Quando os monstros contemporâneos são invocados (ou: não é fácil não soltar a mão de ninguém)

Há quatro anos faço Clubes de Leitura. É um prazer imenso, mas também uma responsabilidade em conduzir uma conversa sobre livros sem cair nas armadilhas da linguagem. Digo isso porque os clubes possuem um caráter democrático, em que todos possuem o direito da fala. Porém, em vários momentos, percebo que o clube pode funcionar como um espaço para colocar os próprios monstros para fora, ou invocá-los. E foi isso que aconteceu no último Clube de Leitura do SESC, quando conversamos sobre Monstros mitológicos na literatura.

A conversa teve como base o livro “Monstros e monstruosidade na literatura” (Julio Jeha e outros), “Frankenstein” (Mary Shelley) e “Mitologia Nórdica” (Neil Gaiman) e, a partir de uma breve introdução sobre o tema, os participantes contribuíram com argumentos, ideias e principalmente, aquele olhar curiosos e ao mesmo tempo misterioso de quem não quer falar abertamente dos próprios medos.

Naturalmente, a conversa caminhou para as questões contemporâneas. Sobre os reais monstros que lidamos diariamente, seja em nossas casas ou na vida lá fora.

Concordamos, durante a deliciosa conversa, que os monstros sempre surgem em momentos em que ele não é esperado, ou que ele vem como um presságio e até mesmo uma resposta violenta contra algo que não se entende ou não se vê.

De repente, como nas histórias mitológicas, nos filmes clássicos e até mesmo naqueles pastelões americanos (pois a princípio nossa cara foi de bolacha), tivemos que ouvir de um senhor de cabelo branco afirmando com toda certeza que no Brasil não teve Ditadura, que em 1964 aconteceu uma Revolução e que, nós – os jovens, não sabíamos sobre a Ditadura porque não vivemos no período.

Obra: “O sonho da razão produz monstros”. Goya (1746 – 1828)

Depois de sua longa fala (e eu preocupada em como conseguiria dar andamento ao Clube uma vez que ele jogou na roda tantos absurdos), um outro participante, professor de História, tentou explicar sobre as torturas (que o homem dos cabelos brancos disse que foram poucas se comparados a outros países, como se isso amenizasse o fato de que tivemos uma Ditadura sim), porém, aconteceu de outros monstros surgirem.

Todos falando ao mesmo tempo, todos querendo se expressar de alguma forma. Em determinado momento, um outro participante – homem e mais jovem levanta e diz: “mas o PT afundou o Brasil!”. Novamente a confusão, pessoas falando, tentando ouvir e acalmar os ânimos.

Eu, olhando tudo aquilo, vi, de fato, os monstros contemporâneos surgirem. Eles estavam todos ali, invocados por frases de efeito sem fundamento. A linguagem, desta vez, pareceu perder sua potencial capacidade de somar e clarear na escuridão.

Mas temos mais um “de repente” nesta história, pois uma senhora de cabelo rosa, que estavam olhando as prateleiras de livros próximas à nossa roda de conversa começou a falar. O seu relato colocou todos em silêncio. Ela nos contou que vivenciou a Ditadura no Brasil. Que, aos 17 anos, teve dois amigos torturados. Um retornou, o outro nunca mais foi visto. Que o Brasil que temos hoje é perigoso para quem acredita na Democracia, pois todos os dias temos notícias bizarras e preocupantes que nos tiram direitos e segurança. Ao final, ela me disse o seu nome e foi embora.

Em um saudável Clube de Leitura, durante uma tarde de sábado, os monstros contemporâneos apareceram, como já estão aparecendo há alguns anos. Esse monstro com tentáculos de ignorância, desconhecimento, delírio e fascismo.

Ninguém solta a mão de ninguém, mas durante o Clube, em diversos momentos, o atordoamento foi tão intenso, que não segurei na mão de ninguém e também não tive a minha mão segurada. Mas seguimos. Não vamos parar.

Francine Ramos

Faz da Livro&Café parte essencial de sua vida desde 2011. É professora de Língua Portuguesa, adora ler, escrever (um dia vai publicar um livro) e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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