto político valoriza e apoia a promoção da arte, sob pena do artista legitimar ações de seus possíveis algozes, como temos visto no governo Bolsonaro.

 

Livro & Café: É inegável que o governo eleito veio para perseguir minorias e a liberdade de oposição. E seus seguidores não hesitaram nem hesitarão em perseguir as manifestações artísticas contrárias ao governo. Quais seriam, na sua opinião, os meios de resistência diante desse cenário?
Evandro Aranha: Talvez sair um pouco desse movimento de falar somente “pra gente mesmo” e procurar dialogar com a sociedade em geral, sobretudo periferia e bairros mais pobres que possuem poucas opções de cultura e lazer e que, normalmente, são demonizadas pelo Poder Público e pela sociedade. Também procurar dialogar com as pessoas que não acham cultura importante e mostrar a importância da arte para o bem comum, através de eventos, oficinas e toda forma que possa ser relevante de convencimento quanto ao papel da cultura.

 

Evandro Aranha durante sua apresentação “A poesia morreu”, em 2017. Foto: Ariane Aranha.

 

Livro & Café: Como é fazer poesia em Sorocaba?
Evandro Aranha:  Muito difícil, pois a poesia e a literatura em geral são vistas por muita gente como uma “arte menor” e escanteadas em eventos culturais e investimentos do Poder Público. Amigos e artistas também costumam, em sua grande maioria, dar pouco apoio a poetas, tanto em redes sociais quanto em eventos literários e na aquisição de obras. Não muito raro ouvir de colegas pedidos para livros de graça ou para escrevermos poemas para namoradas ou esposas, como se fossemos uma linha de produção (e, pasmem, não querem pagar por esses poemas!).

 

Livro & Café: Você enxerga uma hierarquização das artes nos eventos promovidos ou nos meios de divulgação?
Evandro Aranha: Muito! E por ficar falando nisso nos locais onde vou ou nas entrevistas que dou, muitas portas se fecharam pra mim na cidade, mas existem princípios que não posso abdicar. Eventos e produtores tidos como “descolados” colocam literatura/poesia às vezes (quando colocam) apenas para agregar valor à pecha de inclusivos ou abrangentes, mas, quando colocamos uma lupa, vemos que os poetas têm pouco espaço, estrutura e nenhum cachê quando comparados a músicos, por exemplo. Sei que o público não sai de casa para ver poetas, mas se a intenção é ser fomentador de artes, é justo tratar todos com isonomia, divulgando e dando espaço igual para que todos mostrem suas artes. Não querendo parecer arrogante, hoje em dia eu sou convidado para eventos bacanas, que me dão boa divulgação, cachê e espaço para minha poesia, mas conheço gente muito boa que não tem oportunidade por essa visão. Logo, gosto de lutar por essa bandeira para que ninguém passe o que passei quando sugeriram a mim declamar minhas poesias no intervalo das músicas, quando as pessoas se dispersavam para comprar cerveja ou conversar enquanto esperavam a próxima música, desconsiderando que eu possuía um setlist preparado e azeitado em um conceito ( será que eles pediriam pra algum músico tocar uma música no intervalo dos poetas?).

 

Livro & Café: Qual filosofia pessoal você carrega ao fazer arte?
Evandro Aranha: Eu gosto de falar de amor, seja os que dão certo ou os que não dão certo, com um verniz contemporâneo, sem utilizar o conceito de conto de fadas ou palavras muito complexas; gosto de aproximar minha poesia do cotidiano das pessoas. Também adoro falar da relação das pessoas com a cidade e de preconceitos e política em geral, inclusive falar desse últimos assuntos me renderam vários “dislikes” e vaias em eventos, mas, como já disse, certos princípios são inegociáveis.

 

Livro & Café: Qual obra artística, de sua autoria ou não, impactou a sua vida e por quê?
Evandro Aranha: Gostaria de citar um poema que amo muito chamado Uivo, do Allen Ginsberg que me abriu a mente para a linguagem corrida e sem rimas, como se fosse uma história contada em versos. Todos os meus conceitos foram abalados e, depois do contato com as obras da Geração Beat e de poetas marginais, toda a minha obra se ressignificou.

 

Livro e Café: Nos fale sobre seus planos artísticos para 2019.
Evandro Aranha: Tenho alguns planos poéticos pra este ano (espero que ano que vem, quando aparecer essa lembrança, eu tenha cumprido, haha). Pretendo lançar o que estou chamando de ” A Poesia Morreu em Três Atos” que consiste em:

  • Álbum Poético-Musical (sucessor de “Todo Dia É Quarta-Feira de Cinzas” que lancei em 2017″. Também penso em gravar algum clipe para divulgar o álbum);
  • Livro Três (reunindo poemas escritos nos anos de 2016, 2017 e 2018);
  • Apresentação de Declamação (apresentação reformulada com participações especiais, trilha sonora, poemas inéditos etc.).

Todos receberão o título de “A Poesia Morreu” pois contarão, em três linguagens diferentes, a mesma história: a do poeta que, engajado no amor, na política e na sua arte, entra em decadência até decretar a morte da Poesia dentro de si, por isso, vou lançá-los em épocas diferentes e unir esses três atos em uma conexão artística.

 

Livro & Café: Quais dicas você daria para quem quer consumir mais arte ou para quem quer impulsionar seu trabalho criativo? 
Evandro Aranha: Talvez pela minha formação em Administração, gosto muito de disciplina e planejamento e que funciona muito bem pra mim. Aconselho que faça arte constantemente, se obrigue a criar nem que seja uma linha, um acorde, um traço novo todo dia, não se deixe levar pelo fantasma da inspiração, ou seja, só crio quando a inspiração baixa. Também conheça outros artistas, troque experiências, vá a eventos, compre livros, escute músicas, veja desenhos, se alimente de arte e refresque a mente, absorvendo novas fontes de inspiração. E, por último, quando estiver preparado, divulgue, compartilhe, jogue sua arte no mundo, pois a experiência é única e você colhe muitos ensinamentos, críticas, elogios e opiniões valiosíssimas.

 

Para conhecer mais o trabalho do Evandro Aranha, acesse Fragmentos de Um Córtex Perturbado. Também confira o artigo que ele fez para a Revista Livro & Café, intitulado O peso da poesia no solo tupiniquim.

Imagem da capa: Cris Almeida

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Bruna Bengozi

Bruna é mestra em História pela USP, redescobriu (e redescobre) o amor pelos livros, pela música e pela vida. Aguarda ansiosamente a queda do capitalismo e do patriarcado. Sofre de "síndrome do impostor".

2 Comentários
  1. Gostaria de agradecer ao Livro e Café, nas pessoas da Bruna e da Francine pela entrevista e pelo apoio a arte sorocabana e saúdo e celebro a nova fase do site <3

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