Amiga Genial (Elena Ferrante) e o encontro com a nossa humanidade

Já escrevi a respeito da misteriosa escritora italiana Elena Ferrante para a revista quando resenhei o seu livro infanto-juvenil Uma noite na praia e posso soar um pouco repetitiva, mas as sensações ao terminar Amiga Genial foram praticamente as mesmas: angústia, desespero, um sentimento triste de identificação e assim por diante. Isso tudo é ruim? Não, pelo contrário!

Primeiro livro da Série Napolitana, Amiga Genial foi publicado em 2011 e lançou Ferrante ao estrelato. Já no Brasil, saiu pela Biblioteca Azul, selo da Editora Globo, em 2015, com tradução de Maurício Santa Dias. No final do ano passado, a história chegou às telas da TV por meio do seriado homônimo lançado pela HBO. A obra apresenta a infância e adolescência de duas amigas, Elena Greco (Lenu) e Raffaella Cerullo (Lila), que crescem ao lado de outros personagens em um bairro pobre de Nápoles, no período pós-Segunda Guerra Mundial, um microcosmos marcado pelas ruínas do passado e novidades do futuro.

As atrizes Elisa Del Genio (Lenu) e Ludovica Nasti (Lila), na foto divulgada pela HBO. Fonte: Divulgação.

A autora já começa o livro com suas marcas características: a ausência e o abandono. A partir de então, nos leva por um passeio desagradável pelo crescimento, descobertas, segredos, partilhas, separações, medos. E tudo isso em meio à violência. Sim, Amiga Genial (assim como o restante da série, acredito) é carregado de eventos violentos, de agressões físicas e verbais – dentro e fora de casa -, de brutalidade diante da vida. Em várias páginas, me senti sem fôlego diante daquelas situações; também senti revolta e, depois, compaixão. Quem já leu Ferrante sabe do que estou falando: é impossível ficar indiferente à história narrada.

Também foi impossível não me identificar, em mais momentos do que gostaria, com a narradora Lenu. Ela é uma criança e adolescente que sempre se vê como inferior dentro de casa, na escola, no grupo de amigos e, principalmente, diante de Lila. Ao crescer, se enxerga gorda, cheia de acne e precisa usar óculos, o que a faz se sentir feia ao se comparar com a beleza estonteante de sua melhor amiga, que arrebata os olhares e amores dos meninos do bairro. Para compensar, Lenu se destaca nos estudos, mas sempre como uma resposta à Lila, cuja família não a incentivou a ir para a escola, algo que não a impediu de saber e conquistar tudo.

“Senti com irritação que meu sucesso nos estudos não os consolava nem um pouco, ao contrário, sentiam – especialmente minha mãe – que se tratava de uma inútil perda de tempo. Quando Lila, esplêndida no nimbo de candura ofuscante de seu vestido e do véu vaporoso, avançou pela igreja do Sagrado Coração […], minha mãe, embora seu olho bailarino parecesse perdido noutra parte, me olhou para que eu sentisse o peso de estar ali, de óculos, distante do centro, enquanto minha amiga malvada conquistara um marido de posses, uma atividade econômica para a família, uma casa toda sua, da qual era nada menos que a proprietária, com uma banheira, geladeira, televisão e telefone.”

São dramas muito comuns na adolescência, fase em que estamos nos descobrindo – o corpo passa por mudanças, os hormônios estão a mil, precisamos definir nossas identidades, nossos espaços. Relembrei, nas palavras de Lenu, as angústias que vivenciei nessa fase da vida. A falta de orientação para enfrentar tantas questões, como as transformações corporais, a necessidade de se ver adulta antes da hora, a insistência para se encaixar em grupos e nunca se sentir confortável, as rivalidades, as rejeições…

“Foi durante aquele percurso rumo à rua Orazio que comecei a me sentir claramente uma estranha, infeliz por meu próprio estranhamento. Eu tinha crescido com aqueles rapazes, considerava seu comportamento normal, a língua violenta deles era a minha. Mas seguia cotidianamente, já há seis anos, um percurso que eles ignoravam por completo, e que eu, ao contrário, trilhava de modo tão brilhante que chegava a ser a melhor. Com eles eu não podia usar nada daquilo que aprendia diariamente, tinha que me conter, de alguma maneira me autodegradar. O que eu era na escola, ali era obrigada a colocá-lo entre parêntesis ou a usá-lo à traição, para intimidá-los. Me perguntei o que estava fazendo naquele carro. Ali estavam meus amigos, certo, ali estava meu namorado, estávamos indo à festa de casamento de Lila. Mas justamente aquela festa ratificava que Lila, a única pessoa que eu sentia ainda necessária malgrado nossas vidas divergentes, não nos pertencia mais, e, com sua retirada, toda mediação entre mim e aqueles jovens, aquele carro correndo por aquelas ruas, se exaurira.”

Também vale ressaltar que este é um livro que foca, principalmente, a relação entre duas mulheres. Em uma época em que falamos (e precisamos falar) tanto sobre feminismo, sororidade etc., pode soar um pouco incômodo ler alguns trechos de Amiga Genial, em que ficam evidentes as rivalidades entre as moradoras do bairro, a busca pela casamento como meio de ascensão social e até de sobrevivência, a valorização excessiva dos aspectos físicos, além da frequente violência doméstica. São marcas da época em que a história se passa – entre o final dos anos 40 e início dos anos 60 -, mas podemos refletir sobre o quanto algumas dessas características ainda estão em nosso meio, em pleno século XXI.

Já o título “Amiga Genial” merece atenção. Ao longo de toda a história, a sensação é de que Lila é a representação da genialidade em tudo que faz e em tudo que é. Porém, em determinado momento, é a própria que chama Lenu de “amiga genial”, demonstrando grande admiração pela menina que sempre se colocava à sua sombra.

E aqui mora um dos aspectos mais bonitos do livro. Quantas vezes, em nossas histórias pessoais, nos colocamos à sombra de alguém, não nos sentimos dignxs de admiração própria, nos sentimos dependentes de outra pessoa? Lila, ao definir Lenu como sua amiga genial, mostra à amiga o valor desta, um valor que Lenu não enxerga em si, mas está lá.

Por isso é um livro que marca tanto: ele toca em assuntos que, na maioria das vezes, não digerimos no passado; traz à tona feridas que até esquecemos que existem – mas que também estão lá. Eu sou fã declarada da Ferrante, talvez pela minha tendência masoquista. Porém, sem exageros, acredito que todas as pessoas deveriam ler algo escrito por ela. Sua narrativa bruta e honesta cria um espelho no qual podemos nos enxergar em nossa humanidade completa, repleta de maldade, de beleza, de contradições enfim.

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Bruna Bengozi

Bruna é mestra em História pela USP, redescobriu (e redescobre) o amor pelos livros, pela música e pela vida. Aguarda ansiosamente a queda do capitalismo e do patriarcado. Sofre de "síndrome do impostor".

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