Oryx e Crake (Margaret Atwood): uma trilogia que começa em grande estilo

Margaret Atwood é uma escritora canadense que somente agora começa a se destacar no Brasil. Tudo por conta de seu livro que originou a série “O Conto da Aia”, que, como a autora diz, é uma ficção especulativa sobre como seria as nossas vidas se um governo religioso chegasse ao poder. Já o seu romance Oryx e Crake (Editora Rocco), lançado em 2003 é o primeiro de uma trilogia sobre o fim do mundo e o seu reinício a partir do avanço da tecnologia e a irresponsabilidade do capitalismo.

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O livro é narrado em terceira pessoa e faz uso de um tempo não-linear para percorrer o que sobrou do mundo após uma série de eventos ruins que, a princípio, o leitor não entende como a história chegou àquele caos. O personagem principal, conhecido como “O homem das neves”, parece ser o único humano que sobreviveu – e sobrevive – após eventos desastrosos terem acabado com a humanidade. E, isolado em uma floresta, sem confortos ou tecnologias, o personagem vai aos poucos se desvendando para o leitor, na mesma proporção que mostra recortes de seu passado e do seu presente. Sim, o futuro é totalmente incerto do começo ao fim desse primeiro volume, o que deixa o leitor satisfeito pela qualidade da obra, mas com muita curiosidade para desbravar os outros livros da trilogia.

O chamado Homem das Neves, antes do caos atingir o mundo, era um jovem praticamente comum. Frequentava uma escola, não era um dos melhores alunos tampouco possuía grandes habilidades sociais. E ele também tinha um melhor amigo, ambicioso, melhor aluno e de família rica. Os dois se divertiam com jogos eletrônicos e pornografias. Após o período escolar, cada um seguiu o seu caminho, porém, ainda faziam contato um com o outro para manter a amizade.

O chamado Homem das Neves também, em seu momento presente, conversa com seres estranhos, que não possuem a mesma habilidade de linguagem comum aos seres humanos, mas aparentam uma certa pureza e perfeição perante uma vida totalmente integrada à natureza.

Homem das Neves também precisava lidar com animais diferentes, produzidos em laboratório para diversos meios. Como porcos gigantes capazes de desenvolver diversos órgãos usáveis em seres humanos. Porém, como as empresas que produziam esses animais se transformaram em ruínas, os “porcões”, como ele os chamavam, se tornaram pragas, capazes de devorar qualquer tipo de vida.

“(…) mas ele precisava anestesiar a dor. A dor de quê? A dor dos lugares em carne viva, as membranas danificadas pelos golpes causados pela Grande Indiferença do Universo. O universo era uma mandíbula de tubarão. Uma fileira atrás da outra de dentes pontudos e afiados.” (p. 246)

À medida em que a história avança, o leitor começará entender as intenções do Homem das Neves e também de seu amigo de infância. Uma garota também surgirá na história e terá um papel crucial para a conclusão das ambições de seu melhor amigo. Se por um lado, o Homem das Neves desconfiava dos rumos da tecnologia, o seu melhor amigo via nos avanços tecnológicos uma grande possibilidade de alcançar a tão sonhada imortalidade.

Nesta obra, Margaret Atwood lança luz em diversos aspectos que nos tornam humanos. Ela encara os limites dos nossos desejos, de nossas estruturas culturais e sociais e nos oferece uma amostra do que seríamos sem todas as coisas a qual estamos tão habituados, como o poder de se comunicar e se fazer entender. Um poder já tão escasso nos dias de hoje para uma certa parte da população e tão intensa em outras; e tantas outras que a usam como um real instrumento de controle e poder.

No início de tudo, as entrelinhas de Margaret Atwood nos diz, como a nossa linguagem se construiu. Por que a utilizamos e precisamos de tantos sons que se transformam em palavras e depois em nossas próprias verdades e consequências. O que seríamos se não estivéssemos em cima dessa gigante torre de Babel?

“Jimmy percebeu que o seu rosto ia ficando mais vermelho e sua voz mais esganiçada à medida que Crake ia se tomando mais revoltado. Ele odiava isso. – Quando uma civilização se transforma em cinzas – ele disse -, tudo o que resta é a arte. Imagens, palavras, música. Estruturas imaginativas. O significado… quer dizer, o significado humano… é definido por elas. Você tem que admitir isso”. (p. 160)

O romance ganha força a cada capítulo. Eles são curtos, mas eficazes por dar ao leitor a oportunidade de acompanhar a vida de um homem que se vê obrigado a criar as primeiras lendas e mitos para um novo grupo de criaturas que, por diversas razões, pedem a ele explicações sobre suas existências. A imagem que fica é que também podemos ser apenas uma consequência do início de tudo – quando nossos ancestrais pediram explicações e assim deuses, deusas, o bem e o mal ganharam forma e também vida dentro de nós de uma forma tão intensa que até hoje molda e controla as nossas vidas.

O tempo não-linear vai se encaixando no decorrer da história. O leitor, curioso pelo suspense e mistério que a obra provoca irá perceber o ponto em que tudo fará sentido. Será um prazer, mas também causará uma preocupação quanto ao futuro, pois já sabemos que o cuidado com o planeta e com as pessoas é algo cada vez mais escasso neste nosso mundo moderno que avança sem escrúpulos.

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Francine Ramos

Faz da Livro&Café parte essencial de sua vida desde 2011. É professora de Língua Portuguesa, adora ler, escrever (um dia vai publicar um livro) e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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