Grandes olhos: um filme sobre arte e relacionamento abusivo

Quando decidi assistir Grande Olhos (no original Big Eyes, com direção de Tim Burton), foi numa das tantas vezes que fiquei procurando alguma coisa interessante na Netflix. Já cansada da busca, eu simplesmente gostei da imagem de capa do filme. E, para a minha surpresa, pois eu estava procurando apenas algo simples para me distrair, me surpreendi muito com a história verídica da artista Margaret Keane.

Contém spoiler.

No início do filme, um clima de romance paira no ar. A artista, no início de sua carreira, durante uma pequena exposição em uma feira, conhece o seu futuro marido, que demonstra gostar muito de sua obra, apesar das pessoas que por ali passam não se atraírem com as mulheres, meninas e crianças pintadas com grandes olhos, uma marca nas obras de Margaret Keane.

Porém, por questões de mercado, da sociedade da época e do machismo de seu marido Walter Keane, é ele que se coloca à frente da arte de sua mulher, pois, com a desculpa de que, como mulher, ela não conseguiria vender suas obras, atrelada ao fato que, a princípio, o marido realmente parecia ter talento para as vendas, ele passa a assinar todas as obras. E ela, cada vez mais, trancada em sua casa produzindo as obras sem ter qualquer reconhecimento.

Por questões complexas demais, porém claramente atreladas ao machismo e ao relacionamento abusivo, Walter vai se sentindo cada vez mais poderoso e sua mulher, cada vez mais diminuída perante ele. Cenas de desrespeito e violência acontecem, até o ponto em que aquele marido gente boa que só queria ver a mulher fez, se transforma realmente em um mostro.

É dolorido acompanhar a trajetória de Margaret Keane, pois, sem forças para reagir, ela vai se apagando em cada momento da história. Um apagamento tão comum quando se vive com pessoas abusivas.

Mas como toda boa história de empoderamento das mulheres, o final do filme, por nossa sorte, já é esperado. Hoje a artista, de 91 anos, vive exclusivamente de seu trabalho e teve o devido reconhecimento. Walter Keane destruiu sua própria reputação quando ela decidiu dar às caras ao mundo e o processou. Ele faleceu em 2000 e ficou conhecido como um falsário e explorador.

Conheça algumas obras de Margaret Keane no site. 

Francine Ramos

Faz da Livro&Café parte essencial de sua vida desde 2011. É professora de Língua Portuguesa, adora ler, escrever (um dia vai publicar um livro) e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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