“The Rise and Fall of Ziggy Stardust…”: David Bowie em sua pele mutável

Conforme o ditado há muito difundido na cultura popular, “de gênio e de louco, todo mundo tem um pouco”. Mas David Bowie que, no último dia 8 de janeiro, teria completado 72 anos de idade, não era todo mundo. Logo após a virada para a década de 1970, Bowie, que já vinha construindo admirável início de carreira com quatro discos de estúdio (a saber: “David Bowie”, de 1967; “Space Oddity”, de 1969; “The Man Who Sold the World”, de 1970; e “Hunky Dory”, de 1971), mesmo já explorando temas que iam do frenesi da cultura Pop da época à polêmica (muito por conta da imagem andrógina explorada principalmente na era “Hunky Dory” em tempos ainda demasiado conservadores), mostrou ao mundo que ninguém estava preparado para o que viria a seguir – nem mesmo ele.

Gravado no Trident Studios, em Londres, entre 9 de setembro de 1971 e 18 de janeiro de 1972, “The Rise and Fall of Ziggy Stardust and The Spiders from Mars” chegou às lojas em 6 de junho de 1972 e contou com Mick Woodmansey na bateria, Trevor Bolder no baixo e Mick Ronson na guitarra – este último foi uma das mais acertadas decisões para este disco e para a carreira de Bowie, pois os dois formaram uma parceria de sucesso, hoje comparada por diversos críticos especializados a Mick Jagger e Keith Richards ou Axl Rose e Slash, tamanha a perfeição da obra que criaram juntos para o disco. Este, por sua vez, conta a história de Ziggy Stardust, a manifestação humana de uma inteligência alienígena que assume a missão de transmitir à Terra uma mensagem de paz e amor. Porém, torna-se um roqueiro e se perde em meio ao consumo de drogas e álcool, além de uma vida desregrada em todos os sentidos e especialmente promíscua.


O bolachão abre com “Five Years”, na qual Ziggy anuncia que a Terra está condenada à destruição em cinco anos por conta do esgotamento de recursos naturais e destruição do meio ambiente. Em “Soul Love”, toda forma de amor se mostra aceitável. A dobradinha de dois dos três grandes clássicos do disco vem com tudo, a começar por “Moonage Daydream”, que conta a parte da história em que Ziggy se apresenta ao mundo como o invasor espacial que deseja salvar o planeta (controversamente como uma “Rock and Roll bitch”), e seguindo com “Starman”, onde Ziggy, notando que o mundo não está preparado para receber sua mensagem, começa a contar várias mentiras apenas para angariar mais e mais seguidores – vale citar que a banda brasileira Nenhum de Nós regravou esta canção em 1989, com letra em português, sob o título de “O Astronauta de Mármore”, no disco “Cardume”. O lado A do bolachão termina com “It Ain’t Easy”, que conta as dificuldades até alcançar a fama.

O lado B abre com “Lady Stardust”, uma canção claramente autorreferente, na qual Ziggy começa a se travestir, causando grande comoção no público. Em “Star”, Ziggy coloca pra fora seu anseio pela fama e, em “Hang on to Yourself”, esse desejo parece ter se realizado e já ter saído de controle, pois muitas pessoas querem ter relações com Ziggy e os outros membros da banda. Chegamos, então, ao ápice do disco, a canção que leva o nome do personagem, “Ziggy Stardust”, que primeiramente resume a história até aqui e culmina na decadência do alienígena e em sua decisão de encerrar as atividades da banda – há uma clara referência a Jimi Hendrix na característica de Ziggy ser um habilidoso guitarrista canhoto. Essa canção merece um comentário à parte: o riff principal é simples, mas belo e todo o instrumental, aliado à interpretação magistral de David (que, na época, incorporou o personagem de tal forma que passou por extensos momentos de dissociação, no qual não sabia se era David ou Ziggy) – não obstante, tornou-se um dos maiores clássicos da carreira de Bowie e da história do Rock and Roll. Fechando o LP, a dobradinha com “Suffragette City”, que conta como Ziggy vai de estrela do Rock a um decadente viciado em sexo e drogas, e “Rock and Roll Suicide”, título autoexplicativo que põe fim à história megalomaníaca de um alienígena convertido em super humano, astro do Rock, travestido, drogado, sexualmente ativo e promíscuo, e suicida, numa mistura que somente David Bowie poderia ter criado.

Não é preciso dizer que “The Rise and Fall of Ziggy Stardust and The Spiders from Mars” alcançou facilmente o panteão dos maiores discos da história do Rock, já tendo sido chamado por resenhistas de “o maior disco dos anos 1970” (conceito amplamente combatido, dada a frutífera produção de grandes artistas e discos na época), e considerado o 35º maior disco de todos os tempos pela revista Rolling Stone. Para além dos números, David Bowie consolidou-se aqui como o camaleão do Rock, capaz de sacrificar até mesmo a própria identidade em nome de sua arte. São tantas analogias possíveis com os dias atuais e as letras deste disco, e tantos outros personagens ganharam vida em sua pele mutável… “De gênio e de louco, todo mundo tem um pouco”. Não David Bowie. Ele era muito mais que isso. Ele era um verdadeiro “starman”.





Saraiva

Hugo Alves

Professor de Línguas Portuguesa e Inglesa (e Literaturas relacionadas), cantor, guitarrista, roqueiro, centroesquerdista, progressista, cristão, meditante, aloprado, cara de monstro com coração de ursinho carinhoso e viciado em café - tudo misturado, cada um em seu quadrado. Entendeu? Nem eu.

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