Razão e Sensibilidade: resenha de uma leitura abandonada

Comecei a leitura de Razão e Sensibilidade na semana passada. Não é o primeiro livro da Jane Austen que leio. Comecei por Orgulho e Preconceito há dois anos. E também preciso dizer que não foi a leitura mais gostosa do mundo. Explico.

Primeiro: quero deixar claro que esse é um relato de minha experiência e não tem nada a ver com julgar se o livro é de qualidade ou não. Quem sou eu na fila das suas referências de crítica literária, não é mesmo? Longe de mim uma tarefa árdua dessa. Segundo: esse é um relato sobre como a leitura mexeu comigo e despertou certos monstrinhos interiores. Dito isso, vamos ao que interessa.

O narrador (ou a narradora, por que não?) em Razão e Sensibilidade

Jane Austen publicou seus livros numa época em que não era tão ok assim uma mulher ser escritora. E isso, acredito eu, talvez seja uma das razões para ela ter construído esse tipo de narrador.

A narração desse livro, assim como em Orgulho e Preconceito, é em terceira pessoa. Mas, esse narrador não é nada neutro. Você percebe ao longo da leitura que ele tem um lado e esse lado é o que favorece a perspectiva da protagonista. No caso de Razão e Sensibilidade, é Elinor.

Elinor, assim como a protagonista de Orgulho e Preconceito, possui uma visão crítica das pessoas a sua volta. Ela é uma mulher sensata, equilibrada e sensível. Perfeita. E usa toda a sua sabedoria para analisar o que está ao seu redor, gentilmente acompanhada pelo narrador, que endossa essa análise. E aqui preciso colocar uma ressalva.

Entendendo o contexto em que esses livros foram escritos, é realmente encantador mostrar mulheres lúcidas, inteligentes e críticas. As mulheres eram vistas como inferiores, “sentimentaloides” e frágeis naquela época, e ainda são, infelizmente. Criar esse tipo de protagonista e um narrador que não a diminua foi o grande trunfo de Jane. Reconheço isso.

Só que eu não sou Elinor, então, tenho muitas emoções que não compreendo, sou desequilibrada e fico perdida com facilidade. Logo, a perfeição de Elinor começou a me incomodar. Muito.

A perfeição como fachada

Sabe, me identifico mais com os personagens coadjuvantes que ela critica o tempo todo. Esses outros personagens são pessoas passionais, emotivas e desequilibradas. Parecem-se mais comigo (riso de desespero). E, por isso, tenho a impressão de que eles são mais plausíveis. Aí, como o narrador toma partido de Elinor o tempo todo, acho que acabo mexendo em feridas do passado.

Senti uma inveja danada dela! De repente, estava lendo em busca de um vislumbre de sua imperfeição. Esperando o momento de vacilação dela para poder dizer: “aí está um sinal de vida nessa moça!”. Comecei a implicar com o que ela dizia, com a maneira dela corrigir todos a sua volta. Chegue a revirar os olhos… Em certo momento, comecei a detestar minha própria postura em relação à Elinor. E a leitura não avançou mais.

Mulheres racionais, sensatas e inteligentes existem. Elas construíram e constroem coisas incríveis no mundo. Fico muito feliz de pensar nisso. E mais feliz ainda se tomo consciência de que mesmo sendo maravilhosas, elas têm dúvidas, sofrem com seus erros e, às vezes, são levadas pelas emoções. Ver isso é libertador para mim. Por isso que amo personagens problemáticos! Porque sou problemática também! É normal sermos complicadas num mundo complicado. Como é bonito perceber o emaranhado da personalidade!

Você não acha?

A postura de quem sabe tudo, faz tudo melhor do que você e tem que te ensinar porque você é incapaz de se virar sozinha esteve presente durante toda a minha vida. Foram figuras familiares que me faziam sentir inadequada. Não me ajudavam a lidar com minhas emoções, mas ditavam como eu deveria agir e mostravam sua própria experiência como o caminho certo. E julgavam, como julgavam… Sério, isso é um ponto sensível para mim. Pode ser que para você não seja; neste caso, só posso desejar que você imagine como é.

Ler Jane Austen, para mim, é como ler um livro escrito por essas pessoas que me machucaram. Ao mesmo tempo, é bom encarar esses sentimentos. Tenho inveja dessa Elinor perfeita, mas o mais significativo é: suspeito da perfeição. Muitas vezes, essa pessoa ideal é apenas uma fachada bonita ao redor de um vazio bem atordoante. Outras vezes, nem é algo tão radical assim, é apenas uma névoa criada para impedir os outros de ver suas aflições.

E aí começo a pensar: até que ponto também não jogo esse jogo? Quais são os momentos que tento bancar a durona só pra não expôr minhas fragilidades? E mais: por que julgo o comportamento do outro? Por que insisto em esquecer minhas próprias limitações?

Compartilhando essas sensações com minha amiga Camis Fontenele, ela disse que não se atraía por esse tipo de livro, que se sentia impelida a outras leituras. Nesse momento, caiu minha ficha. Se não tá gostoso, por que continuar? Só pra dizer que li? Essa desistência não é perpétua, sei disso. Uma hora vou me sentir à vontade para encarar essa leitura. Por enquanto, resolvi dar prioridade para o que me atrai agora.

Acredito que Elinor não tinha uma perfeição de fachada, essa foi uma reflexão que tive a partir das minhas percepções da leitura. Infelizmente, porém, isso me faz não conseguir acreditar nela como uma personagem verossímil. De qualquer modo, espero estar preparada para Jane Austen no futuro.

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* Imagem de capa: cena do filme “Razão e Sensibilidade”, de 1995.





Mari Mendes

Estudante de jornalismo e redatora. É autora de Potências do Encontro, livro de contos acolhido e publicado pela Editora Patuá, com lançamento previsto para 2019. Escrever, para ela, é se amar.

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