Filmes sobre artistas: Van Gogh

Posso dizer que Vincent Van Gogh (1853-1890) é meu pintor favorito. Tive a chance de ver algumas de suas obras na National Gallery, em Londres, e é difícil explicar a emoção daquele momento; as lágrimas falaram por si.

Girassóis (1888), na National Gallery, em Londres.

Mas é mais fácil explicar a minha admiração, que começou quando conheci mais a sua trajetória como artista pós-impressionista e ser ser-humano. Nesse sentido, o livro Cartas a Theo, que traz a correspondência trocada entre Vincent e seu irmão, apresentou a personalidade forte e a genialidade do artista, que se debatia com a sua doença e com a falta de reconhecimento e de dinheiro.

Acompanhar o seu processo criativo em meio às crises e também desmistificar a imagem de “artista maluco” ou de “gênio incompreendido” foram essenciais para eu pensar sobre as minhas doenças, meus trabalhos, minhas relações, minha vida.

Além da leitura das cartas e de biografias, como a excelente Van Gogh: a vida, fruto de dez anos de pesquisas de Gregory White Smith e Steven Naifeh, o cinema teve um papel essencial na abordagem e divulgação da vida e obra do holandês. Por isso, destaco duas produções que me tocaram muito e só aumentaram a minha admiração por ele:

 

Van GoghCom amor, Van Gogh

Título original: Loving Vincent

Direção: Dorota Kobiela, Hugh Welchman

Lançamento: 30 de novembro de 2017

Sinopse: “1891. Um ano após o suicídio de Vincent Van Gogh, Armand Roulin (Douglas Booth) encontra uma carta por ele enviada ao irmão Theo, que jamais chegou ao seu destino. Após conversar com o pai, carteiro que era amigo pessoal de Van Gogh, Armand é incentivado a entregar ele mesmo a correspondência. Desta forma, ele parte para a cidade francesa de Arles na esperança de encontrar algum contato com a família do pintor falecido. Lá, inicia uma investigação junto às pessoas que conheceram Van Gogh, no intuito de decifrar se ele realmente se matou.”

Esperei ansiosamente por Com amor, Van Gogh e não me decepcionei. Usando a técnica de animação a partir de pinturas a óleo, técnica usada por Vincent, o filme é inspirado em mais de 400 pinturas do artista e traz paisagens e cenários com as cores típicas e vivas. Ao todo, 125 pintores trabalharam em cerca de 65 mil frames, sendo que os atores que dão voz aos personagens também precisaram servir de modelo para os mesmos. Além do trabalho artístico deslumbrante, a história também prende a atenção por seus toques de suspense, pois a pergunta que embala a narrativa é: como Van Gogh morreu? Foi suicídio ou assassinato? Assim, além de apresentar a vida e as obras, vemos essa “investigação” feita pelo personagem Armand Roulin. Ressalto também a linda versão da música “Starry Starry Night”, cantada pela maravilhosa Lianne La Havas (sério, conheçam esta mulher!) e que é tocada nos créditos. Chorei litros.

 

Van GoghVincent Van Gogh: Pintando com as palavras

Título original: Van Gogh: Painted with Words

Direção: Andrew Hutton

Lançamento: 5 de abril de 2010

Sinopse: Drama-documentário apresentado por Alan Yentob, com Benedict Cumberbatch no papel principal como Van Gogh. Cada palavra falada pelos atores neste filme é originado a partir das letras que Van Gogh enviou ao seu irmão mais novo, Theo, e daqueles ao seu redor. O que emerge é um retrato complexo de um homem sofisticado, civilizado e ainda atormentado. Esta é a história de Van Gogh em suas próprias palavras.

O que dizer sobre um filme que traz o seu pintor E o seu ator favorito? Benedict Cumberbatch simplesmente se entrega aos tons sombrios e solitários de Van Gogh; é quase possível pensar que Van Gogh voltou à vida. Baseado nas cartas para Theo, o documentário da BBC aprofunda as informações que temos sobre o artista, que são maravilhosamente encenadas por Cumberbatch, tornando esta uma das produções mais completas sobre o pintor, na minha opinião. Apenas assistam e se entreguem!

Citei dois filmes que gosto muito e que fazem justiça à memória de Van Gogh. Mas existem diversas outras produções, como o episódio maravilhoso da série britânica Doctor Who, que trouxe o artista para os dias atuais.  E já estou ansiosa pelo lançamento de uma delas: o filme No portal da eternidade, com o ator Willem Defoe no papel do pintor. Dirigido por Julian Schnabel, que coescreveu o roteiro ao lado de Jean-Claude Carrière e Louise Kugelberg, aborda a melancolia e isolamento durante sua vida adulta, assim como seu relacionamento com Paul Gauguin (Oscar Isaac) e com seu irmão Theo (Rupert Friend). O longa é ambientado na cidade de Arles, onde Van Gogh pintou mais de 75 telas em 80 dias, uma delas sendo a famosa O Quarto de Arles, e tem previsão de estreia no cinema no dia 07 de fevereiro. Pelas imagens e trailer de divulgação (lindo, por sinal), já vou preparar o meu lencinho.

Van Gogh pintou mais de 2 mil quadros, entre paisagens, elementos da natureza, retratos, autorretratos, cafés, representações de camponeses, flores (como o girassol, que ele tanto adorava). Também teve inspiração na cultura japonesa. Seu legado inclui mais de 800 pinturas a óleo, especialmente nos dois últimos anos de sua vida. Se em vida sofreu com a falta de dinheiro, hoje suas obras figuram entre as mais caras do mundo.

“Agora vivemos num mundo em que a pintura está tomada de pessoas que ganham muito dinheiro. […] E não pense você que estou imaginando coisas. As pessoas pagam muito pela a obra quando o próprio pintor se suicida.” [Carta de Van Gogh a Theo, Arles, entre 16 e 20 de junho de 1888].

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Bruna Bengozi

Bruna é mestra em História pela USP, redescobriu (e redescobre) o amor pelos livros, pela música e pela vida. Aguarda ansiosamente a queda do capitalismo e do patriarcado. Sofre de "síndrome do impostor".

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