5 motivos para ler Svetlana Aleksiévitch

Inicio esta lista dizendo o quanto foi difícil escolher um(a) artista favorita(a) e elencar cinco motivos para conhecê-lo(a). Tenho grande admiração por diversas pessoas do campo da música, da pintura, do cinema, da literatura, mas quem sabe eu fale mais sobre elas em outro momento.

Hoje, eu escolhi uma escritora que conheci em 2017 graças ao Leia Mulheres Sorocaba e que se tornou uma das minhas autoras favoritas para a vida. Estes são os cinco motivos para conhecer e ler Svetlana Aleksiévitch:

Porque é uma mulher que conquistou reconhecimento

Svetlana Aleksiévitch nasceu em 31 de maio de 1948, na Ucrânia, mas cresceu na Bielorrússia. Jornalista e escritora, refinou ao longo de sua obra uma escrita única, desenvolvida a partir de observação da realidade e da escuta de grupos diversos. Sabemos o quanto as mulheres ainda lutam por lugar e respeito no mercado editorial, no jornalismo (poderia continuar a lista por horas…), então sinto orgulho e inspiração ao vê-la conquistando diversos prêmios, como o Nobel de Literatura em 2015, já que eles também permitem maior visibilidade para as suas obras em outros países. No Brasil, por exemplo, seus livros foram traduzidos e publicados pela Companhia das Letras apenas a partir de 2016 (veja lista abaixo).

 

Porque ela deu voz a pessoas negligenciadas pela “história oficial”

Como historiadora, sempre me incomodou o modo como os eventos históricos eram vistos e interpretados: majoritariamente acontecimentos sobre homens ricos e brancos sendo escritos por homens ricos e brancos. Pouco espaço ainda é dado, por exemplo, para o protagonismo feminino na história e o mesmo se repete quando pensamos na atuação das mulheres na escrita desses relatos. Por isso, a produção da Svetlana Aleksiévitch é de extrema importância por trazer à tona as vozes de personagens que sempre foram marginalizados pela chamada “história oficial”. Merece destaque o livro “A guerra não tem rosto de mulher”, que traz depoimentos de soldadas soviéticas que sobreviveram à Segunda Guerra Mundial. Mesmo após estudar intensamente esse conflito, pela primeira vez eu li algo tão profundo sobre os dramas de uma guerra, sobre o cheiro, sobre todas as formas de vida perdidas nas batalhas, muito além das cifras de mortos… E tudo isso só foi possível porque a jornalista teve a sensibilidade de dar vez e voz para essas mulheres sobreviventes.

 

Porque ela merece ser lida por toda pessoa que quer conhecer mais sobre a antiga URSS

Mas não espere elogios à ex-União Soviética. Pelo contrário, em todos os seus livros, Svetlana apresenta críticas contundentes ao regime socialista e ao fim do sonho soviético. Por meio de suas obras, é possível conhecer as visões de mulheres que sobreviveram à Segunda Guerra Mundial, a catástrofe nuclear de Tchernóbil, em 1986, o colapso da antiga URSS e a ferida moral dessa sociedade através de diferentes fatos históricos, vistos pelas pessoas que vivenciaram esses acontecimentos.

“Se você olhar em toda a nossa história, tanto soviética quanto pós-soviética, ela é uma enorme vala comum e um banho de sangue. Um eterno diálogo entre executores e vítimas. As malditas perguntas russas: o que deve ser feito e quem é o culpado. A revolução, os gulags, a Segunda Guerra Mundial, a Guerra do Afeganistão escondida do povo, a queda do grande império, a queda da terra socialista gigante, a utopia terrestre e agora um desafio de dimensões cósmicas – Chernobyl. Este é um desafio para todas as coisas vivas na terra. Essa é a nossa história. E este é o tema de meus livros, este é o meu caminho, meus círculos do inferno, de homem para homem.” (Svetlana Aleksiévitch sobre a sua produção)

 

Porque ela é a mulher-ouvido

É muito difícil categorizar a obra da Svetlana Aleksiévitch. É jornalismo? É literatura? É uma “novela coletiva”? De fato, os seus textos se movimentam entre a literatura e o jornalismo de uma forma surpreendente e bela. Para isso, ela se utiliza da técnica de collage, justapondo testemunhos individuais, com a qual consegue se aproximar mais à substância humana dos acontecimentos. Não é à toa que o mediador do painel da FLIP 2016 que recebeu a escritora, Paulo Roberto Pires, disse que ela era uma “mulher-ouvido”.

 

Porque ela não é sensacionalista                      

Nos últimos tempos, em especial com a ascensão da TV e das redes sociais, o jornalismo acabou sendo marcado pelo sensacionalismo (alô, Datena!). Nesse sentido, vale a leitura das obras da Svetlana Aleksiévitch, pois, apesar da dor dos relatos, fica evidente a capacidade singular da autora para lidar com temas tão duros, como mortes, guerras, acidentes, catástrofes etc., com profissionalismo, sensibilidade e respeito.

 

Foto: Bruna Bengozi

 

Obras publicadas no Brasil:

Vozes de Tchernóbil + Compre na Amazon

A guerra não tem rosto de mulher + Compre na Amazon

O fim do homem soviético + Compre na Amazon

As últimas testemunhas + Compre na Amazon

 

Obra ainda sem publicação no Brasil:

Garotos de Zinco (Цинковые мальчики, Tsinkovye malchiki, Boys in Zinc), lançado em 1991.

 

Foto de capa: Margarita Kabakova

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Bruna Bengozi

Bruna é mestra em História pela USP, redescobriu (e redescobre) o amor pelos livros, pela música e pela vida. Aguarda ansiosamente a queda do capitalismo e do patriarcado. Sofre de "síndrome do impostor".

5 Comentários
    1. Olá, Samantha! Ela é incrível, não é mesmo? E depois que começamos a ler, queremos devorar todos os demais livros.
      Conta para nós o que achou dos outros títulos.
      Um beijo e ótima semana!
      Bruna

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