Todos os dias me apaixono pelas palavras

Todos os dias eu me apaixono pelas palavras. Todos os dias tenho a oportunidade de ler, falar e ouvir. E todos os dias também tenho obrigações e compromissos, mas ainda consigo – e espero conseguir sempre – ter um momento, mesmo pequeno, que tudo me ilumina por ver a força das palavras.

No trabalho, com os meus alunos, me pego rindo de suas respostas nas atividades de interpretação de texto. Em alguns momentos por ver graça, em outros por realmente ficar impressionada com suas capacidades interpretativas – algo tão raro hoje.


Naquela pausa para o café, também consigo me encantar com as conversas rápidas com os outros professores. O bom humor e o sorriso estão presentes e tudo isso porque, com as palavras, a gente se entende e se admira.

No trânsito, tenho mania de ler os nomes das lojas e fico criando histórias sobre aquela pessoa que acabou de atravessar a rua com pressa. Pra onde ela vai? Qual é a sua história? Ela gosta de Beatles? Ela votou em quem? E vou construindo histórias com as minhas palavras.

Em casa, leio alguns livros. Muitas vezes só fico olhando algum programa simples na televisão. E de repente, me vem uma ideia, um detalhe ao longo do dia que me escapou, mas que consigo recuperar como uma caçadora de borboletas. Os dias são cheios, as pessoas falam e falam. Todos em seus desesperos pela comunicação. Também faço parte delas. Também falo.

Se eu tenho uma lembrança sobre como iniciou essa minha paixão pelas palavras, não sei mais se ela é uma verdade ou algo que criei para explicar todos os dias minha paixão por elas. É assim: eu sou uma pessoa simples, eu não faço grandes coisas, não sou guerreira, não salvo vidas, não pulo em penhascos, não vou até Mordor destruir um anel.

Então, no meu passado, eu ficava triste por não ser assim, por não ser uma pessoa de grandes ações. Mas um dia eu me encantei pelo fluxo de consciência de Virginia Woolf, eu me encantei por saber de sua vida sem grandes ações – no sentido de movimento físico, mas que mesmo assim ela conseguia transformar um único dia ou um simples momento em algo extraordinário.

De repente, percebi que a minha vida era grandiosa, porque, com as palavras, eu posso construir e interpretar minhas forças. Eu percebo os meus segundos para que eles sejam eternos. É mais ou menos isso. É por isso que eu me apaixono pelas palavras todos os dias. Elas eternizam e transformam tudo o que sou.

Imagem: Sarah Jarrett





Saraiva

Francine Ramos

Faz da Livro&Café parte essencial de sua vida desde 2011. É professora de Língua Portuguesa, adora ler, escrever (um dia vai publicar um livro) e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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