10 clipes musicais com referências da História da Arte (parte I)

Acho muito bonito que não existem fronteiras quando pensamos em arte. Uma pintura pode ser feita sob influência de um poema; uma música pode trazer traços de um livro (como podemos perceber nessa playlist que a Rossana fez sobre músicas, livros e cafés) e assim por diante.

 

Como eu sou apaixonada por essas intersecções, amo música e amo os clipes musicais – que podem ser verdadeiras aulas de História da Arte -, fiz uma primeira seleção de vídeos de vários estilos que trazem referências artísticas, seja no figurino, no estilo, em elementos que surgem na história contada. E, calma, logo vem parte II, parte III…


 

APES**T, The Carters (Beyoncé e Jay-Z)

Vamos começar com o belíssimo clipe dirigido por Ricky Saiz e que traz esse casal poderosíssimo dentro do Museu do Louvre, em Paris, diante de pinturas icônicas, como a Monalisa (1503), de Leonardo da Vinci. Nem é preciso falar muito sobre a grande representatividade desse clipe, já que os museus sempre foram espaços de valorização de artistas brancos, com muitas obras retratando um ideal de beleza igualmente branco (aos negros – em especial às mulheres negras, sempre restou o retrato da escravidão e da subjugação de alguma forma). É uma inversão poderosa da História!

 

Applause, Lady Gaga

Essa lista tem que ter Lady Gaga! Em Applause, dirigido pelos fotógrafos Inez e Vinoodh, Gaga faz um passeio por diversos gêneros da História da Arte, como o cinema expressionista alemão da década de 1920, as cores fortes do cubismo, o Renascimento, o teatro popular italiano… Uma aula de arte com muito pop!

 

Bedtime Story, Madonna

Já que estamos falando de pop, vamos incluir a mãe do gênero: Madonna! É indiscutível que a artista sempre trouxe elementos da arte para os seus clipes. Em Bedtime Story, música escrita em parceria com a Björk, Madonna apresenta referências de pinturas surrealistas femininas, como as obras de Remedios Varo e Leonor Fini, e traz diversas simbologias religiosas, especialmente cristãs e islâmicas. O vídeo, dirigido por Mark Romanek, foi e ainda é constantemente exibido em galerias e museus de arte, incluindo o Museu de Arte Moderna de Nova York, o famoso MoMa. Rainha que fala, né amores?

 

Otherside, Red Hot Chilli Peppers

Jamais que iria fazer uma lista de clipes sem RHCP! O vídeo de Otherside foi dirigido por Jonathan Dayton e Valerie Faris em preto e branco/monocromia, semelhante ao estilo gótico de O gabinete do doutor Caligari, de Robert Wiene, todo influenciado pelo expressionismo alemão. Elementos do cubismo e do trabalho do artista gráfico M.C. Escher também são vistos no clipe. Eis uma das minhas músicas favoritas!

 

Do The Evolution, Pearl Jam

Minha banda do coração! Quem conhece a trajetória da banda sabe o quanto ela é engajada em causas sociais e, em Do The Evolution, a música ganha mais impacto com um vídeo violento e que mostra as mazelas da sociedade. A animação foi produzida por Kevin Altieri, responsável pelo desenho do Batman dos anos 90, e por Todd McFarlane, criador do personagem de revistas em quadrinhos e cinema Spawn. O vídeo, de quatro minutos, levou quatro meses para ser finalizado e contou com uma equipe de mais de cem artistas. Já a letra foi inspirada em um livro de 1992, chamado Ishmael, escrito por Daniel Quinn, e que foi lançado no Brasil como Ismael – Um romance da condição humana. Esse, sem dúvida, é um dos clipes musicais mais importantes da História!

 

Radio Ga Ga, Queen

Parece contraditório colocar um clipe que faz uma singela crítica à influência do vídeo sobre o rádio na divulgação das músicas. Mas eu amo Queen e amo essa música, cujo clipe foi dirigido por David Mallet e tem, como pano de fundo, as imagens do clássico  Metropolis, um marco do cinema alemão sobre ficção científica e feito pelo expressionista Fritz Lang em 1927. O filme, por outro lado, foi inspirado no romance escrito por Thea Von Harbou, esposa de Lang.

 

Burn The Witch, Radiohead

Dirigido por Chris Hopewell, o stop-motion de Virpi Kettu apresenta uma crítica à islamofobia e à crise dos refugiados na Europa (segundo a artista). Ela também afirma que o vídeo foi influenciado pelo filme de terror The Wicker Man (1973), de Robin Hardy, e pelas séries infantis britânicas Trumptonshire Trilogy.

 

Viva La Vida, Coldplay

Este vídeo da banda britânica foi dirigido por Hype Williams e mostra a banda tocando e atuando sob um filtro que lembra uma pintura em tela antiga. A fotografia artística tem relação com a pintura A Liberdade Guiando o Povo, de Eugène Delacroix. Esta obra, que também estampa a capa do álbum, trata da Revolução de Julho de 1830.

 

Bang, Anitta

Anitta é aquela artista que uns amam, outros odeiam. Deixando os gostos de lado, vamos falar sobre esse clipe, que bebe fortemente nas influências da pop art, movimento que ganhou difusão em Nova York na década de 1980 e fazia uma espécie de culto às imagens televisivas, às fotografias, às histórias em quadrinhos, às cenas impressas nas telas dos cinemas, à produção publicitária e aos produtos massificados. O vídeo foi dirigido por Bruno Ilogti, com direção de arte de Giovanni Bianco, que já assinou vários trabalhos de Madonna, entre eles a capa do seu último CD, Rebel Heart.

 

Rude Boy, Rihanna

O vídeo de Rude Boy, dirigido por Melina Matsoukas, tem fortes referências de famosos artistas, como Andy Warhol (a grande figura da pop art), Keith Haring (famoso pelo uso de grafites), Salt-n-Pepa, M.I.A e Jean-Michel Basquiat, em uma explosão de cores e estilos.

Gostou? Logo eu publico a parte 2 com mais músicas e vídeos!





Saraiva

Bruna Bengozi

Bruna é mestra em História pela USP, redescobriu (e redescobre) o amor pelos livros, pela música e pela vida. Aguarda ansiosamente a queda do capitalismo e do patriarcado. Sofre de "síndrome do impostor".

2 Comments
  1. Eu amo Bedtime Story, amo. Um conceito que poucos curtiram, o que é uma pena. Não sei se será incluído numa outra postagem, mas Erotica, também da Madonna, foi visto só como um clip pornográfico, mas artisticamente o clip e o álbum é uma obra-prima.

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