Coração Azedo (Jenny Zhang) e a necessidade de conexão

Jenny Zhang nasceu em Xangai, mas mora nos Estados Unidos desde os cinco anos. Coração Azedo, seu livro de contos, retrata a vida de famílias como a dela: imigrantes chineses que buscam se adaptar e viver em uma Nova York bem diferente daquela vendida pelas companhias de viagem, uma cidade que tenta de todas as formas esmagar o tal American Dream.

Conhecemos esses imigrantes pelos olhos e pelas vozes de seis meninas que, sem muito filtro e por vezes sem entender muito bem aquilo que se passa, nos mostram as mais diversas faces da pobreza, da fome e dos dramas familiares:

Muitas vezes eu voltava para uma casa vazia sem nada para me distrair a não ser o desejo pegajoso de encontrar todas as formas possíveis de me sacrificar o suficiente para alcançar meus pais, que se sacrificavam o tempo todo. Mas eu não conseguia nem começar a competir com a minha mãe, que foi demitida do emprego em que fazia donuts depois que passou a noite na rua procurando uma escrivaninha para que eu não precisasse fazer as tarefas da escola no chão ou na cama ou em pé com o meu caderno apoiado na parede […]. Ou como é que eu poderia competir com o meu pai, que era tão bom em nunca desperdiçar nada, como daquela vez quando eu tinha quatro anos e vomitava tudo o que comia e ninguém conseguia entender nada […] meu pai pegou a comida que eu tinha vomitado com uma colher e colocou direto na própria boca para que nem uma migalha de comida fosse desperdiçada, porque naquela época as porções diárias do que podíamos comprar e comer eram bem controladas, e o único jeito de repor a comida que eu tinha vomitado era substituindo a porção de café da manhã ou almoço ou jantar do meu pai pelo meu arroz e legumes e porco regurgitados […].” (p. 14-15)

Os setes contos trazem toda uma carga de relações complicadas. Traições, falta de diálogo, violência, chantagens e abusos psicológicos são parte do cotidiano dessas crianças. Zhang escancara as dores de crescer em um ambiente incerto, em lares que remoem o passado, com pais que sentem por tudo o que perderam, por tudo o que poderiam ter sido e que esquecem de que, mais do que alimento e um teto, seus filhos também precisam de contato e de conexão. Essas famílias e crianças se relacionam. Além de dramas que, apesar de diferentes, parecem muito iguais, elas ou convivem na mesma comunidade ou conhecem as mesmas pessoas.

Jenny Zhang. Foto: Alex Hodor-Lee para a W Magazine.

Questões políticas e indagações sobre o existir e sobre a localização desse tal lugar para chamar de “seu” também estão muito presentes no cotidiano de meninas. Elas tentam, de todas as formas, equilibrar seus próprios dilemas, um passado desconhecido e um futuro incerto, tudo o que sentem e deixam de sentir e a convivência – física ou não – com parentes e fantasmas que não passam de meros desconhecidos.

Acho particularmente difícil comentar sobre Coração azedo por este ser um livro que não me agrada, de leitura lenta e enfadonha. Gosto bastante do primeiro conto e razoavelmente do último, mas os outros me parecem releituras de uma mesma história. A polifonia que se espera de um livro com diversas vozes narrativas é inexistente; as crianças falam, pensam e agem da mesma forma, seus defeitos e suas birras são muito semelhantes e, no fim, apesar de entender a sua importância, a obra só me parece repetitivo demais.

Independente de minha não tão agradável leitura, acho importante destacar que o livro esteve em evidência em diversas publicações, apareceu em várias listas de melhores do ano e conquistou o coração de grande parte de seus leitores. Talvez a maior graça do ler e compartilhar leituras seja exatamente esse mundo de sensações que um mesmo livro consegue causar: enfadonho para uns, incrível e desolador para outros. E assim seguimos, lendo e falando sobre isso, amando e odiando com a mesma intensidade.

Coração azedo foi publicado pela Companhia das Letras em agosto de 2018, com tradução de Ana Guadalupe.

 

Onde comprar o livro:
Amazon
Americanas
Saraiva

Avatar
Vanessa Pessoa

Vanessa é uma feminista introvertida, estuda letras na UFPR e coleciona uma porção de figos maduros que apodreceram aos seus pés. Gosta de livros riscados, lombadas quebradas, café sem açúcar e não sabe muito bem como escrever sobre ela mesma.

Não há comentários. Seja o primeiro!

Deixe um comentário

O seu e-mail não será publicado